Darcy
Ribeiro
O
fantástico testamento de Darcy Ribeiro
Senador
inclui cavalo entre seus beneficiários e quer
transferir uma casa de Minas para o litoral do Rio
"Vinte
hectares de capim verde, garantia de que nunca mais puxará
carroça ou usará sela, liberdade para correr, relinchar
ou dormir quando o instinto mandar. O que mais pode um cavalo
querer? Para o manga-larga Preto, único animal do sítio
Tira-Teima, em Maricá, a 100 quilômetros do Rio, a vida
mansa começou há três anos e não tem prazo para acabar.
Foi um presente deixado pelo senador Darcy Ribeiro antes
de morrer de câncer, em fevereiro de 1997. “Meu cavalo preto
fica aposentado, com direito de comer o capim que achar
até o fim da vida”, escreveu o mais efusivo antropólogo
que o Brasil já conheceu, numa carta que gostaria de ver
anexada ao testamento que registrou em 1995. Ministro, vice-governador,
acadêmico, educador, sociólogo, etnólogo e imperador da
Festa do Divino em Montes Claros, o criador de “fazimentos”
ousados como o sambódromo não pára de criar surpresas. A
última delas virou problema para o juiz Mário Gonçalves,
da 7ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio. Responsável pelo
inventário de Darcy, que não tinha filhos, o juiz está em
dificuldades para bater o martelo sobre a partilha dos bens.
Os
beneficiários do testamento estão preparados para uma espera
ainda maior. Um deles é o médico Frederico Ribeiro, sobrinho
mais velho, que herdou um presente de grego. Darcy deixou
para ele sua parte na casa onde nasceu, em Montes Claros,
Minas. Mas sob uma condição: “... que desmonte a velha casa
existente no local e a remonte no sítio pertencente ao seu
pai, Mário Ribeiro.” A casa, modesta, fica no centro da
cidade e hoje abriga uma instituição de apoio a menores
carentes. É feita de adobe moldado por uma armação de madeiras.
“Foi uma sacanagem dele com o Fred, para criar problema
mesmo”, conta o sociólogo Paulo Ribeiro, irmão de Frederico.
A justificativa de Darcy para insistir na inusitada cláusula
é outra piada: “Ele queria a casa no sítio para seu fantasma
assustar os visitantes homens e adular as mulheres”, recorda
Paulo.
Homem
fede
A
implicância com os homens e a paixão pelas mulheres, algumas
das incontáveis manias de Darcy, são evidentes no testamento.
Paulo, o parente mais querido, foi o único herdeiro masculino,
já que não se pode classificar Frederico como herdeiro.
Paulo recebeu uma casa no sítio Tira-Teima, onde reina o
cavalo Preto. Além do sobrinho e da Fundação, só há mulheres
no testamento. “Ele dizia que não deixaria nada para os
homens porque homem fede muito”, diz Paulo. “A loucura dele
pelas mulheres não é folclore. Ganhar uma moça de 20 e poucos
anos, mesmo já velho, era fácil. Ele era danado”, atesta
a amiga Tatiana Memória, vice-presidente executiva da fundação,
de 72 anos. Ela recebeu de Darcy o usufruto vitalício do
coqueiral do sítio de Maricá. “Fiquei brava porque não entendo
disso nem tenho dinheiro para manter o sítio. Ele fez uma
carta tirando o maldito usufruto, mas não registrou no cartório”,
diz.
O
professor usava o cavalo para passear de charrete em Maricá
– sempre ao lado de mulheres, claro. “Ele dizia que o cavalo
jamais voltaria a ser escravo de ninguém”, conta o caseiro
Marcos Antônio da Costa. Marcos cuida do sítio desde 1989
e, por ser homem, ficou fora do testamento. “Mas eu herdei
uma grande lição de vida. Ele me dizia que viver com profundidade
vale muito mais do que qualquer imóvel”, contenta-se.
Maricá
foi o cenário de uma das maiores travessuras de Darcy. Em
1995, ele enlouqueceu os médicos do Hospital Samaritano,
no Rio, ao fugir da UTI. Depois de 21 dias de internação
para se tratar do câncer, ele deixou o hospital para se
esconder em sua casa em formato de oca indígena na praia
de Maricá, projetada por Oscar Niemeyer. “No hospital só
tinha gente querendo morrer, eu quero viver”, justificou.
Acabou vivendo mais dois anos, até ser vencido pela “bolinha
maligna”, como ele definiu o câncer que já lhe tirara um
pulmão em 1974. A casa da praia ficou para a cunhada Jaci,
casada com Mário Ribeiro, único irmão do senador. A exigência:
após a morte da cunhada, deve ser transferida para suas
quatro filhas. Os quatro filhos homens não ficam nem com
um tijolo. “Isso não tem valor legal porque os oito filhos
são herdeiros”, observa o sobrinho preferido.
Darcy
ainda tinha em Maricá um sobrado com quatro pequenos apartamentos.
As herdeiras são quatro de suas melhores amigas: Theresa
Teixeira, Maria de Nazareth Gama e Silva, Gisele Moreira
e Irene Ferraz. Tatiana Memória garante que, entre as quatro,
apenas uma foi namorada de Darcy, mas não revela qual. Theresa
Teixeira, sua chefe de gabinete em Brasília, responde a
processo por apropriação indébita por ter retirado R$ 146
mil da conta de Darcy, no dia de sua morte. Ela apresentou
uma carta assinada pelo senador autorizando o saque, mas
a carta está em perícia a pedido da Justiça. Mais uma confusão.
Os
bens mais valiosos de Darcy foram deixados para a fundação
administrada por Tatiana Memória: um apartamento na praia
de Copacabana, os livros, arquivos, obras de arte e o equivalente
a R$ 470 mil depositados na Suíça, fruto da venda de seus
livros na Europa e de um fundo de garantia que recebeu da
OEA. Cerca de R$ 240 mil já foram usados por Tatiana para
comprar a atual sede da Fundação Darcy Ribeiro, um casarão
em Santa Teresa, no Rio. O advogado Wilson Mirza, que acompanhou
Darcy desde os tempos do exílio, é o testamenteiro, responsável
por zelar pelo cumprimento das vontades do amigo. Ele se
lembra da descontração que tomou conta do apartamento de
Darcy quando ele ditou seu testamento. O clima era de velório
e os amigos não escondiam a consternação pelo fato de, pela
primeira vez, Darcy admitir a hipótese da morte. “Ele sentiu
o peso e foi logo dizendo: ‘Vocês não fiquem aí com essas
caras fúnebres porque eu não vou morrer ainda, tenho de
escrever um livro antes.’ Era um homem muito diferente”,
recorda Mirza. Darcy só perderia a luta contra o câncer
dois anos depois. Nesse período, escreveu não apenas um,
mas quatro livros.
Sobrou
tempo para escrever um livro de poesia: Eros e Tanatos,
pela Record. Se são poemas eróticos? “Eróticos demais. Eu
quase não publiquei, mas os poetas que consultei me convenceram
a publicar. Darcy virou poeta no finzinho da vida”, diz
Tatiana. A fiel escudeira de Darcy no projeto dos Cieps
espanta a idéia de que ele tinha medo da morte. O que o
“fazedor de coisas” abominava, segundo Tatiana, era a idéia
de não mais realizar, dizer adeus aos “fazimentos”. E não
mais poder divertir o mundo ao seu redor com lições bem-humoradas
de amor à vida, como as frases que usava para explicar seus
arroubos intelectuais. “Mais vale errar se arrebentando
do que poupar-se para nada”, dizia o poeta Darcy.