Jornal confirma que Brizola foi vigiado 15 anos

No exílio, passos seguidos de perto. Brizola foi grampeado e vigiado por arapongas da ditadura durante 15 anos 

Documentos inéditos revelam que arapongas a serviço da ditadura militar perseguiram e espionaram o ex-governador Leonel Brizola nos 15 anos em que ele viveu no exílio, de 1964 a 1979. Chefiada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), a operação clandestina mobilizou dezenas de adidos militares e diplomatas do Centro de Informações do Exterior (Ciex), o serviço secreto instalado no Itamaraty durante o regime. Os arquivos mostram que até escutas ilegais foram usadas para vigiar Brizola.

O monitoramento começou assim que Brizola atravessou a fronteira com o Uruguai, disfarçado, dias depois do golpe que cassou seus direitos políticos e tirou seu cunhado, João Goulart, da Presidência da República.

No Uruguai, panfletos com discursos de Mao e Fidel Em julho de 1967, o Ciex relatou que o líder trabalhista alugara o apartamento 706 do edifício 1.082 da Avenida 18 de Julho, em Montevidéu. “Brizola já não esconde suas tendências políticoideológicas”, diz o documento, antes de acusá-lo de receber mil panfletos com discursos de Mao Tse-Tung e Fidel Castro.

Em abril de 1968, espiões com passaporte diplomático datilografaram o ofício secreto 184, intitulado “Atividades do asilado Leonel de Moura Brizola”. Acusaram o ex-governador de receber dólares do Partido Comunista uruguaio e relataram seus deslocamentos entre a capital uruguaia, o balneário de Atlântida e sua granja nos pampas.

Em outubro de 1970, o informe secreto 346 mirou em dois filhos de Brizola, José Vicente e José Otavio. No texto, o primogênito de Brizola é chamado de “marginado”. “Em 05/Jul/70, entraram no Brasil, via Chuí, viajando no VW placa 78.07.11, de cor branca, os filhos de Leonel Brizola”, diz trecho do documento.

Os arapongas monitoraram encontros do ex-governador com outros políticos de esquerda banidos pelos militares, como Miguel Arraes, Francisco Julião e João Goulart. Quando Brizola foi para a Europa, os relatórios passaram a narrar reuniões com líderes socialistas, como o ex-premier francês François Mitterrand, o ex-chanceler alemão Willy Brandt e o ex-presidente português Mario Soares.

Outro relatório a que O GLOBO teve acesso mostra que os arapongas grampearam uma ligação de Brizola, de Nova York, para aliados em Porto Alegre.

“Durante o contato telefônico foi captada a seguinte mensagem”, diz o dossiê: “Brizola está preparando um movimento, com sede no exterior, para eclodir no Brasil dentro de três a quatro meses.

No momento da eclosão, Leonel estaria em Nova Iorque e regressaria ao Brasil à testa do movimento”. O texto narra ainda um périplo de Brizola por dez países em quatro meses: Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Holanda, França, Suíça, Inglaterra, Venezuela, México e Senegal.

No mesmo ano, um ofício mostra que, em pleno processo de abertura, os militares ainda planejavam prender Brizola assim que ele pisasse no Brasil.

Brizola foi condenado cinco vezes à revelia Na nota secreta 03/78, o procuradorgeral da Justiça Militar, Milton Menezes da Costa Filho, informa ao ministro da Justiça, Armando Falcão, que o exilado tinha cinco condenações à revelia.

A cada processo, repetese o mesmo aviso: “Os autos se encontram sobrestados no Superior Tribunal Militar, aguardando a captura de Leonel Brizola”.

Apesar dos planos da linha dura, a Anistia permitiu que Brizola voltasse ao país no ano seguinte, para retomar a carreira política


















No exílio, passos seguidos de perto. Brizola foi grampeado e vigiado por arapongas da ditadura durante 15 anos 

Documentos inéditos revelam que arapongas a serviço da ditadura militar perseguiram e espionaram o ex-governador Leonel Brizola nos 15 anos em que ele viveu no exílio, de 1964 a 1979. Chefiada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), a operação clandestina mobilizou dezenas de adidos militares e diplomatas do Centro de Informações do Exterior (Ciex), o serviço secreto instalado no Itamaraty durante o regime. Os arquivos mostram que até escutas ilegais foram usadas para vigiar Brizola.

O monitoramento começou assim que Brizola atravessou a fronteira com o Uruguai, disfarçado, dias depois do golpe que cassou seus direitos políticos e tirou seu cunhado, João Goulart, da Presidência da República.

No Uruguai, panfletos com discursos de Mao e Fidel Em julho de 1967, o Ciex relatou que o líder trabalhista alugara o apartamento 706 do edifício 1.082 da Avenida 18 de Julho, em Montevidéu. “Brizola já não esconde suas tendências políticoideológicas”, diz o documento, antes de acusá-lo de receber mil panfletos com discursos de Mao Tse-Tung e Fidel Castro.

Em abril de 1968, espiões com passaporte diplomático datilografaram o ofício secreto 184, intitulado “Atividades do asilado Leonel de Moura Brizola”. Acusaram o ex-governador de receber dólares do Partido Comunista uruguaio e relataram seus deslocamentos entre a capital uruguaia, o balneário de Atlântida e sua granja nos pampas.

Em outubro de 1970, o informe secreto 346 mirou em dois filhos de Brizola, José Vicente e José Otavio. No texto, o primogênito de Brizola é chamado de “marginado”. “Em 05/Jul/70, entraram no Brasil, via Chuí, viajando no VW placa 78.07.11, de cor branca, os filhos de Leonel Brizola”, diz trecho do documento.

Os arapongas monitoraram encontros do ex-governador com outros políticos de esquerda banidos pelos militares, como Miguel Arraes, Francisco Julião e João Goulart. Quando Brizola foi para a Europa, os relatórios passaram a narrar reuniões com líderes socialistas, como o ex-premier francês François Mitterrand, o ex-chanceler alemão Willy Brandt e o ex-presidente português Mario Soares.

Outro relatório a que O GLOBO teve acesso mostra que os arapongas grampearam uma ligação de Brizola, de Nova York, para aliados em Porto Alegre.

“Durante o contato telefônico foi captada a seguinte mensagem”, diz o dossiê: “Brizola está preparando um movimento, com sede no exterior, para eclodir no Brasil dentro de três a quatro meses.

No momento da eclosão, Leonel estaria em Nova Iorque e regressaria ao Brasil à testa do movimento”. O texto narra ainda um périplo de Brizola por dez países em quatro meses: Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Holanda, França, Suíça, Inglaterra, Venezuela, México e Senegal.

No mesmo ano, um ofício mostra que, em pleno processo de abertura, os militares ainda planejavam prender Brizola assim que ele pisasse no Brasil.

Brizola foi condenado cinco vezes à revelia Na nota secreta 03/78, o procuradorgeral da Justiça Militar, Milton Menezes da Costa Filho, informa ao ministro da Justiça, Armando Falcão, que o exilado tinha cinco condenações à revelia.

A cada processo, repetese o mesmo aviso: “Os autos se encontram sobrestados no Superior Tribunal Militar, aguardando a captura de Leonel Brizola”.

Apesar dos planos da linha dura, a Anistia permitiu que Brizola voltasse ao país no ano seguinte, para retomar a carreira política