Getúlio
O
legado de Vargas
Por
Darcy Ribeiro
Getúlio
Vargas (1883-1954) foi o maior dos estadistas brasileiros.
Foi também o mais amado pelo povo e o mais detestado
pelas elites. Tinha que ser assim. Getúlio obrigou
nosso empresariado urbano de descendentes de senhores de
escravos a reconhecer os direitos dos trabalhadores. Os
politicões tradicionais, coniventes, senão
autores da velha ordem, banidos por ele do cenário
político, nunca o perdoaram.
Os
intelectuais esquerdistas e os comunistas, não se
consolam de terem perdido para Getúlio a admiração
e o apoio da classe operária. Com eles, o estamento
gerencial das multinacionais. Getúlio foi o líder
inconteste da Revolução de 1930. Tendo exercido
antes importantes cargos, Getúlio pôde se pôr
à frente do punhado de jovens gaúchos que,
aliados a jovens oficiais do Exército - os tenentistas
-, desencadearam a Revolução de Trinta. A
única que tivemos digna desse nome, pela profunda
transformação social modernizadora que operou
sobre o Brasil.
No
plano político, a Revolução de 30,
proscreveu do poder os coronéis-fazendeiros com seus
currais eleitorais e destitiuiu os cartolas do pacto "café-com-leite",
que faziam da República uma coisa deles. Institucionalizou
e profissionalizou o Exército, afastando-o das rebeliões
e encerrando-o dentro dos quartéis.
No
plano social, legalizou a luta de classes, vista até
então como um caso de polícia. Organizou os
trabalhadores urbanos em sindicatos estáveis, pró-governamentais,
mas anti-patronais.
No
plano cultural, renovou a educação e dinamizou
a cultura brasileira. Getúlio governou o Brasil durante
quinze anos sob a legitimação revolucionária,
foi deposto, retornou, pelo voto popular, para cinco anos
mais de governo. Enfrentou os poderosos testas-de-ferro
das empresas estrangeiras, que se opunham à criação
da Petrobrás e da Eletrobrás, e os venceu
pelo suicídio, deixando uma carta-testamento que
é o mais alto e o mais nobre documento político
da história do Brasil.
Vejamos,
por partes, os feitos de Getúlio. Logo após
a vitória, estruturou o Governo Federal com seus
companheiros de luta, como Oswaldo Aranha e Lindolfo Collor,
aos quais se juntaram mais tarde Francisco Campos, Gustavo
Capanema, Pedro Ernesto e outros. Colocou no governo, também,
seus aliados militares - Juarez Távora, João
Allberto, Estilac Leal, Juracy Magalhães, entregando
a eles, na qualidade de interventores, o governo de vários
estados e importantes funções civis. Só
faltaram dois heróis do tenentismo: Luís Carlos
Prestes, porque havia aderido, meses antes, ao marxismo
soviético, e Siqueira Campos, que morreu num acidente
durante a conspiração.
O
Governo Revolucionário criou o Ministério
da Educação e Saúde, entregue a Chico
Campos, fundou a Universidade do Brasil e regulamentou o
ensino médio, em bases que duraram décadas.
Criou, simultaneamente, o Ministério do Trabalho,
entregue a Lindolfo Collor, que promulga, nos anos seguintes,
a legislação trabalhista de base, unificada
depois na CLT, até hoje vigente. O direito de sindicalizar-se
e de fazer greve, o sindicato único e o imposto sindical
que o manteria. As férias pagas. O salário
mínimo. A indenização por tempo de
serviço e a estabilidade no emprego. O sábado
livre. A jornada de 8 horas. Igualdade de salários
para ambos os sexos etc., etc.
Getúlio
inspirou-se, para tanto, no positivismo de Comte, que já
orientava a política trabalhista dos gaúchos,
do Uruguai e da Argentina. Oswaldo Aranha, à frente
do Ministério da Fazenda, reorganizou as finanças,
revalorizou a moeda nacional e negociou a velha e onerosa
dívida externa com os ingleses, em bases favoráveis
ao Brasil. Guerra de ideologias - Dois anos depois da revolução
vitoriosa, Getúlio enfrentou e venceu a contra-revolução
cartola, que estourou em São Paulo, defendendo a
restauração da velha ordem em nome da democracia.
Em
1934, convocou e instalou uma Assembleia Constituinte que
aprovou uma nova Constituição, inspirada na
de Weimar. Com base nela, foi eleito Presidente Constitucional
do Brasil. Getúlio teve que enfrentar, desde então,
a projeção sobre o Brasil das ideologias que
se digladiavam no mundo, preparando-se para se enfrentarem
numa guerra total. De um lado, os fascistas de Mussolini,
que se apoderaram da Itália, e os nazistas de Hitler,
que reativaram a Alemanha, preparando-se para se espraiarem
sobre o mundo. Do lado oposto, os comunistas, comandados
desde a União Soviética, com iguais ambições.
A direita se organizou aqui com o Partido Integralista,
que cresceu e ganhou força nas classes médias,
principalmente na jovem oficialidade das forças armadas.
Os
comunistas começaram a atuar nos sindicatos, estendendo
sua influência nos quartéis. Ampliaram rapidamente
sua ação, através da Aliança
Nacional Libertadora, que atraiu toda a esquerda democrática
e anti-fascista. Os comunistas conseguiram de Moscou, que
apoiava uma política de aliança com todos
os anti-fascistas do mundo, que abrisse uma exceção
para o Brasil, na crença de que aqui seria fácil
conquistar o poder, em razão do imenso prestígio
popular de Prestes.
Desencadearam
a intentona, em 1935, que foi um desastre. Não só
desarticulou e destroçou o Partido Comunista, mas
também provocou imensa onda de repressão sobre
todos os democratas, com prisões, torturas, exílios
e assassinatos. O resultado principal da quartelada foi
fortalecer enormemente os integralistas, abrindo-lhes amplas
áreas de apoio em muitas camadas da população,
o que lhes permitiu realizar grandes manifestações
públicas, marchas de camisas verdes, apelando para
toda sorte de propaganda, a fim de eleger Plínio
Salgado Presidente da República. Getúlio terminou
por dissolver o Partido Integralista, assumindo, ele próprio,
o papel de Chefe de um Estado Novo, de natureza autoritária.
Quebrou o separatismo isolacionista dos estados, centralizando
o poder e ensejando o sentido de brasilidade.
A
guerra - Em 1939 estalou a guerra. Todos supunham que a
propensão de Getúlio era de apoio às
potências do Eixo, em função da posição
dos generais . Surpreendentemente, Getúlio começou
a aproximar-se da democracia, através de Oswaldo
Aranha, que fez ver aos Aliados que Getúlio era propenso
a apoiar as democracias. Não o fez de graça,
porém. Exigiu dos Estados Unidos, como compensação
pelo esforço de guerra que faria, cedendo bases em
Belém e em Natal e fornecendo minério, borracha
e outros gêneros, duas importantíssimas concessões.
Primeiro, a criação de uma grande siderúrgica
que viria a ser a Companhia Siderúrgica Nacional,
a CSN, matriz de nossa industrialização. Segundo,
a devolução ao Brasil das reservas de ferro
e manganês de Minas Gerais e da Estrada e Ferro Vitória-Minas,
em poder dos ingleses. Com elas se constituiu a Companhia
Vale do Rio Doce que nas décadas seguintes teve um
crescimento prodigioso. Toda essa negociação
se coroou quando Getúlio consegue que Roosevelt viesse
a Natal, em sua cadeira de rodas, para conversar com ele,
consolidando aqueles acordos e obtendo do Brasil a remessa
de uma força armada para a batalha da Itália.
Com
a vitória dos Aliados na guerra, cresceu o movimento
de redemocratização do Brasil, que logo se
configurou como incompatível com a presença
de Getúlio no governo. Ele tentou conduzir o processo
e para isso criou, com a mão esquerda, o PTB, para
dar voz política aos trabalhadores; e com a mão
direita, o PSD, para expressar os potentados da administração
pública, com os quais governara. Gerando desconfiança
em todos, Getúlio finalmente caiu, num golpe militar
encabeçado por Góes Monteiro e Eurico Gaspar
Dutra, seu Ministro da Guerra. O governo foi entregue ao
Supremo Tribunal Federal, que convocou e realizou eleições,
nas quais se defrontaram, representando as forças
nominalmente democráticas, o Brigadeiro Eduardo Gomes
e, na vertente oposta, o general Gaspar Dutra. Ganhou Dutra,
graças ao apoio de Getúlio, que vivia desterrado
em sua fazenda de Itu, no Rio Grande do Sul. Simultaneamente,
Getúlio se elegeu Senador por São Paulo e
pelo Rio Grande do Sul, e Deputado Federal pelo Distrito
Federal, pelo Rio de Janeiro, por Minas Gerais, Bahia e
Paraná.
A
volta - Nas eleições de 1950, Getúlio
se candidatou à Presidência da República,
enfrentando Eduardo Gomes, mas encontrou um estado destroçado
e falido por Dutra, que, eleito por ele, governara com a
direita udenista. Getúlio, logo depois de empossado,
formulou nosso primeiro projeto de desenvolvimento nacional
autônomo, através do capitalismo de estado,
e um programa de ampliação dos direitos dos
trabalhadores. Começou a lançar os olhos para
a massa rural. A característica distintiva do seu
governo foi, porém, o enfrentamento do capital estrangeiro,
que ele acusava de espoliar o Brasil, fazendo com que recursos,
aqui levantados em cruzeiros, produzissem dólares
para o exterior, em remessas escandalosas de lucros. Toda
a direita, associada a essas empresas estrangeiras e por
ela financiada, entrou na conspiração, subsidiando
a imprensa para criar um ambiente de animosidade contra
Getúlio, cujo governo era apresentado como um "mar
de lama". Neste ambiente, o assassinato de um major
da Aeronáutica, que era guarda-costa de Carlos Lacerda,
por um membro da guarda pessoal de Getúlio no Palácio
do Catete, provocou uma onda de revolta, assumida passionalmente
pela Aeronáutica na forma de uma comissão
de inquérito, cujo objetivo era depor Getúlio.
A
crise se instalou e progrediu até a última
reunião ministerial, em que Getúlio constatou
que todos os seus ministros, exceto Tancredo Neves, viam
como solução a sua renúncia. Ele havia
recebido, através de Leonel Brizola, a informação
de que podia contar com as forças militares do sul
do país. Mas, para tanto, seria necessário
desencadear uma guerra civil. A solução de
Getúlio foi seu suicídio. Antes entregou a
João Goulart a Carta -Testamento, que passou a ser
o documento essencial da história brasileira contemporânea.
Virada
- O efeito do suicídio de Getúlio foi uma
revirada completa. A opinião pública, antes
anestesiada pela campanha da imprensa, percebeu, de abrupto,
que se tratava de um golpe contra os interesses nacionais
e populares, que era a direita que estava assumindo o poder
e que Getúlio fora vítima de uma vasta conspiração.
Os testas-de-ferro das empresas estrangeiras e o partido
direitista, que esperavam apossar-se do poder, entraram
em pavor e refluíram. As forças armadas redefiniram
sua posição, o que ensejou condições
para a eleição de Juscelino Kubitsheck.
O
translado do corpo de Getúlio, do Palácio
do Catete até o Aeroporto Santos Dumont foi a maior,
a mais chorosa e mais dramática manifestação
pública que se viu no Brasil. Pode-se avaliar bem
o pasmo e a revolta do povo brasileiro ante esta série
de acontecimentos trágicos, que induziram seu líder
maior ao suicídio como forma extrema de reverter
a seqüência política que daria fatalmente
o poder à direita (Darcy Ribeiro, 1994).