Discurso de Ciro Gomes no Seminário “O PDT Sabe Fazer”

Companheiras e companheiros do meu heroico e honrado PDT,

Peço, que antes de ouvirem o que tenho a dizer hoje, vejamos este breve vídeo, que eu mesmo narrei.

Isto, mesmo, companheiros!

Se nós acertarmos o ponto certo das inúmeras rachaduras, esta barragem arromba.

Arromba de vez! E o Brasil se libertará da mais artificial e perigosa polarização da sua história.

Tenham certeza de que isso é possível! Tenham certeza de que o povo brasileiro vai concretizar este feito, nos próximos meses!

Porque a tal polarização está assentada em bases tão frágeis e artificiais, que irá desmoronar tão logo a campanha avance. Tão logo o debate eleitoral se aprofunde e a população perceba que os dois lados estão manipulando seu medo e sua miséria, em favor da perpetuação de um modelo que vem destruindo nosso país há décadas.

Quando isso ficar claro, este castelo de cartas ruirá; estas duas esculturas de areia vão se dissolver e virar poeira tóxica, levadas pelo vento da história.

Os primeiros a se surpreender com o fenômeno serão certos “analistas”, que hoje decretam que os resultados eleitorais já estão consumados.

Os segundos a se surpreender serão certos apoiadores oportunistas e fisiológicos, que sempre procuram o barco que parece mais seguro, não importa qual seja seu rumo. Pouco interessa a eles se este barco vá pra direita, vá pra esquerda ou que afunde a nação.

O que querem é lucrar, se locupletar, mergulhar na orgia. Não percebem que possam estar se lambuzando no último baile do Titanic.

E podem se afogar juntos!

Mas eu sei de pelo menos duas pessoas que não irão se surpreender com o estouro da barragem.

Refiro-me, paradoxalmente, a Bolsonaro e a Lula. Tenho certeza de que eles dormem com medo e ansiedade, porque sabem que o cenário pode e vai mudar.

Na verdade, os dois temem mais o estouro da barragem do que o duelo que encenam na beira do abismo.

As evidências deste medo são os acordos vergonhosos e a venda de indulgências para um paraíso imaginário que Lula faz, de um lado.

E a distribuição de benesses eleitoreiras e as ameaças com o inferno do autoritarismo que Bolsonaro faz, do outro. Os dois agem, neste jogo, com a velocidade de quem rouba. Mas se eu sei os que irão e os que não irão se surpreender, eu sei, principalmente, os que mais vão chorar quando a barragem estourar.

Serão os barões do mercado financeiro, que vêm lucrando, há décadas, com os juros mais altos do mundo, com a maior concentração bancária do planeta, e com as maiores concessões e facilidades já dadas a um grupo de sanguessugas ao longo da história.

Estes terão muito o que perder e terão muito o que chorar.

Mas que choro bom e merecido, meu Deus!

Companheiras e companheiros,

Nunca o país viveu um momento tão difícil como o de hoje.

E, enquanto prevalecer este cenário de polarização maléfica, também podemos dizer que o Brasil nunca vai parecer tão sem rumo e sem saída.

Um país sem futuro, condenado a repetir os mesmos erros e continuar estagnado na mediocridade econômica e na trapaça política.

Lula e Bolsonaro, não canso de repetir, são pessoas de história e personalidades bem diferentes.

Os governos de Lula, comparados aos de Bolsonaro, foram melhores em muitos aspectos.

Mas são iguaizinhos naquilo que, neste momento, mais sacrifica o país, a manutenção do mesmo modelo econômico e do mesmo tipo de governança política, que há décadas vêm nos castigando.

Qualquer um dos dois, se eleito, manteria o famigerado tripé macroeconômico -ajuste fiscal, meta de inflação, cambio flutuante- uma engenhoca que envelheceu, atrofiou o crescimento, debilitou a economia e empobreceu o povo.

Enquanto corroía quase tudo em sua volta, este modelo garantiu os privilégios do sistema financeiro em detrimento do setor produtivo, praticando a maior taxa de juros do mundo.

Promoveu a maior e mais lucrativa concentração bancária do planeta, com cinco bancos controlando 85% do mercado, e quatro deles na lista dos dez mais lucrativos do mundo.

Enquanto isso, a população empobrecia, as famílias honestas se endividavam e o Brasil se tornava um dos países mais desiguais da humanidade.

Enquanto isso, deixaram intacto um dos sistemas tributários mais injustos do planeta, onde os pobres e a classe média pagam mais impostos do que os ricos e os super ricos.

Mas a tragédia e ameaça que Lula e Bolsonaro representam não se resumem à economia.

Muito pelo contrário: a política dos dois também está enraizada nas práticas mais decadentes e corruptas que acorrentam o país há décadas.

Na maior cara de pau, os dois se dizem diferentes na economia e na política; e, cada um a seu modo, se diz salvador da pátria.

Os salvacionistas ligados a Bolsonaro defendem que caos é ordem, que incompetência é eficiência, que imoralidade é religião, que desmatamento é preservação ambiental, e que o Brasil está em boas mãos.

Os salvacionistas ligados a Lula defendem que é possível tapar os olhos, os ouvidos e o nariz para todos os tipos de erros, e mergulhar cegos em um projeto anacrônico que eles dizem ser a porta da salvação.

De um lado, querem transformar selvageria em heroísmo, e no outro transformar demagogia em solução.

No fundo, no fundo, pedem votos para deixarem tudo como está!

Ou para fazer pequenas maquiagens que logo vão se desmanchar nas lágrimas do povo.

Porque o modelo é o mesmo, as pessoas são as mesmas, as práticas políticas são as mesmas, e certos valores éticos são bem parecidos.

São dois atores encenando uma luta de um contra o outro, enquanto apregoam mudanças e soluções que nunca virão.

Um, com o script do que parece querer ser o da “mentira do bem”. (Como se houvesse mentira boa!)

Outro, com as mais escancaradas e maléficas das mentiras!

A mentira que leva à morte das pessoas e da democracia!

Um, com falsas bondades. Outro, com falsidades puras e simples!

Um que teve -e ainda tem- certa afinidade com o povo, mas que se desorientou, se corrompeu e se perdeu quase irremediavelmente. Outro que nunca teve afinidade com o povo e sempre procurou -e procura cada vez mais- enganá-lo e corrompê-lo com presentinhos de ocasião; ou amedrontá-los com historietas de bicho papão!

Um que aprimorou as técnicas de clientelismo e troca de favores vergonhosos no Congresso. Outro que as ampliou e transformou a corrupção em larga escala, fazendo vigorar o instrumento mais escandalosamente clientelista da história do parlamento, a famigerada emenda do relator!

Um que apoiou o golpe parlamentar que derrubou Dilma e fez declaração de voto enaltecendo um torturador. Outro que lamentou o golpe, mas que agora quer levar de volta, para dentro do palácio, os mesmos golpistas que esfaquearam Dilma pelas costas!

Por falar nisso, nossos irmãos bolivianos, quem diria, acabam de dar uma lição à esquerda de goela brasileira de como se deve tratar golpistas e usurpadores.

Aqui, não, esquerda e direita seguem embriagando o povo com promessas vãs, mesmo que a história esteja cheia de exemplos de quanto isto é perigoso.

Mas eles não sobreviverão. Esta barragem vai se romper!

Companheiros e companheiras,

Não há um só estudo sério, na área econômica e social, que não aponte as graves fissuras desta barragem.

Elas são tão numerosas que o povo já está começando a perceber que as rachaduras já vêm de muito tempo.

Impossível terem sido causadas pelos desmandos e incompetência de um só governo.

É uma erosão lenta e corrosiva que já se arrasta há décadas. É a erosão de um modelo econômico e um modelo de governança política.

Uma prova contundente disso são os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, PNAD, de 2021, divulgados na semana passada pelo IBGE. Os números são de clamar aos céus clemência e de cobrar vergonha às nossas classes dirigentes.  +

Está ocorrendo uma grave implosão social, com a miséria se alastrando, sem trégua, pelos lares e regiões mais pobres do país.

A PNAD mostra que 108 milhões de brasileiros são obrigados a viver com apenas R$14 em média por dia, isso em um dos países potencialmente mais ricos do mundo.

Isso explica por que milhões e milhões passam fome no país maior produtor de alimentos do mundo.

Isso explica por que a fortuna dos nossos 5 maiores bilionários é maior do que tudo que os 100 milhões de irmãos mais pobres possuem!

Esta tragédia vem se arrastando há muito tempo, mas nos últimos nove anos a situação se deteriorou a níveis alarmantes.

Neste período, em que Dilma, Temer e Bolsonaro se sentaram na cadeira presidencial, os 5% mais pobres perderam quase metade da renda.

Ela era de R$75 mensais em 2012, e caiu para R$39 em 2021 (-48%), sempre descontada a inflação.

Reflitam bem sobre os números que citei agora: em 2012, era áurea do PT, a renda média mensal dos mais pobres era de R$ 75 mensais.

Esta é a era do paraíso petista!

O PT que tanto gastou o termo “herança maldita”, referindo-se a FHC, será que aceitaria que chamássemos isso também de “herança maldita”?

Mas sejamos generosos.

Lembremos que a pobreza e a miséria sempre existiram no Brasil e que diminuiu um pouco na era Lula.

Mas mesmo com toda esta generosidade, não podemos deixar de ressaltar que se o Brasil tivesse passado pelas apregoadas transformações profundas que dizem que passou, tudo não teria desmoronado, como desmoronou, de forma tão rápida e fulminante.

Foi uma legítima casa de papel!

Ou seja: o tempo de relativa bonança foi muito fugaz; durante este breve tempo, gastaram errado e incentivaram o consumismo irresponsável; não implementaram reformas profundas; não qualificaram o ensino nem o trabalho.

Em resumo: mantiveram o mesmo modelo; se contentaram com voos de galinha, sem jamais tentar legítimos voos de águia.

Buscaram mais a própria sobrevivência política do que, verdadeiramente, a sobrevivência do país e a redenção das pessoas mais pobres.

Os números da PNAD de 2021 mostram que aquilo que há décadas já era ruim, ficou ainda pior. Que os curtíssimos períodos de melhoria de renda não eram sustentáveis e não venceram verdadeiramente a miséria.

Bolsonaro, que, igual a Temer, faz parte também desta herança maldita, tem parcela importante de culpa na atual realidade. Mas são igualmente culpados os que mantiveram o modelo econômico que vinha desde FHC, e enganaram o povo vendendo feitos espetaculares que, na verdade, nunca existiram.

Companheiras e companheiros,

Mesmo com todos estes problemas, inconsistências e contradições, esta barragem artificial de votos não vai estourar se não fizermos a nossa parte.

Mais que nunca precisamos nos unir e lutar – e estas são duas características marcantes do PDT, ao longo de sua história.

Ao contrário de outros candidatos, nossa união se dá através de um plano sério e profundo, o Projeto Nacional de Desenvolvimento, que, mesmo de qualidade reconhecida, continua sendo aperfeiçoado, a cada dia, com a contribuição de muitos colaboradores.

E este aperfeiçoamento continuará não só até o último dia de campanha, mas até meu último dia de governo.

Não me considero salvador pátria, iluminado, doutor sabe tudo, ou primeiro da classe.

Quero ser, sim, o primeiro servidor da República com as responsabilidades e esforço que isso exige.

Companheiros e companheiras,

Estamos nos aproximando dos momentos decisivos para começar a romper esta polarização entre o ruim e o pior.

Dentro de poucos dias, a atenção popular, que ainda está muito dispersa, se voltará para as eleições.

Aí, começará a grande mudança.

Precisamos sacudir a população deste estado de torpor e medo no qual ainda se encontra e realizarmos, juntos com todos as mulheres e os homens deste pais, o projeto de transformação da nossa pátria querida.

A situação está tão confusa, que, muitos dos que mais sofrem não pensam automaticamente em mudar, o que seria o natural.

Mas não fazem isso porque têm medo de que as coisas possam piorar ainda mais.

Que descredito no nosso país, que descredito principalmente em nós, políticos!

Do outro lado, temos irmãos e irmãs que se confundem com uma memória afetiva que apaga a verdadeira realidade do passado, e os empurra, mecanicamente, para o mais do mesmo. Aliás, para o menos do mesmo!

Porque, a julgar pelo que vem dizendo e fazendo, Lula não conseguirá repetir o que já fez, em uma época que a situação mundial era melhor; muito menos fazer melhor neste tempo em que tudo é tão mais problemático e desafiador.

Companheiras e companheiros,

Novamente muitos, da esquerda e da direita, estão tentando aproveitar as circunstâncias para impedir que a população se informe, conheça as causas dos problemas, em suma, que perceba o obvio.

Eles sabem que quando isso aconteça, estarão com seus dias contados. Mas não conseguirão impedir a marcha da história.

Esta barragem vai estourar. E será melhor para todos, será melhor para o Brasil, que ela estoure o mais rápido possível. Que estoure pelo caminho do voto correto. Porque se não estourar agora, pelo caminho do voto correto, vai estourar mais tarde. E os efeitos serão devastadores.

Muitos que não conseguem rebater os meus argumentos dizem que sou agressivo, violento e pessimista. Vejam só, estes mesmos, que cometem a mais desatinada violência contra o povo, que é a mentira, que cometem a maior opressão que é o cerceamento do debate de ideias, que trabalham com ódios e venenos nas ruas e nas redes, dizem que eu sou destemperado.

Que me falta equilíbrio.

Dizem isso porque não podem me chamar de incompetente, de corrupto ou de covarde.

Hoje, véspera de Corpus Christi, lembro que o filho de Deus disse em Mateus: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada’.  A espada a que Cristo se referia, de forma metafórica, era a espada da libertação dos sentimentos vulgares, da coragem de enfrentar os desafios espirituais e materiais, e de vence-los. Não a espada metálica da guerra assassina.

Como mais humilde seguidor de Cristo, eu também digo que não quero a paz dos pântanos. Que eu também quero usar a espada metafórica da democracia e do discurso livre e corajoso da verdade para continuar me transformando para melhor e ajudar o Brasil a mudar.

Como quero ser o primeiro servidor da nossa República, não posso disfarçar sentimentos nem a minha indignação.

Não posso ser medroso, covarde ou desonesto. Não preciso me misturar com os fariseus. Quero ter a coragem de fazer a mudança que o Brasil tanto precisa. Não quero ser como alguns oponentes que são falsos, banais e pouco criativos.  Não trabalham a imaginação. Dormem com a mediocridade e acordam com a repetição. Estão presos em velhos dogmas e jogadas ensaiadas que não funcionam mais.  Recrutam o povo ingênuo e intelectuais fragilizados.

Companheiros e companheiras,

Mas o verdadeiro vencedor será o povo, na sua vontade livre, consciente e soberana. O caminho é claro. Basta deixar que esta mensagem chegue ao povo que ele saberá como se libertar.

Então, esta é a nossa missão, companheiras e companheiros. Esta campanha tem que ser mais que a troca de nomes, mais que a defesa de meros projetos pessoais. Temos que realizar um projeto de Brasil onde caibam todas as pessoas sérias e sinceramente empenhadas em mudar este pais.

E que saibam, como disse aquele grande mestre:

“INSANIDADE É CONTINUAR FAZENDO SEMPRE A MESMA COISA E ESPERAR RESULTADOS DIFERENTES.”

Desta vez, será diferente!

Muito obrigado. Vamos à luta!