Darcy
Ribeiro
Quando
deixaremos de ser colônia?
Barbosa
Lima Sobrinho
Não
é uma palavra de oposição. Nem mesmo uma queixa pessoal
ou uma divergência partidária ou de hostilidade de quem
se sentiu alcançado por uma divergência passageira. É, antes,
a atitude desesperada de que, colocado face a face, diante
da própria morte, não está pensando senão nos outros, que
vão ficar.
Como
pode um homem público silenciar diante de ameaças e riscos
que não pode ignorar ou que estão presentes, como ameaças,
aos que vão sobreviver como vítimas de erros e renúncias
que vêm sendo acumulados pelos que estão à frente, no exercício
das funções de mandado? Não é a hora de pensar no voto dos
gladiadores vencidos, para uma saudação final, morituri
te salutant?
É
a impressão que me ficou da leitura da entrevista ou das
páginas de memórias do senador Darcy Ribeiro que o JORNAL
DO BRASIL acaba de publicar, na edição do último domingo.
Numa confissão em que não se sente nenhuma amargura pessoal,
tão-somente o sentimento de solidariedade com os que vão
ter de enfrentar, de futuro, esse acontecimentos previsíveis.
Como ser indiferente ao destino dos que têm que enfrentar
as vítimas de tantos erros cometidos, fora de qualquer sentimento
de animadversão política? Nada mais do que as palavras de
uma consciência, falando a outras consciências, nesse Brasil
que está sendo vítima de uma geração de pigmeus, como aquele
com o qual Gulliver se defrontou, na obra clássica de Swift.
Daí
o espanto e a surpresa do senador Darcy Ribeiro, quando
recorda que, por mais que faça, não consegue compreender
a orientação do governo brasileiro diante dos problemas
que vão surgindo. Considera que são atitudes que não conseguem
entrar na sua cabeça. E fala como um senador, atento aos
problemas de seus país, quando se defronta com pessoas que
se consideram técnicos atentos aos problemas do desenvolvimento
econômico do Brasil.
E
suas palavras têm um valor fora do comum. Fala como quem
se dedicou à criação de uma universidade dentro dos melhores
padrões, como é, sem qualquer dúvida, a Universidade de
Brasília, atenta aos problemas nacionais. Por isso chega
a perguntar por que o acordo de um partido político com
interesses estranhos ao Brasil. Nem precisa lembrar o acordo
que está sendo estudado na mesa das decisões políticas.
E se surpreende e se espanta de que o Brasil “entre nesse
barco”, em que estão presentes os interesses de outras nações,
na venda de tantas estatais de que o país precisa, urgentemente,
para solucionar seus próprios problemas.
Nem
recorda a Eletrobrás, numa hora em que a eletricidade é
vital para qualquer nação moderna. E se detém em Volta Redonda,
que representa um momento heróico, em que o governo de Getúlio
Vargas teve até de ameaçar, com a aliança com as nações
do Eixo, para obter do governo dos Estados Unidos, que tinha
à sua frente um presidente como Franklin Roosevelt, a cooperação
necessária para que o Brasil começasse a figurar entre as
nações modernas. Contrariando, inclusive, os antecedentes,
como no tempo do governo do presidente Artur Bernardes,
quando o Brasil despachou um empresário estrangeiro, que
defendia, para o Brasil, um simples papel de exportador
de ferro, a serviço dos interesses estrangeiros.
Quando
o Brasil pôde contar (como recorda o senador Darcy Ribeiro)
com Volta Redonda, uma “fábrica de outras fábricas”, para
o início de sua idade industrial, acabou abrindo mão, numa
atitude que, decerto, não teria a aprovação da pátria de
Tiradentes. O senador Darcy Ribeiro lembra que o Brasil
se deixou arrastar, vendendo uma fábrica debaixo de um critério
de lucro para três banqueiros, “que ficaram muito ricos
e expulsaram a metade dos trabalhadores”. Numa ação política
de aumentar a riqueza dos ricos graças aos pobres, que acabaram
deixando de ser os donos, na pessoa do Estado brasileiro,
de uma fábrica que recordava as vitórias de seu governo,
num momento em que resistiu à pressão de interesses que
não eram os interesses do Brasil.
Qual
a vantagem de substituir o povo brasileiro por um grupo
de empresários, que não hesitarão em vender Volta Redonda
ou em se desfazerem de suas ações por um simples vantagem
pessoal? O lucro deve substituir o povo na propriedade da
fábrica até então realmente brasileira?
E
ainda não era o fim das ameaças. Porque ainda havia a Vale
do Rio Doce. E o cerco novamente se formou. E aí, de novo,
um senador brasileiro volta-se para uma manifestação não
só de espanto como de indignação. Menciona o nível técnico,
que considera extraordinário. E recorda suas imensas riquezas.
Pergunta: “por que entregar?” E enumera suas extraordinárias
riquezas, suas minas de ferro, de ouro, de níquel, de manganês,
minas que ninguém tem em todo o mundo.
Quando
a procura do lucro substitui qualquer sentimento de amor
à pátria, e ao Brasil, há a sua pergunta e os seu espanto:
“Como o senhor Fernando Henrique, um social, pode entregar
isso?” E chega a registrar que se tudo isso não estivesse
ocorrendo, “a gente não poderia acreditar”.
É
de fato espantoso e surpreendente. Está acima da imaginação
humana. Como na fase colonial, quando aplaudimos mineradores
que vinham extrair o ouro do Brasil para enriquecer Portugal,
que também não sabia entesourar o ouro de nossas minas e
o transferia à Inglaterra, para que se iniciasse a sua fase
industrial, até se tornar a dona do mundo.
Pois
não é isso que está de novo acontecendo ao Brasil, como
se voltássemos a uma fase de simples colônia, não mais de
Portugal, mas do imperalismo mundial? E deixando uma pergunta
amarga, em todos os lábios dos brasileiros: quando deixaremos
de ser colônia?