Mais jovem brasileiro cassado pela ditadura militar, fundador do PDT permaneceu um inansável defensor da democracia no País
Morreu na noite dessa quinta-feira (30) o fundador do PDT Arthur José Poerner. Bacharel em Direito, com pós-graduação em Comunicação, Poerner foi escritor, jornalista, professor e compositor. Presidiu o Museu da Imagem e do Som (MIS) e o Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, além de lecionar Jornalismo na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
Participante ativo da resistência à ditadura militar, sobretudo no Correio da Manhã e no Pasquim — tendo também atuado no JB e em outras publicações — a tônica da trajetória de Partner foi a análise e crítica social, marca registrada de suas publicações, e o que lhe conferiu destaque na imprensa brasileira, vindo ele a se tornar o mais jovem brasileiro cassado pelo Golpe Militar de 1964, perdendo seus direitos políticos em 1966, por uma década.
Na literatura, também resistia à ditadura, escrevendo livros de conteúdo político e de protesto. Em 1968, publicou, pela Civilização Brasileira, sua mais importante obra: “O Poder Jovem — História da participação política dos estudantes brasileiros”, que veio a ser um dos 20 livros proibidos, no início do ano seguinte, em todo o território nacional.
Como aluno de Direito da Faculdade Nacional, participava ativamente do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco) e fazia a ponte entre o jornal e os estudantes. Preso em 1970, obteve asilo político na Alemanha. Voltou em 1984 como editor de Cultura da TV Globo.
Do inferno ao purgatório, saiu da prisão, no DOI-Codi no Rio, para o exílio na Alemanha, onde viveu por quase 14 anos. E lá, incansável, engajou-se na Campanha pela Anistia no Brasil.
Numa entrevista ao site da ABI, publicada em 18 de sezembro de 2008, Poerner, que foi Conselheiro da ABI, conta como foi sua prisão na redação do Correio da Manhã e sua passagem pelos porões do DOI-Codi, na Barão de Mesquita, que serviu de base para o romance Nas profundas do inferno, publicado na Espanha quando já estava exilado. Fala ainda das parcerias musicais com Baden Powell, João do Vale e Candeia, com quem se correspondia de Berlim para saber notícias da Portela e do mundo do samba.
Portelense, flamenguista e amante da boemia do Rio de Janeiro, Poerner escreveu, em parceria com Paulinho da Viola e Sérgio Cabral, livro em homenagem ao amigo Candeia. Com João do Vale, Baden Powell e Biafra compôs canções gravadas por Cristina Buarque, Eliana Pitman e Vanja Orico.
É membro titular do Pen Clube do Brasil e integrou o Conselho Deliberativo e a Comissão de Ética dos Meios de Comunicação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Condecorado, em 2000, com a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, e, em 2005, com o Título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro.
Sempre atuando junto aos jovens, dando palestras em universidades de todo o País, lecionando Jornalismo na UERJ e acompanhando a UNE, Poerner dizia que ainda via no jovem de hoje o mesmo interesse em mudar o mundo que havia em sua geração.
O velório e sepultamento foram realizados na tarde desta sexta-feira (01), no Cemitério São João Batista.
