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|Agenda|Partido|Brizola|Jango|Getúlio|Bloco da |Oposição|Parlamentares|Darcy|Programa|Juventude| Com a palavra Leonel Brizola Livro de Osvaldo Manescky, Madalena Sapuc O BRASIL NO PÓS-GUERRA O BRASIL NO PÓS-GUERRA A construção dos imperialismos americano e soviético. Do autoritarismo pode surgir uma geração de vendilhões! A raça entra pela boca. A volta por cima do Japão e da Europa. Na grande conferência de Bretton Woods, dos vencedores da guerra, os americanos ditaram a sua orientação. Os Estados Unidos tinham o único parque industrial intacto em produção. A Europa estava destruída e a União Soviética também; o Japão, naquela situação. Os americanos resolveram valorizar os seus produtos. Decidiram que determinado objeto, em vez de custar 100, passaria a custar 150. E tudo o que necessitassem comprar - como minérios e produtos agrícolas - seria mais barato. E acumularam com isso grandes riquezas. Outra decisão: aboliram o padrão ouro como base do Sistema Monetário Internacional e adotaram o dólar. Fizeram como todos os grandes vencedores dos tempos antigos: venceram e lançaram uma moeda de guerra. Ditaram: daqui em diante valerá o dólar! Para eles era fácil, tinham força militar e seu prestígio era mundial. Como é que produziam o dólar? Simplesmente mandando imprimir o papel. As máquinas começavam a trabalhar, a produzir dólar, e eles diziam: "Ah! Querem empréstimo? Pois não, aqui está, podem levar". Mandavam papel pintado e com ele pagavam tudo. Traziam do exterior desde obras de arte a frutos do trabalho de todos os povos. No começo até foi prático, porque era muito mais fácil guardar um montinho de dólar do que guardar pedaços de ouro. E pelo mundo inteiro começaram a entesourar o dólar no lugar do ouro. Dólar que não voltava para a economia americana e não causava inflação. O esquema funcionou l0, 15, quase 20 anos - tempo que os Estados Unidos usaram para ampliar sua força e prestígio militar através do mundo. Com aquele imediatismo, aquela exaltação que passaram a assumir após a grande vitória de 1945, de repente se viram donos do mundo. Havia o problema da União Soviética, mas no começo acharam que aquele sistema não duraria muito. "E nós, com a bomba atômica, podemos resolver este problema!", pensaram, despreocupados naquele momento. Mas surpreenderam-se quando os soviéticos explodiram sua primeira bomba atômica. Aí as coisas foram evoluindo, mas mesmo assim jamais puderam imaginar que o sistema vigente pudesse ser modificado com tanta rapidez. No outro mundo, o que ocorreu? Os soviéticos invadiram os povos da Europa Oriental como conseqüência da Segunda Guerra Mundial. Mas eles não tinham a sofisticação do Ocidente, onde o colonialismo existia de certa forma integrado à própria cultura. O colonialismo era mais leve numa região, mais forte em outra, em algumas exercido de forma brutal. Às vezes um pouco menos, como no caso dos ingleses em relação aos irlandeses. Na América Latina o colonialismo se mantinha, apesar de combatido. Dadas as circunstâncias de antigamente, os seus efeitos eram menos ' drásticos sobre os pobres. Naquela época, mesmo com um pais dominando o outro, os barcos eram pequenos e andavam devagar. Não existiam tantos barcos e, quando passaram a existir, as comunicações ainda eram difíceis. As cartas demoravam a chegar, as mensagens via cabo não eram tão rápidas e o rádio ainda estava em seu inicio. Não havia tanto consumo nos países importantes, nem existiam indústrias nas dimensões das de hoje. Era mais fácil acumular produção através do trabalho. Mas no curso do tempo, desenvolveram-se os modernos meios de comunicação, enquanto os navios se tornavam enormes. O transporte aéreo passou a ser uma realidade na vida dos povos e as cartas passaram a chegar com maior rapidez. Tudo desenvolveu-se ao ponto de chegarmos a instantaneidade de nossos dias. Por isso, também, os povos submetidos à exploração colonial passaram a dever às vezes várias safras - mesmo o que nem saiu de dentro da terra -, como conseqüência da velocidade e da força que o processo colonialista adquiriu. Passamos a dever antes de produzir. Na Europa Oriental, a vitoriosa União Soviética ditou suas regras brutalmente e estabeleceu o modelo de economia estatal, mais simples, que era o sistema dela. E impôs esse modelo aos povos da Europa Oriental. Povos que tinham alto nível de vida e sistemas de produção bastante avançados. Os soviéticos impuseram suas regras de forma muito particular. Durante a guerra, alguns daqueles povos da Europa Oriental estiveram mais ou menos entrosados com os invasores, o nazismo e o fascismo. Não podemos esquecer que a Áustria chegou a fazer um plebiscito e á quase unanimidade foi favorável à incorporação com a Alemanha. A oposição nesses lugares era feita por grupos clandestinos ou por exilados que viviam em Moscou. Quando os exércitos soviéticos chegaram, avançaram e ocuparam aquelas áreas, colocaram as minorias no governo. Decretaram, determinaram uma estrutura econômica estatal. Houve a imposição de uma estrutura especial de natureza estatal que, pelo autoritarismo, foi contrariando a natureza humana, como se estendessem uma lona sobre um gramado. No começo até pode ter alguma utilidade, mas depois verificamos que debaixo da lona não nasce nada, que o autoritarismo, a ditadura, é uma praga, uma doença de efeitos deletérios sobre os povos. Do autoritarismo pode surgir uma geração de vendilhões! Do autoritarismo pode surgir uma geração que assimila a ideologia do outro e a emprega contra os bens e os valores de seus próprios povos. Isso acontece até com as famílias. A União Soviética, a força vencedora, despojou aquelas áreas de maneira grosseira e brutal. Tanto que ela se reconstruiu. Não havia nada de pé no fim da Segunda Guerra e ela se reconstruiu. Fez um programa de habitação de tal ordem que, para uma população de 240 milhões de habitantes, nenhuma família ficou sem teta. E lá não existem favelas. Os soviéticos fizeram um programa de alimentação e outro, sanitário, de imensas amplitudes, ao ponto de que lá se encontra uma população que pode ser pobre em relação à classe média ocidental, mas que apresenta altos índices em matéria de saúde e higiene. Enfim, de condições biológicas. Sempre que nos deparamos com os povos daquelas áreas vamos ver que é gente forte, gorda, corada, lá não há mortalidade infantil... Quer dizer, eles construíram isto tudo. Segundo, fizeram um programa nuclear. já imaginaram o que os soviéticos gastaram no programa nuclear? Estamos fazendo uma usinazinha aqui em Angra e estamos de calças na mão! Eles fizeram dezenas! O Dr. Vivaldo Barbosa, nosso deputado, esteve na Bulgária, onde havia um sistema interessante: o Partido comunista dominava, mas com o Partido Agrário. vocês conhecem nossa ambição, a nossa aspiração de criar o trabalhismo agrário... A idéia sempre nos fascinou. Então pedi ao Dr. Vivaldo para ir lá. Fomos convidados pelo Partido Agrário para ir conhecer a Bulgária; e lá parece que existem duas ou três usinas ao todo. Duas ou três usinas só na Bulgária. Além dos avanços no setor nuclear, os soviéticos desenvolveram um grande programa espacial. Imaginem o preço de uma nave dessas, um foguete, uma estação orbital dessas, quanto custa! Pois bem, fizeram tudo isto. Fizeram um programa militar gigantesco: três milhões de homens em armas, tanques e foguetes. claro que esta riqueza toda foi arrancada dos povos submersos naquela situação. Mesmo com tudo o que houve lá, nada trouxe conseqüências tão cruéis quanto o modelo econômico que jogaram sobre nós, aqui na América Latina. E tudo com aparência de liberdade, de livre-arbítrio, para amenizar psicologicamente os efeitos deletérios e negativos do sistema que recaiu sobre nós. Lá era mais brutal, mais perceptível, mas não tão cruel quanto aqui. Lá as pessoas comiam, tanto que se conservaram sãs. E aqui nós sabemos que a grande maioria dos povos passou a ter uma dieta insuficiente, precária, passou a cair num processo de desnutrição. Não há nada pior para os povos do que a desnutrição! Não há nenhuma raça, nenhum animal mesmo aqueles que são aproveitados para alimentação ou são criados pelo ser humano - que consiga subsistir na desnutrição. Para desenvolvermos um verdadeiro programa de saúde precisamos partir de um programa de alimentação. A raça entra pela boca. Os povos da Europa Oriental são sábios, porque vêm de muito longe, já foram invadidos muitas vezes. Eles sabem como se comportar numa hora dessas porque já foram invadidos pelos exércitos, pelas forças que vinham das estepes, em muitas oportunidades. E para se defenderem cuidaram em primeiro lugar da alimentação, principalmente das crianças. Também souberam conservar, através dos filhos e dos netos, uma mente preparada. Sempre souberam que só através de um corpo são e de uma mente preparada é que poderiam conseguir não só se ver livres daquela situação um dia, como cuidarem da própria reconstrução. Eles jamais descuidaram da educação. Tanto que os níveis de educação de lá são muito altos. Mesmo com tudo aquilo, cerca de 70% dos jovens saem do sistema educacional com o curso secundário completo. Por que então caiu aquilo tudo lá? Em primeiro lugar, simplesmente em função do autoritarismo, porque o autoritarismo é algo incompatível com o ser humano. Mas por que o autoritarismo criou este sistema contraditório que acabou fazendo com que explodisse tudo aquilo lá? Os americanos e os soviéticos imaginaram que podiam decretar uma situação sobre o mundo. Ficaram ali, dispondo do mundo como queriam, em benefício próprio, procurando confundir o poder, o controle que cada um tinha de suas áreas - como se fosse interesse de todos. cada um apontava o outro como se fosse o mal. "Cuidado! Fique embaixo das minhas asas". Cada qual fazia isso. Anos e anos de Guerra Fria, e iam dominando o mundo cada vez mais. Eles jamais imaginaram que iria acontecer o que aconteceu. É que no silêncio, às vezes no seio da família, nos ambientes de trabalho, os grupos humanos iam usando aquela virtude de uma natureza insondável que é a mente humana. Trabalhando, foram avançando e marcando um progresso cada vez maior no campo da ciência e da tecnologia. com os dias, a que assistimos? Os alemães ali, os japoneses lá, dali um pouco os italianos, suíços, belgas, franceses e suecos - aqueles povos todos, principalmente os povos europeus - começavam a criar mercadorias, serviços, mecanismos industriais na eletrônica, na informática, cada vez melhores e mais baratos. Os ricos e poderosos, sabem como é, deixam crescer a barriga... Os americanos então, era aquela folga: aviões enormes, a Pan American, os carros. Lembro dos americanos com aqueles carrões, gastando um litro de gasolina para andar três quilômetros. Eles começavam os carros bonitos na frente, com aquela lataria toda, e não sabiam como terminar. Faziam um rabo de peixe. Era a tecnologia. Andei lá nos Estados Unidos quando me expulsaram do Uruguai, e pensava, olhando tudo aquilo: mas como conseguiram fazer tanta estrada? como conseguiram fazer tantos viadutos? Tanto trevo? Como conseguiram fazer tudo isto? De onde tiram tanto dinheiro? Mas é claro! chovia sempre no roçado deles com aquele sistema. Para mim parece irrefutável esse tipo de apreciação. A mesma coisa acontecia com os russos: Sputniks, bomba atômica, etc. Estavam por cima. Enquanto isso os alemães e os japoneses, trabalhando nas suas oficinas, pobres, mas trabalhando, usando a cabeça que Deus nos deu, caminhavam. cada dia surgia no mercado um produto com mais densidade econômica, melhor e mais barato. E assim foram tomando o mercado. E os serviços? Apresentavam cada vez mais estruturas funcionais melhores, econômicas, enxutas e foram pouco a pouco ganhando o mercado. Foram vendendo, acumulando, foram indo. A balança de repente começou a dar sinais de que virava. O fluxo de acumulação da riqueza passou a se concentrar em outras áreas, e não na União Soviética, e não nos Estados Unidos. Começou a se concentrar em outros países. E aí começou a acumulação lá. Os povos europeus, sábios, construíram um Mercado comum que é uma espécie de muralha: eles trataram de fazer uma barreira, não é verdade? "Bom, tudo que pudermos trocar aqui vamos trocar. Só compra aquilo que precisamos, mas vamos vender, vamos fazer..." E foram entrando, foram usando as regras do vencedor, passaram a usar as regras do vencedor com mais finesse, com mais eficiência. E os antigos vencedores não puderam fazer nada. como iam reclamar, se os novos cumpriam as regras? Foram se fortalecendo e o mundo foi mudando. A primeira estrutura do pós-guerra que foi ao chão, em função da força gravitacional dos povos europeus, foi a soviética. Os povos lá estão próximos e as famílias, por aqui e por ali, viam o que estava acontecendo na Europa Ocidental. começou a pressão: "Não podemos continuar nisso!" A própria União Soviética verificou: "Nós estamos sendo corroídos por baixo, não podemos continuar nisso". Passou a achar melhor dar liberdade àqueles povos que, para se manterem naquela situação, precisavam ser subsidiados. Para manter amigos, como Hörnecker, da Alemanha, era preciso dar dinheiro a ele. com o tempo não tinham mais o comando, não conseguiam mudar aquela máquina que ali se estabeleceu ali. Porque eles devem ter tentado uma espécie de transição, mudar aquilo tudo sem perder, mas não deu. Exatamente como está começando a ocorrer aqui, no chamado mundo ocidental, mais especificamente na América Latina. Pelo que conheço de alguns episódios, os americanos, no fundo, até não querem que a coisa estoure peno deles - que haja problemas graves com o México, Caribe ou América central. E aqui mesmo. Porque isso pode acabar criando problemas para eles. (6-12-91) FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Tiradentes, herói da nacionalidade. É preciso criar a consciência nacional! O trabalhismo é autóctone e teceu a unidade nacional. O Golpe de 64; A ditadura foi feita contra nós. Reforma agrária? Só com ajuda do Exército. Tiradentes é uma figura que as elites brasileiras trataram de deprimir, de inferiorizar. Há pouco tempo, já com a presença de Vargas na vida brasileira, é que o nome de Tiradentes começou a surgir. Seu sacrifício, seu enforcamento e esquartejamento, essa sentença monstruosa foi muito própria das consciências sujas do colonialismo, dos que se. vendem aos interesses do colonialismo, daquela parte da elite que vende o pais em troca de 30 dinheiros e de comissões, das fortunas que amealham. Essas pessoas têm uma consciência perversa, são capazes dos maiores crimes contra os seus irmãos, porque são reflexo da consciência perversa, suja, que possuem. Descendem daquela nobreza, daquela elite colonial que explorava este país e os que aqui viviam e trabalhavam. Elite que trazia os escravos, que vivia dessas atividades. E eram também juizes. Não foi só a rainha - a Louca que queria a condenação de Tiradentes. Foi toda a Corte; não houve uma voz da Corte que se levantasse. E os juízes que lavraram essa sentença, o que eram? Parte daquela estrutura colonial que só aninhava as consciências pervertidas, consciências sujas que se vingavam como titulares de toda uma ordem de coisas e que, pretendendo defender a moral de toda aquela ordem, massacraram o mártir, aquele homem, pelo único crime de querer defender a liberdade, os direitos humanos, o direito do povão, que estava aqui trabalhando nas minas e por toda parte, de constituir um país. Como acontecia naquele tempo com os colonos americanos, eles queriam fundar uma nação. Era um homem da pequena classe média, um lutador pela vida, um autodidata, um pequeno sábio. Quem eram os parentes de Tiradentes? Ninguém sabe. Ele não era das grandes famílias, nem dos grandes ramos de negócios. Dificilmente se pode identificar hoje descendentes de Tiradentes. Fizeram com que desaparecessem, foram amaldiçoados. Até os filhos inocentes foram amaldiçoados como se fosse gente que devia trocar de nome. Salgaram o terreno onde estava colocada a sua casa. Hoje vivemos um momento em que este país está cada vez mais vendo crescer um divisor de águas. O país está cada vez mais se dividindo entre os Tiradentes e os Silvérios dos Reis. O Brasil hoje está cheio de Silvérios dos Reis. Poderosos, ricos, mandam, têm grande poder de comunicação. E cada vez mais o povo brasileiro se confunde com a alma, com a inquietação, com o amor de Tiradentes. Ele é um símbolo para nós, por isso demos o seu nome à Linha Vermelha: "Eu vou pela Tiradentes! Você vai para a Ilha do Governador? Agora está tudo melhor, eu vou pela Tiradentes... Vai à Baixada, agora? Está em cima da hora? Mas se pegares a Tiradentes, vais chegar ligeiro ao aeroporto". Tiradentes pra cá, Tiradentes pra lá. Nós vamos chamar a atenção do mundo para o nosso herói, tão diferente daquele herói de espada na mão, montado num cavalo. (28-4-92) Pôr que dizemos que a ditadura foi feita contra nós? O trabalhismo surgiu como uma expressão da nossa realidade. Aquilo que ocorreu no pais em 1930 foi a conseqüência de um movimento renovador das nossas oligarquias. Quem quiser procurar as raízes do trabalhismo deve ir até esses tempos. Os próprios fatos se desdobraram, e o trabalhismo foi se definindo à medida em que o pais avançava pelos caminhos da solidariedade, do humanismo, da justiça social, do igualitarismo, dos direitos humanos. Aí estão as nossas raízes. Ele nunca foi uma associação, - um transplante, mesmo daquelas idéias generosas que surgiram em muitos lugares do mundo, chegaram até aqui e se desenvolveram, adquiriram características especiais, associando-se com a nossa realidade. Esses movimentos trouxeram contribuições importantíssimas para o nosso desenvolvimento social. O trabalhismo foi autóctone, foi surgindo sem teoria. Foi um fenômeno social político próprio da nossa realidade, autóctone. Os trabalhadores atuavam em redutos isolados como se fossem ilhas, o nosso pais era um arquipélago, sob o ponto de vista das lutas sociais. Eram os trabalhadores da borracha, das salinas, da cana, do café, das minas, das charqueadas, dos portos. Não existiam movimentos nacionais. Eles sequer se intercomunicavam. A partir do advento deste movimento empírico, natural, que se foi gerando na vida brasileira, os trabalhadores passaram a construir uma visão unitária da vida nacional, a se intercomunicar, a construir, a tecer a sua unidade. O partido que resultou deste movimento natural se cristalizou. Recordo que era estudante quando um dia, em pleno processo de democratização, foi lido um manifesto, um pequeno manifesto de oito ou dez linhas ~ contra a linha do governo, contra o ambiente geral, como um ato de rebeldia. Os sindicatos, os movimentos trabalhistas se expressaram através do ministro do Trabalho de então, que se chamava Marcondes Filho, mais tarde nosso senador por São Paulo. O país se organizava politicamente naquele momento da seguinte forma: na oposição estava o movimento mais incisivamente oposicionista ao presidente Getúlio Vargas, que era a UDN. Juntamente com a UDN estavam outros movimentos que se unificavam em torno de uma corrente chamada "esquerda democrática"; todos fazendo oposição ao presidente Getúlio Vargas. Os comunistas em principio também estavam neste movimento. A partir do instante em que Prestes saiu da prisão, a posição dos comunistas passou a tomar um outro rumo. Porque aquele homem, com sua pureza e sinceridade, viu que não podia continuar na companhia daquela gente, sentiu que o povo brasileiro tomava outro rumo. O governo, o Estado Novo, era uma grande máquina política. Os integrantes deste governo ao longo de todo o pais decidiram organizar o chamado Partido Social Democrático - PSD). As oligarquias, o conservadorismo brasileiro com sua inteligência inata, com a sua habilidade tradicional, no curso do Estado Novo, daquele governo de unidade nacional, foi metendo-se dentro do governo e ocupando lugares. Não contrariavam o presidente Vargas. Pela frente, tomavam até o carro daquelas inovações; quando o presidente Vargas baixava um decreto de natureza social - estabelecendo certos direitos para os trabalhadores -, eles compareciam aos atos e aplaudiam. Com a boca seca, mas aplaudiam. Aparentemente estavam todos de acordo, mas eram oligarquias metidas dentro do governo e praticamente controlavam tudo. Então organizaram o PSD. Este já era um ato de cinismo, porque não tinha nada de social democrata. O PSD era o que havia de mais conservador na vida brasileira. Muitos que estão aqui se lembram do PSD. Na época o país se dividia em duas grandes correntes formais: a UDN com a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes, contra Getúlio, era a candidatura militar de um homem de grande pureza, patriota, ligado às questões da guerra. Aquela convivência dos nossos militares lá fora com o Exército americano, tudo se unificava, com uma grande penetração dentro do Exército, dentro das Forças Armadas, contra Getúlio. Como quem diz: se não ganharmos no voto, ganhamos na marra. Esse era o lema profundo deles. Então o governo reagiu organizando o PSD, que foi uma máquina que funcionava assim: o interventor federal ~ não havia ninguém eleito, não havia governador ~ governava o Estado. Não havia prefeito, era interventor municipal. Então o interventor estadual era o presidente do diretório do PSD. E o interventor municipal era o presidente do diretório do PSD; e o inspetor de quarteirão, autoridade distrital do município, era também o chefe do PSD. Era uma máquina total pelo Brasil afora. Para o trabalhismo, esse mundo oficial estruturado em partido, essa máquina reservou um departamento: o departamento trabalhista, para incluir os sindicatos, algum político que pudesse ter alguma conotação popular ou que ideologicamente não se afinasse com aquele mundo oficial e conservador, feito para apoiar Getúlio e sustentar todas aquelas idéias, aquelas mudanças que o presidente Vargas havia instituído no seu governo. Era evidentemente uma situação constrangedora, humilhante para o grande movimento social que já estava nas ruas, sustentando o nome do presidente Vargas contra as agressões e a oposição violenta da UDN. Os movimentos nas ruas cresceram em defesa da legislação do trabalho, sustentando a idéia de que se devia fazer uma Constituinte, e não uma eleição direta para presidente antes de tudo. Uma Constituinte sob a presidência de Vargas. As forças oficiais, governamentais, para contrabalançar a candidatura militarista do brigadeiro Eduardo Gomes, lançaram o nome do ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra. Um homem que tinha sido guardião do regime autoritário do Estado Novo, nunca havia qualquer atuação política, mas que aceitou a indicação, tornou-se candidato. Dutra era ministro da Guerra, havia se desincompatibilizado. Mas no fundo, como já se considerava o sucessor, se considerava o próprio presidente, dada a força do governo, fez corpo mole diante daquelas articulações golpistas e de certa forma deu o seu assentimento ao golpe que derrubou Vargas, que uma vez deposto, foi para São Borja. Os vencedores - que eram as autoridades militares - chegaram à conclusão de que deviam manter as eleições e que convinha deixar que tudo corresse naturalmente, Vargas poderia se candidatar, não a presidente, mas a senador ou deputado. o PSD praticamente candidatou Vargas por toda parte. E o PTB - como tudo era fácil naquele tempo, bastava nomear comissões de quatro ou cinco em cada estado - já era um partido organizado e já podia registrar candidatos. isso foi feito num bom número de estados pela comissão presidida pelo Marcondes Filho. E o PTB também candidatou a deputado o presidente Vargas em alguns Estados, e a senador por São Paulo e Rio Grande do Sul. Em dois de dezembro se realizaram as eleições. Dutra venceu amplamente, porque bem no finzinho os apelos foram muitos e o presidente Vargas, que estava em São Borja, enviou uma mensagem para o Brasil afora apoiando a candidatura Dutra. E Dutra venceu amplamente o brigadeiro, que reconheceu a sua derrota e a vitória do seu competidor. Getúlio foi eleito senador por dois estados; São Paulo e Rio Grande do sul, e foi eleito deputado, me parece, por todos os estados em que se candidatou. Dutra assimilou a ideologia dos seus competidores. Chegou ao governo e distanciou-se do presidente Vargas que o havia eleito! sozinho, ele não tinha condições de se eleger vereador em lugar algum. Ele se sentia profundamente humilhado com esta circunstância e passou a fazer uma aliança com os outros, com a própria UDN. Formou um governo de coalizão com a UDN e assumiu uma linha anti-Vargas. Ali começou a montagem desse sistema econômico que agora está fazendo a vida em nosso país impossível. No curso do Estado Novo, com todas as restrições políticas que merece em relação às liberdades públicas individuais c aos próprios direitos humanos, começou a se estruturar um outro modelo de desenvolvimento e de economia. O Brasil não era grande devedor... Ao contrário, era credor, até de países como a Inglaterra, o país saiu da guerra rico, tranqüilo, não tinha com o quê se preocupar. A vida era estável, não havia inflação e nós estávamos cheios de divisas, enormes reservas. As principais nações do mundo nos deviam. Com o governo Dutra, começaram então a montar o esquema atual: abriram as importações indecorosamente e o pais foi consumindo as suas enormes reservas importando montanhas de matérias plásticas. Eu me recordo, era difícil passar nas esquinas do Rio de Janeiro, tais as montanhas de pentes, de ioiôs, sendo vendidos. Um aspecto incrível, inacreditável do que existiu naquela época. (06-12-91) Estou convencido de que se o programa de Getúlio Vargas tivesse sido concretizado, levado adiante, a situação no Brasil hoje não seria essa. Estaríamos entre as maiores nações do mundo. Fomos atrás de algumas cabeças alienadas, que vão para as universidades estrangeiras e assimilam a cultura deles, abandonando praticamente aquilo que deviam fazer para dar soluções próprias para a realidade brasileira, de acordo com a natureza do nosso povo e do nosso país. Pensam que o Brasil é os Estados Unidos, ou um país da Europa. Houve época em que essas elites, essas oligarquias alienadas que dominam a vida nacional eram tão vendidas que até usavam, em nosso calor tropical, vestes de veludo, só para imitar a nobreza européia. Abandonaram pensamentos próprios, independentes como o que Getúlio Vargas propôs para a economia brasileira, para entregar o país inteiramente à manipulação dos grupos e dos interesses internacionais, gerando a situação que aí está. (02-07-93) As nossas classes dirigentes até gostariam de estabilizar o país para que o povo pudesse melhorar as suas condições de vida. isso até para a estabilidade delas. E tentam promover isso com sucessivos governos, planos e projetos. Preparam jovens nas universidades mais importantes do mundo, formam grupos e eles são jogados na luta pela estabilidade. Esses grupos se queimam, saem e vêm outros, o que é isto que não tem solução? Mas não tem mesmo, principalmente nos moldes das concepções deles. A classe dirigente, os grandes empresários de nosso país e da América Latina acreditam que não há outro sistema de vida, não há outro modelo de economia a não ser este. Eles não enxergam a possibilidade de que fora desse sistema possa existir outra vida. Nós mesmos, quantas vezes nos questionamos? Haverá mesmo solução para tudo isto? As classes dirigentes não podem imaginar uma modificação desse sistema porque elas estão na pomada, elas são a rosca, elas são beneficiárias do sistema. Querem uma solução para o povo, querem tirar o pais da divida, querem tirar o pais da inflação, mas desde que continuem donas da situação, continuem ganhando. Isto é impossível. Elas são beneficiárias de um sistema que precisa ser modificado. A classe dirigente do Brasil se tornou cúmplice de um sistema neocolonial que pesa sobre nós. A nossa situação já foi melhor anteriormente, agora nos colocaram no buraco. Com toda esta informática, com todo o sistema de transporte e de comunicação, estamos no buraco. Não há como, sem romper o atual sistema econômico, reencontrarmos os nossos caminhos de independência, progresso, acumulação e desenvolvimento. (27-08-93) ... Em 64, se o nosso João Goulart tivesse ouvido o Leonel Brizola, não teria caído! posso garantir que aquela turma que deu o golpe não tinha condições de ganhar. Mas eles chegaram, empurraram a porta e, como ninguém impediu, tomaram conta da sala. Foram entrando e ocuparam tudo. o Costa e silva, o herói Costa e Silva, só subiu um andar, porque ele era diretor geral de um setor do Exército. Assumia o mais antigo, e era ele! Se realmente tivessem prevalecido as idéias do Leonel Brizola, João Goulart não teria caído, não teria havido regime militar. Desculpem a imodéstia. Em 61 também não teria havido aquele parlamentarismo. Quando João Goulart chegou da China, já estava tudo combinado. Fiquei numa posição formal em relação a ele, fizemos uma reunião. Era uma mesa comprida e coloquei o João Goulart na presidência dela. Fiquei a sua esquerda, Machado Lopes à sua direita e Francisco Brochado da Rocha logo a seguir. Quando Jango chegou não havíamos trocado uma palavra no aeroporto sobre o assunto -, passei a ele um papel escrito e disse: "Olha, aqui está a minha posição. Discordo de tudo isso. Acho que não pode ser aceito este parlamentarismo, este conchavo, esta violação. A Constituição está rasgada! Eu entendo que nós devemos subir daqui e chegar até Brasília, vamos ter o apoio do povo brasileiro". Eles retrucaram; "É, mas nós só temos gasolina para 14 dias". Acrescentei: "Não tem importância, vamos chegar lá em cinco! Chegando lá, no mesmo ato que dissolverá este Congresso que violou a Constituição, convocaremos uma Constituinte. No mesmo ato, no mesmo dia e na mesma hora!" Esse era o meu ponto de vista, não aceitar aquilo tudo. Acho que em 64 deveríamos ter enfrentado aquela situação firmemente! Não havia condições de golpe. A democracia precisa, tem que ser defendida. (20-07-92) Eu, por exemplo, digo a vocês, companheiros, que como lição da minha experiência aprendi que neste país não há possibilidade de realização de reforma agrária sem a colaboração direta do Exército. Eu não falei na Marinha, na Aeronáutica, que podem colaborar. Nós temos Forças Armadas competentes, capazes de se impor por si mesmas, que não iriam fazer o jogo dos latifundiários, dos grileiros, ou de grupos que estão aí mais para confundir do que para construir. Do contrário os latifundiários, com as suas armas, com os seus sicários, com os seus capangas, irão atropelar sempre o direito que tem o povo brasileiro a um pedaço de terra para viver ou para produzir Tudo dentro da Constituição e dentro da lei com o apoio das Forças Armadas. Jango criou os acampamentos e nós criamos uma instituição para os camponeses sem terra. Tudo partiu da inspiração que despertou em nós o nosso Julião, com as suas Ligas Camponesas. Lá no sul, pensamos: aqui, em vez de Liga, vamos criar uma associação, um nome mais pacífico e mais conciliador. Criamos a Associação dos Agricultores sem Tetra. E foi só criar! De lá vieram companheiros que hoje estão velhinhos como o pai de um de nossos deputados, Wilson Mullet, o nosso Milton Rodrigues. Criamos centenas, milhares de associações. E depois veio até uma federação. Fomos semeando, agrupando agricultores, filhos de agricultores sem terra que não sabiam para onde ir - muitos iam para o Paraná, Mato Grosso ou Santa Catarina, mas a maioria ficava lá no Rio Grande do sul. Um dia nos ocorreu a idéia: como a Constituição dizia que qualquer brasileiro poderia se reunir livremente em qualquer lugar público para reivindicar os seus direitos, vimos o que podíamos fazer. Ao longo de uma estrada, de um rio, de um arroio, pelo menos no verão, podíamos fazer um acampamento - já que lá o inverno é duro - e reivindicar legitimamente áreas produtivas abandonadas. Daí surgiu o primeiro acampamento, tudo feito de forma a se desenvolver. Foi em um lugar chamado Sarandi. Colocamos lá uma grande cruz de madeira, enorme. Isto foi no tempo em que estava doutrinando para o mundo o grande papa João XXIII, falando em reforma agrária e tudo o mais. Então, colocamos aquela cruz: "Acampamento João XXIII, queremos terra!" Naquele tempo foi um acontecimento, assustou a todo mundo. Dentro de poucos dias lá estavam mais de cinco mil pessoas. Levamos a imprensa lá para mostrar o nível de organização daqueles trabalhadores. Eu consegui dois aviões e organizamos uma visita ao local, levamos o comandante do III Exército, juízes, deputados, empresários, para ver o que era aquilo. Lembro que havia um serviço de som muito precário e eu conversei com todos eles: "E vocês, de onde são e o que são? são comunistas?" Eles disseram: "Comunistas não, governador, aqui não tem comunistas não; somos todos agricultores". E eu pedi: "Mostrem as mãos, quero ver se vocês têm mãos de agricultores". E mostrei para o general aquelas mãos que mais pareciam pedras, de tão duras e calejadas pelo trabalho. E eu perguntava: "E família, filhos, vocês têm? Quem tem cinco filhos?", um mar de braços levantados. "Quem tem dez filhos?", outro mar de braços... Um deles queria ser o campeão, com 18 filhos, mas houve protesto e logo apareceu um com 21 filhos. Perguntei o que eles queriam, se pretendiam invadir terras, e eles disseram que não, que só queriam trabalhar. E prossegui: "Alguém aqui vai à missa?" - o Arcebispo estava presente... - e a resposta: "Nós vamos a missa lá longe, porque o padre não quis fazer uma missa aqui para nós". Perguntei: "De onde vocês vêm, como chegaram aqui?" Todos explicavam que vinham de fazendas, de estâncias, desempregados, e tudo o que queriam era terra para trabalhar. Como o general comandante estava presente, perguntei: "Alguém aqui serviu o Exército?", foi aquele mar de braços, todos estavam em dia com as suas obrigações militares. E eu provoquei ainda mais: "E na guerra, alguém aqui foi da FEB?" Apareceram diversos braços erguidos. Aí o general se comoveu. E um deles pediu licença: "Nos prometeram tudo, e agora nos negam até um pedacinho de terra", reclamou um ex-pracinha indignado. Depois foram tantos outros acampamentos e muitas desapropriações. Mas também veio a linha dura do golpe. Algum tempo depois, quando voltei do exílio, achei bom ir lá de novo para ver o que tinha acontecido durante aqueles anos duros. Convidei alguns companheiros para ir, e constatei que até hoje eles estão lá, em Sarandi. (27-08-93) O povo sozinho defendeu o presidencialismo. Os que querem a revisão que procedam corretamente. Estamos diante da privatização da Constituição. O mistério da unidade nacional. Eleições de 94: passar o país a limpo com o voto. *** Em princípio somos contra toda e qualquer alteração naquilo que está estabelecido na Constituição, mesmo porque nós olhamos, observamos com grande preocupação esses movimentos das oligarquias brasileiras a favor do parlamentarismo. Achamos que, no fundo, esse é um novo refúgio das classes dirigentes, das classes privilegiadas por este sistema econômico que está aí. Um novo refúgio que pretendem construir para manter o sistema. Será mais fácil fazer um governo duro, um governo sem piedade, um governo frio com o parlamentarismo. Porque um governo dessa natureza irá se escudar no poder democrático, desarmado, que é o Congresso. Um Congresso dominado pelo conservadorismo, por toda essa gente que apoiou Sarney, que apoiou a ditadura. E vão formar um Gabinete que escudado na legalidade, na legitimidade do poder democrático que vem do Congresso, vai se sentir autorizado e impune para praticar as medidas as mais drásticas em favor do modelo econômico. É uma nova manobra, assim como aquela de 61, que aconteceu numa madrugada, no calor, no fogo da crise. Esta também acontece em plena crise, mas com mais sofisticação, com mais calma, com mais jeito... De uma forma mais serena, mais prática. A nossa tendência é combater qualquer alteração dessas datas. Aquilo que a ' Constituição põe nas Disposições Transitórias não pode ser motivo de alteração. Aquilo foi vontade dos constituintes: no dia tal deverá acontecer tal coisa. Nós não temos o direito de chegar e dizer: "Não, esse dia é mais adiante, esse dia é mais pra cá, é mais pra lá". Não, tem que ser naquele dia, porque isso foi a vontade dos constituintes, a vontade originária deles, não pode ser motivo de alteração. Em segundo lugar, a nossa tendência é combater esse novo surto de autoritarismo que nos vem sob a forma de regime parlamentar. Combater e denunciar. Porque a eleição presidencial é uma oportunidade que o povo tem de escolher alguém em quem confia. Quando é que no regime parlamentarista nós podíamos chegar, por exemplo, a esse confronto que tivemos nas últimas eleições? O conservadorismo sentiu um certo frio naquela hora, tanto que teve que cometer aquela tropelia, aquela violência, ao editar o debate entre Collor e Lula na véspera da eleição. Jogaram a Globo praticamente em apoio a uma candidatura. Tiveram que usar processos bastante baixos e encarei com muita reserva a maneira como foi feita a contagem dos votos. E se não fosse o Lula? E se eu estivesse naquele debate? No parlamentarismo isso seria possível? Jamais! Os deputados vão ser eleitos por aí à base do dinheiro, do apoio do poder econômico. E verificaremos que os congressos do nosso país têm sido uma espécie de reduto do conservadorismo. Pior do que o governo Sarney foi aquele Congresso que lhe deu mais um ano! Pior do que a política econômica do atual governo é a posição desse Congresso que lhe deu um cheque em branco para vender o que quisesse no Brasil com a política de privatização! No parlamentarismo, teremos um governo síntese desse tipo de conservadorismo do Congresso. Por isso combato este surto de parlamentarismo e o denuncio como mais uma manobra do conservadorismo brasileiro. Porque as elites brasileiras, as oligarquias do nosso país estão em maus lençóis neste momento. Dispõem de uma máquina de publicidade fantástica, têm uma natureza empresarial, capitalista, com raras exceções, que pensa da mesma maneira. Às vezes, a mídia parece um partido único, com um poder gigantesco. Mas mesmo com to o esse poder, ela não consegue justificar, não consegue explicar, porque a causa que defende é muito ruim. Afinal, este modelo de economia, aos interesses internacionais para manter tudo do jeito que está, é uma causa tão ruim que, mesmo com toda esta máquina gigantesca de publicidade, eles correm o risco de perder o plebiscito. (l1-02.93) Imaginem este Congresso revisando a Constituição, este Congresso inepto, atrasado, mais do que isto, comprometido, transformar-se em Constituinte! Para reformar e refazer tudo o que foi feito por uma Assembléia Constituinte especialmente eleita. Um absurdo! Porque este Congresso é pior que o da Constituinte. Basta lembrar as manobras que fez para favorecer o parlamentarismo. Só o que deixou de fazer foi votar, impor o parlamentarismo. Como aquele Congresso de 1961 em plena crise, quando o povo saiu às ruas para prevenir o golpe, numa madrugada, rasgou a Constituição e impôs aquele parlamentarismo esdrúxulo. Só faltou isso! Este Congresso empurrou o parlamentarismo vergonhosamente. E o povo praticamente sozinho disse não. Pois os que estiveram ao lado do povo brasileiro foram poucos. Nós nos honramos de ter sido o único Partido que fechou questão. Ombreamos com nosso povo, estivemos ao lado dele praticamente sozinhos. Os políticos todos ficaram contra! O Lula ficou com o parlamentarismo, o Sr. Fleury com o parlamentarismo, o próprio Sr. Maluf, Fernando Henrique, Tasso... como mesmo o nome dele? Todos eram parlamentaristas. Agora estão todos ai, na passarela, se oferecendo como presidentes. Ora, deveriam se candidatar a deputados. O Lula é parlamentarista, e agora quer ser presidente! E já anda posando de presidente! Pretensão e água benta, cada um toma o que quer, quanto quer e quando quer. (25-08-93) Eu acho que a revisão constitucional está envolvida em um conjunto de episódios bastante negativos. Porque não há necessidade de nenhum açodamento. Os que querem fazer a revisão constitucional, que procedam corretamente, e pronto! Contra esses estão os que denunciam esta revisão como um casuísmo, um grande casuísmo, uma manobra, quase que golpismo mesmo... Os nossos deputados tiveram toda razão diante das violações. Se eu estivesse no lugar deles, eu procederia da mesma forma. Como é que o presidente do Senado instala uma sessão sem número? Isto ele não pode fazer! Então, realmente quem criou aquele problema foi o presidente do Senado. Este é um problema que precisava ser encarado com grande sentido de responsabilidade; o nosso pais não merece que os seus altos poderes estejam vivendo de improvisações. É tão importante reformar a Constituição, tocar na Constituição, que eu acho que tudo devia ser feito pensadamente, com grande sentido de responsabilidade. A maioria do atual Congresso está sob julgamento muito severo do povo brasileiro. Este período está no fim, os deputados estão terminando os mandatos; vamos ver algumas medidas, alguma reforma que tenha realmente urgência, e vamos fazê-las de comum acordo... Nós vamos procurar impedir de todas as formas, porque achamos uma insensatez. Se há urgência de modificar algum ponto, vamos trabalhar juntos; vamos nos pôr de acordo, e quem sabe fazemos uma reforma por consenso? Uma Constituição não pode ser retalhada desta forma. Acho que estes espetáculos que estão sendo oferecidos dão uma idéia do que vai ser esta reforma. A maioria dos que querem reformar a constituição foram os mesmos que fizeram a Constituição. Então, calma lá, o povo brasileiro tem o direito de dizer: "Bom, vocês fizeram, erraram, agora vamos com calma, vamos esperar a eleição de um novo Congresso, e aí vamos mudar". (08-10-93) Estamos fazendo tudo para impedir essa insensatez, esse ver golpismo oportunista das oligarquias brasileiras em retalhar Constituição que tem apenas cinco anos. Dentro dessa loucura, que se pretende, no meu conceito, é privatizar a Constituição de retalhá-la, vão mutilá-la. Muitas áreas vão perder garantias que conseguiram. Não confio, de nenhuma forma, numa revisão sensata, correta, neste momento, porque é um Congresso com muito baixo nível de informação, muito despreparado. Tem uma maioria que está lá, quase que diríamos, como pau-mandado, quer dizer, que reflete grupos minoritários de interesses no Brasil. Não está em condições de fazer essa reforma. Está no fim do mandato, desautorizada que foi essa maioria pelo plebiscito. Enfim, uma situação extremamente adversa para a vida institucional do país, para a legitimidade das instituições e para os direitos sociais e políticos do povo brasileiro. Nós fizemos tudo para impedir, mas estamos sendo levados, estamos sendo vencidos porque somos minoria. Agora, à medida em que essa maioria se for impondo, nós vamos guerreando. Nós vamos lutar em todas as frentes, de todas a formas a nosso alcance, dentro de todas as franquias legais de que pudermos dispor para impedir. Que se faça esse mal ao povo brasileiro. Derrogar tantas situações em, nome de uma entrega do patrimônio do país, em nome desse neoliberalismo, que é um estado de porre das classes dirigentes. As classes dirigentes estão embriagadas, estão tomando esse cálice envenenado do chamado neoliberalismo fé como se abríssemos as portas para colocar a raposa dentro galinheiro e entregássemos as galinhas para a raposa cuidar. Isso é o que eles pretendem no fundo fazer para manter os privilégios dessa minoria que se associou com negócios internacionais, com grupos da economia internacional e teima em seguir nessa linha, quando isso não corresponde aos interesses do povo brasileiro. Outra coisa seria uma emenda tratando de questões específicas. Por exemplo: a questão dos novos impostos, a questão fiscal, a questão do pessoal. Mas pegar a Constituição e retalhá-la assim, sem mais nem menos, francamente, como isto está sendo fortemente apoiado pelas classes empresariais, acredito que estejamos diante de uma privatização da Constituição brasileira. Para transformar este país em mandarinato". Os grandes grupos econômicos substituirão os estados da federação, as instituições políticas do povo brasileiro. Isso será m desastre para a unidade nacional e para o futuro do país. Vamos denunciar tudo isto. Podemos ser vencidos, mas jamais convencidos. (01-10-93) *** Em primeiro lugar, ditadura alguma poderá tirar o pais desta situação. A ditadura pressupõe um regime de cúpula. É claro que eu não estou evocando o exemplo de uma revolução. Quando é uma revolução que derruba o sistema dominante, é outra questão, não é o caso; não vamos raciocinar em função de idéias. Nós estamos agora com essas eleições; o povo brasileiro tem esta possibilidade, aí está o caminho democrático; vamos lutar com todas as nossas forças para que dessas eleições saia um governo coerente. Que seja investido com toda sua força de legitimidade que vem das urnas; nós precisamos, para isto, que o povo brasileiro se una; será isto possível? Não estaremos sonhando? Eu acho que não, eu já vi o povo brasileiro se unir duas vezes. A primeira vez foi em 61. Nós, só com aquela radiozinha, dizendo "Não", de repente operou-se o milagre da união nacional. O povo brasileiro, por toda parte, se uniu. Se uniu e sensibilizou até os quartéis, porque quando o triunvirato militar dava determinada ordem para marchar uma determinada unidade contra o Sul, os próprios oficiais reuniam-se e diziam que não, que era uma ordem ilegal. E olha que para eles dizerem isto é uma coisa que parece um milagre. Pois bem, ali se ouviu o povo; nós até não soubemos canalizar todo o potencial daquela união do povo brasileiro. Agora, recentemente, na campanha do plebiscito, também vi o povo brasileiro, de certa forma, construir a sua unidade. Nas direitas também foi outro momento em que o povo brasileiro se uniu e sacudiu tudo. Infelizmente como nós observamos, e aquele que instrumentou o povo brasileiro com a sua iniciativa, já estavam tramando contra ele para dividir, ou para frustrá-lo. Todo aquele potencial acabou numa transição que de nenhuma forma correspondeu ao que o povo brasileiro desejava. O povo brasileiro construiu sua unidade praticamente só. Os únicos que meteram o peito nesta questão, ombro a ombro com o povo brasileiro, fomos nós! Surgiram aqui e ali algumas vozes isoladas. E cito o senador Marco Marciel, um homem que atuou, mas sempre com muitos senões em função das preocupações políticas. Nós, não! Nós afirmamos claramente e fechamos a questão: nossa posição é única, e o povo brasileiro precisa construir a sua unidade. Nós estamos agora com esta perspectiva e tenho a intuição de que o povo brasileiro vai se unir. É claro que uma massa de comunicação e desinformação bombardeando o povo brasileiro por toda parte pode trazer confusão; mas processo social é rico, nós vamos utilizar algumas frestas no sistema de comunicação, naqueles horários da justiça eleitoral. E quando digo que o processo social é rico é porque, paradoxalmente, este espaço que contamos como uma franquia na televisão vem como concessão da ditadura. A ditadura quis fazer da Arena um partido dominante, consolidado, e criou aqueles horários. Mas dali a pouco, os arenistas tinham vergonha de falar. O PMDB também não queria, porque tinha medo das cassações e o horário ficou ali enterrado. Nós, ao voltarmos do exílio, desenterramos esta franquia e agora todos estão utilizando-se dela. Porque se isto dependesse de decisão do Congresso que elegemos, depois da ditadura, se dependesse dos meios de comunicação, dessas associações de televisões e rádios, eles já tinham, há muito tempo, liquidado com isto. Tem sido a resistência de alguns contingentes, especialmente de nosso partido, que tem mantido esta franquia ai, assim mesmo com uma série de restrições. Agora, com a legislação que está em curso no Congresso, conseguimos melhorar um pouco. Por exemplo: não tem sentido que se permita a preparação desses programas caríssimos, com vinhetas importadas, com a atuação de artistas. Os partidos têm que ter os seus representantes; eles têm que ir lá, com as próprias caras, se apresentar tanto quanto possível, ao vivo. Esta é a verdade, e não figurinha para cá, imagem para lá. Vinhetas, efeitos eletrônicos, falsas pesquisas... Isto conseguimos agora, em grande parte, nesta nova legislação. Então, nós, através do que nos sobra, vamos nos dirigir ao povo brasileiro, vamos dar o que temos em matéria de convicção, vamos trocar pelas mentiras deles; estou me preparando para isto. vou dizer para o povo brasileiro olhar nos meus olhos para ver se tenho alguma expressão que indique que estou mentindo. vou dizer que só no voto, vai ser possível passar o Brasil a limpo. Nós podemos nos ver livres de todo este lixo que a história mantém aqui, podemos limpar, fazer uma renovação ampla, na mesma urna, no mesmo voto. Nosso partido se orgulha de ter contribuído para a unidade. Nossos quadros se orgulham disto e os simbolizo na pessoa de um companheiro que dentro de pouco tempo, quando começar a raiar um novo tempo na vida brasileira, elegeremos governador do Mato Grosso, o nosso companheiro Dante de Oliveira. Todos que tinham uma posição parlamentarista, diziam: "Não, teoricamente pensamos assim, mas na situação ideal. Considerando a realidade que estamos vivendo, não temos dúvida: a posição correta e coerente, é a do partido". Rendo minha homenagem a estes companheiros. Nós vamos trabalhar pela unidade do povo brasileiro, vamos lutar para que o povo brasileiro marque sua posição. (27-08-93) Nosso partido, para ter um bom desempenho, precisa ocupar os seus espaços. Precisamos de um carro chefe. A mim, é confortador quando os companheiros lembram o companheiro Brizola para isto e para aquilo. Não estou pleiteando, mas sinto que isto é parte também do que devo ao Partido. Como é que iria me justificar, deixando o partido numa situação mais fraca, deixando de acorrer ao seu chamamento, deixando por conseguinte os nossos companheiros - deputados estaduais, federais, senadores e governadores - sem a cobertura que eles acham que é a melhor? Eu não teria como me justificar. Numa dessas, podemos ser o pólo, o centro propulsor, nos transformarmos num instrumento do Partido e dos aliados que vamos somar e em instrumentos do povo brasileiro que quer, através da união, sacudir de cima de si todo este mar de desgraças que está ai. Quando afirmamos, desde o começo, que este congresso se realiza sob o signo deste lema: "só a força do povo é capaz de mudar o Brasil", soa até com uma certa demagogia, quando não é. Quando dizemos a "força do povo", não estamos nos referindo a uma pressão, ignorância que não tem condições de se transformar numa realidade. Nós estamos pensando nisto que representa a conclusão da minha exposição aos companheiros: esta vai ser a nossa mensagem, vai ser o instrumento da união para o povo. Vou buscar aliança, vou buscar todos os cidadãos e cidadãs que neste país - pobres, ou ricos, ou remediados, de todas as atividades, do campo e das cidades - para nos unirmos. vou procurar fazer com que o povo brasileiro entenda que nós precisamos nos unir. Porque é muito difícil que o povo brasileiro vá cair noutra, como caiu nesta com o Collor. Naquele momento todo nós falávamos: "É, vamos renovar, precisamos de gente moça". E caímos na inexperiência. Então acho muito difícil que o povo brasileiro caia noutra inexperiência. Porque ser presidente numa hora de crise é como ter que assumir a responsabilidade do leme de um barco no meio de uma tempestade, um barco que está adernado. Quem sabe lá, poderei ser o instrumento dessa decisão unitária do povo brasileiro. E é para isto que estou me preparando, isso é o que quero dizer quando falo que estou arrumando a minha cabeça. Numa dessas saio procurando todo mundo para dizer: "Olha, vem me ajudar, vamos dar as mãos, vamos procurar muita gente por este país para, juntos, com força e com firmeza, conseguirmos tirar o nosso país do atoleiro". (27-08-93) Nós fazemos oposição ao governo federal, não temos nenhum compromisso com ele. Mas zelamos pela sua estabilidade, para que ele tenha condições- de gerir os negócios públicos e a nação para chegarmos às eleições. A grande esperança nossa são as eleições. Eu atribuo uma grande importância a essas eleições. Quando falamos em governabilidade não estamos falando apenas em funcionamento do governo. Nós queremos que o governo funcione, mas para o bem; não para privatizar, para tomar decisões e equivocadas, como foi o caso de Volta Redonda. Nós não somos em princípio contra a idéia de tornar o Estado mais 1eve, mais operacional, com mais flexibilidade; mas não concordamos com certos absurdos. Como é que pode existir moeda podre? se queremos vender alguma coisa, como e que vamos vender a troco de papel que não vale nada? Tudo foi artifício para criar uma aparente operação de venda; até o martelinho do leilão, que é símbolo para impressionar, estava lá; mas já estava tudo determinado antes. Utilizaram-se disto como um artifício psicológico para iludir as multidões, o país. Estamos preocupados com a funcionalidade. Queremos chegar às importantíssimas eleições de 94. importantíssimas porque há mais de 50 anos que o nosso país não tem uma eleição no regime presidencialista com coincidência. A eleição direta, simultânea, do presidente do Congresso é um dogma do regime presidencialista. A doutrina do presidencialismo vem dos Estados Unidos e lá as eleições são sempre coincidentes. Nós, desde o ano de 1950, não temos a coincidência. O governo ltamar tem um apoio político muito precário, é um governo fraco. Tudo depende da ação do presidente. Quando o presidente é afirmativo, é esclarecido, ele se faz seguir pelas suas idéias, pela sua orientação e pela sua postura. Ele imprime ao governo essas características, e o torna afirmativo. A despeito de tudo, vamos chegar às eleições. Precisamos todos ter consciência de que os nossos questionamentos têm limites; o limite da chamada governabilidade, da estabilidade institucional. Tomara que o povo brasileiro tenha a lucidez de instituir um governo coerente, com maioria no Congresso. Precisamos mostrar que o presidencialismo democrático, que não é o presidencialismo ditatorial que tivemos aqui, só funciona quando o presidente tem maioria no Congresso. (13-10-93) E precisamos dar um basta na continuidade de todo este sistema político que vem enterrando o nosso pais, sacrificando o povo brasileiro, empobrecendo a nossa população, tirando a perspectiva de nosso pais. vamos mudar esta camada de gente! O que um Delfim Neto tem a dar ao povo brasileiro? Nada! No entanto está lá no Congresso. O povo brasileiro precisa dar um voto muito consciente e isto só é possível através de uma consciência nacional. O Brasil precisa de um governo legitimo que surja das eleições, um governo democrático; porque fora da democracia, não há solução para nós. Qualquer ditadura faz o jogo dos grupos. Pode nascer sob a melhor inspiração, mas acaba podre, fazendo o jogo das minorias. Só o povo brasileiro com o seu voto poderá impor o governo de que o pais necessita: no dia 3 de Outubro de 94, depositando na urna este voto para presidente, senador, governador, deputado estadual e deputado federal. No mesmo voto ele poderá jogar no lixo todos estes políticos que vêm fazendo a desgraça deste país. Poderá criar uma situação completamente nova! Quando o voto se derrama como uma cachoeira, não há fraude eleitoral que consiga prevalecer, como aconteceu aqui no Rio de Janeiro com o caso da Proconsult. Tentaram fazer a fraude, as era uma cachoeira, os votos surgiam aos borbotões por toda parte, em tal quantidade que toda essa turma da Globo não teve outra coisa a fazer senão botar o rabo entre as pernas e se escafeder! Assim também pode ocorrer em 94. Eu, se puder, vou me dirigir a você, meu irmão e minha irmã, e dizer: olha bem nos meus olhos, veja se eu tenho cara de alguém, olhos de alguém que está mentindo. você pode fazer tomar aquela decisão coerente que nós precisamos dar. Depois, se você não pensar bem, não se queixe. Mas que está nas suas mãos, está. E acho que isso vai ocorrer, que se chama consciência nacional. Consciência nacional é isso; é uma convicção que se vai criar de Norte à Sul, de Leste a Oeste, por toda parte, e que vai levar o povo brasileiro a uma posição unitária nas próximas eleições. É a única forma de sair desse atoleiro em que nos encontramos. É um dogma do regime presidencialista as eleições coincidentes. Acho que o povo brasileiro vai pensar até dez na hora de dar o seu voto. A candidatura Lula vai se dissolver. Haverá um esgotamento histórico dessa corrente. Acredito que é possível se repetir o fenômeno da Dona Sandra, em 82. vocês se recordam que ela estava lá em cima, chegou a 60%, parece. Depois, o caminhão começou a correr e os pneus foram estourando um a um. Acho que o Lula também é um pneu recauchutado; quando o caminhão começar a andar e a esquentar, não tem possibilidade de se sustentar. (23-2-94) Nosso povo está construindo nesse momento a imagem, o perfil, do Presidente que elegerá agora em 1994. Sabemos que estão postulando o cargo o Lula, o Quércia, e o Fernando Henrique este apostando na manipulação da economia. O pais vai perder e a nossa economia se desorganizar. Quando essa medicação passar, essa anestesia cavalar passar, o organismo estará muito mais depauperada, - enfraquecido, e a enfermidade agravada. Isso é o que vai acontecer com o nosso pais. Então ai está o Ministro Fernando Henrique buscando uma chance através dessa jogada. Assim como o PMDB fez com Sarney, através do chamado Plano Cruzado. Aquilo foi uma impostura em cima do povo brasileiro. Agora vejam o seguinte... Depois tem Antônio Carlos Magalhães, Sarney, vejam que perfis... O Fleury também está se lançando com todo um acervo de condicionais. Na verdade o povo brasileiro está construindo o perfil de um guia para sair dessa situação em que acabou nesses tempos. O povo necessitará e um guia. O povo brasileiro e um guia, como o povo de Israel no Egito. Explorado, trabalhando compulsoriamente, de tal modo que quando ele conseguiu se unir, vencer as intrigas, os grupos, quando conseguiu se unir em torno de Moisés caminhou resolutamente para fazer a travessia do deserto. E voltar a sua coerência, aquilo que a história sagrada chama de terra prometida. Foi a união que permitiu que o povo de Israel saísse, conseguisse sair da situação de explorado e escravizado. Imagino quanto foi difícil a união. Mas foi uma elaboração de todos que deixaram sem força, deixaram de lado os adoradores do bezerro de ouro que mesmo no curso da travessia, na hora das dificuldades, procuravam confundir os rumos verdadeiros com que o povo de Israel queria construir o seu futuro, buscar o seu destino. Aqueles grupos imediatistas, egoístas, oportunistas, procuravam ao mesmo tempo fazer a confusão. Era uma situação muito parecida com a que se o povo brasileiro. Precisamos assumir o nosso destino por nossa conta. Não vai ser o FMI, nem os bancos estrangeiros, nem as multinacionais, ou grupos poderosos - que irão nos tirar da crise. Precisamos da cooperação de todos, mas o esforço mesmo para desencalhar esse barco terá que ser feito por nós. E nós, se estivermos unidos, teremos força de sobra para tirar o país do atoleiro e o povo das humilhações, da opressão, dessa situação colonial intolerável em que nos encontramos. Este perfil, tenho certeza, é o que o povo brasileiro está procurando construir e não vai se enganar. Esses grupos, essas oligarquias, esses coroneis, esta quantidade de políticos vendidos, essa quantidade dos que vivem para si explorando o povo brasileiro, pelo Brasil afora; vão ficar de lado, ficarão à margem da estrada. O povo brasileiro vai votar, as pessoas vão se ligar diretamente naquele candidato que venha a ser o merecedor de sua confiança. E vai ser esta força que vai tirar o povo brasileiro do atoleiro. É o que vai acontecer. Quando olho, por exemplo, essas evoluções do Lula, chego a ter pena! Faço a mea culpa como todos, certamente, que votaram nele com esperança. Como todos quantos votaram no Collor, em nome de uma esperança, também devem fazer a sua mea culpa. Por que nós, naquelas eleições, nos cegamos pelo brilho da liberdade, da democracia, nós ficamos ofuscados, encandeados como dizem os castelhanos, e não conseguimos ver - estávamos em lua de mel com o voto - nós não conseguimos ver que nenhum dos dois servia. Fosse o Collor, fosse o Lula. Tínhamos que ver que íamos dar com os burros n'água porque eram dois inexperientes, dois despreparados, nenhum dos dois tinha condições, equipes, ou confiabilidade. Não tinham convicções, não tinham firmeza. Como Lula não tem até hoje. É como dizem os gaúchos lá da fronteira. Lula vai ser um pau de banhado, desse que balança de acordo com a direção do vento. Um palanque de banhado... Não tem firmeza! Vejam como ele procede agora: metade do partido entra na revisão, a outra não. Ele devia desempatar. Mas foge. E vai ser assim porque falta a ele a cristalização do pensamento, das convicçÒes, faltam pensamentos conclusivos. Ele é um despreparado, ele devia ir ser prefeito de Santo André, ou de São Bernardo, de uma cidade, de uma capital depois passar por um governo de estado, receber aquelas lições que só a experiência trás. Olho tudo isto e vejo como um desafio. Acho que nós estamos desafiados, a cidadania e aqueles que têm responsabilidades, que és, tão na vida pública com responsabilidade. Vivo este momento: não tenho nada resolvido, mas no momento em que resolver vou jogar nessa decisão tudo o que aprendi no curso de minha longa e sofrida vida. vou jogar tudo ali e garanto que se decidir entrar, vou entrar para ganhar. Sobre os comentários do Governador Quércia contra Lula, acho que ele assumiu um método radical e personalista. Precisamos ver as idéias do Sr. Quércia, ele precisa aflorar, expor as suas idéias. Dar as explicações que a opinião pública está pedindo e expor as suas idéias. O que acha. Não nos venha apenas repetir o que uma mídia suspeita está fazendo com o nosso país. Como privatizar é a salvação, só sairemos da crise privatizando e adotando a URV. Imaginem vocês! Já imaginaram onde caímos? URV. É a nova moeda, artificio através do qual . vamos sair dessa desgraça em nos encontramos para o paraíso. vejam, não têm nem criatividade ou originalidade. É até um nome feio. É claro que seja um nome feio porque não passa de uma trampa para envolver a boa fé do povo brasileiro. Não passa do caminho da dolarização e de um processo visando oprimir o mais fraco e resguardar o mais forte. Qual é o papel dos bancos nisso tudo? E as multinacionais, que são as que ganham dinheiro. Por acaso se preocupam em discutir a tal de URV? Não, quem se preocupa é o assalariado que terá que se submeter a novos sacrifícios, que vai ter isso refletido nos preços e será prejudicado com as novas tarifas dos serviços públicos essenciais como gás, transporte, etc. Nós estamos cheios de preocupação com tudo isto, com essa onda de URV! URV! URV! O que é isto? Agora sabemos que a experiência é uma qualificação indispensável para se ter o mínimo de governabilidade. É como alguém que, simplesmente por ter se fardado de comandante, com os galões, o quepe; só porque se fardou de azul, chega no avião e diz: "Podem embarcar porque estou fardado de comandante". Olha, até por conhecimento geral, só por ouvir dizer - sempre tem um sociólogo aqui, outro ali, não é? -, a pessoa leva o Jumbo até a cabeceira da pista. Ele também pode saber que tocando aquelas manetes para frente o Jumbo vai roncar e - nhòm! nhòm! nhóm! - no susto, puxando tudo, o Jumbo pode decolar. Mas e para descer? Eu pergunto. E o que vai acontecer lá em cima? (30,06-93) No curso da minha vida tenho sido motivo de muitas incompreensões, muitas injustiças, muitos ataques, e tenho tido períodos muito duros. Todos ultrapassados. veja você: de toda aquela gente de antes de 64, temos ai muito poucos. Está o Arraes, estou eu... E quem não está na cama, já se foi pata aquela morada que, nós sabemos, um dia iremos pata lá. Pois bem, tenho ultrapassado tudo isto. Eu sou planta do deserto no sentido de que enfrento estas situações e elas vão passando. Às vezes diante da seca inclemente que não ter fim, me alimento de simples orvalho, uma gota de já me alimenta. É assim também nas crescentes, nas cheias parece que vão arrancar aquela planta, no entanto a minha raiz é que lá permanece. Isto é o que eu quis dizer nesta imagem. (11-08-93)
O BRASIL NA ECONOMIA INTERNACIONAL Quem acredita no FMZ? Ninguém. Receitas do FM( só com ditadura e porrete. As veias abertas do nosso organismo econômico. As elites do Brasil vivem de costas para o seu povo. As perdas internacionais da nossa economia. Um povo só sai de suas difliculdades por si próprio. A divida externa? Negociar, negociar e negociar. O FMI mudou? Desde que me conheço por gente, não. A guerra estava terminando, os pracinhas voltavam com festas e parada militar e eles já estavam se reunindo lá em cima para traçar as normas. Derrubaram Getúlio porque diziam assim: "Ditadura não Democracia agora, no pós-guerra?" E lá vieram as normas do Fundo. O primeiro Presidente a colocar em ação as normas do Fundo Monetário Internacional (FMI) no Brasil foi o Dutra. Se o País tivesse seguido a linha de Getúlio estaríamos numa outra hoje. Getúlio não tomava dinheiro emprestado lá fora. Preocupou-se em modernizar o Brasil. Pois veio Dutra, fizeram acordo com a UDN e derrubaram o que ele tinha feito. Getúlio voltou nas eleições seguintes e ficou claro para os que apoiavam a. política do FMI que para impô-la, àquela altura, só com a ditadura. E começaram a trabalhar nessa direção, até que deram o golpe de 64. A ditadura ficou aí 20 anos, mais os cinco do Sarney 25 anos no total. Mas esse modelo se esgotou e inventaram o neoliberalismo para aplicar as mesmas regras do Fundo. Elas são o denominador comum dos programas que querem aplicar aqui. (28-04-92) O povo tem saudades de Juscelino Kubitschek. Ele desiludiu-se com o FMI porque entendeu que se fosse governar segundo a receita dessa gente, não poderia fazer nada. Eles eram contra a transferência do governo para Brasília, eram contra o Plano de Metas, contra a construção da Belém-Brasília e assim por diante. Só queriam o arrocho. Mais tarde outros presidentes aceitaram a interferência deles e deu no que deu. Quem acredita no FMI? Ninguém! (23~10-91) A verdade é que se o monitoramento do FMI fosse bom, o Brasil não teria se atolado na dívida externa como se atolou. Eles é que nos empurraram para esse abismo. De certa forma nos botaram um buçal, aquela argola que se põe no nariz do touro para poder puxá-lo para lá e para cá. No caso do Brasil, a argolinha chama-se dívida externa. Nos puxam para tudo quê é lado. Então isso é assessoramento? O que faziam os técnicos deles? Por que não nos alertaram? Por que não nos avisaram que estávamos nos atolando? Será que não sabiam? Esta é a questão. Para mim, esta é a última vez que fazemos acordo com o Fundo Monetário Internacional. Não creio mais nisso, não é perspectiva para nós. Espero que nossos governantes entendam e assimilem todas estas lições que a experiência desses anos todos nos trouxe. Está aí a nossa desgraça. O Brasil hoje é como uma casa onde falta pão. Brigamos uns com os outros pelas migalhas que sobram., quando deveríamos nos unir para construirmos uma nova vida. De qualquer forma, estamos aprendendo, caminhamos para lá. Vocês verão - basta um pouquinho mais de tempo para este país se alinhar diferente. Ele ainda vai entender a sua hora porque ninguém sabe como as coletividades escolhem o seu momento. (28-4-92) O neoliberalismo não passa de uma impostura. Nele os ricos ficam mais ricos acumulando capital e renda. E com isso o Fundo Monetário vai estendendo o seu sistema. Só que para ele funcionar, precisa existir também a ditadura. Nessas receitas do Fundo, no início, a preocupação é com uma banhazinha aqui, outra ali. Mas quando começa a tocar na carne das economias locais, o negócio fica feio. E aí, para prosseguir, só com ditadura, com arrocho, com porrete, na bala. Foi isto que se tentou fazer na Venezuela e agora está acontecendo declaradamente no Peru. Esse Fuiimori -declarou - está lá no seu manifesto - que a ditadura dele era para adotar a receita do Fundo. *** A não ser que o FMI nos imponha uma dificuldade insuperável, o Brasil não deve se sujeitar a uma situação semelhante à da Argentina. Li hoje no Diário de Pemambuco uma manchete dizendo: "FMI pretende impor ao Brasil receita igual à da Argentina". Isso mostra uma tendência... Imitar a Argentina e instaurar aqui a dolarização, a adoção do dólar como moeda oficial, seria muito ruim, uma catástrofe. E a nossa riqueza vai embora. Com o pais dolarizado, os cruzeiros podres poderão ser trocados por dólares, será possível abrir conta em dólar, será fácil receber, mandar para fora, etc. choverão dólares da especulação internacional por aqui. A moeda brasileira ficará verde e alguns até vão dizer: "Olha, que maravilha, o nosso dinheiro é ecológico agora, é verde"... Acontece que o povo humilde continuará com os seus cruzeirinhos, enquanto os grandes funcionários, os grandes executivos, os empresários, trabalharão em dólar. Sabem o que acontecerá? A festa vai durar certo tempo, mas só que à custa do sacrifício da população mais pobre - como está acontecendo na Argentina. É claro que nossos governantes - como aconteceu com o presidente Meném, da Argentina - serão recebidos nos Estados Unidos com grande festa! Nunca vi isto na minha vida, a maneira como Menem foi recebido lá. Esta é a perspectiva do Brasil com a dolarização. O governo não emitirá mais um tostão. É como se o governo declarasse: "Neste momento não fabrico mais dinheiro, boto fogo na casa da Moeda, não emito mais um tostão!" Seria a mesma coisa, só que ninguém acredita. A Argentina já começou a emitir, embora digam que só estão emitindo o que é superávit orçamentário. Mas tudo não passa de artifício. Só quem pode emitir dólar é o Tesouro americano. A paridade forçada com o dólar é o pleno arrocho. Claro que por algum tempo o pais vive uma euforia, dizendo que a sua moeda é estável. Só que enquanto isso a sua economia está sendo despojada pois carece de investimentos ou crescimento real. A indústria é sucateada, envelhece, o desemprego é maciço e grande parte da população é jogada na miséria, na pobreza. É como aquela história do torniquete que aperta uma perna e ela necrosa. Isso é óbvio, já que o sangue deixa de chegar ali. A dolarização é mais um artifício* para ver se agüentam comum sistema que, no nosso entender, está morto - revelou-se iníqüo. Um sistema que tem que cair assim como caiu o sistema econômico dominante lá na Europa Oriental e na própria União Soviética. Caiu porque essas regras que despojam a economia dos povos estão acabando. É isto que ocorre conosco, e essa é a minha visão, resultado da minha observação de tantos anos, naquilo que o bom senso e o conhecimento do mundo me levaram a compreender. (03-12-91) A essência para nós é recuperar a prosperidade, mas isso depende essencialmente da correção das injustiças. Não estou sendo precipitado nem leviano ao dizer: enquanto o Brasil não encarar como prioridade máxima a questão das perdas internacionais não sairemos da crise. Se não as estancarmos, não conseguiremos conter a inflação, não conseguiremos estabilidade econômica, não conseguiremos nada. O Brasil estará sempre rolando. E os doutos em matéria de economia que estão ai, todo esse pessoal que põe e dispõe de nós há anos e anos, nem sequer falam sobre isto. Para eles o problema não existe porque trabalham dentro deste sistema que questionamos de fora para dentro. Tudo o que este governo fizer - dando choque, confiscando poupança, adotando os mais diversos programas como privatizar e amanhã dolarizar tudo - pode até conter a inflação por algum tempo, mas tudo o que conseguirão terá o mesmo efeito que se consegue quando se comprime uma mola: quando ela for liberada, volta tudo ao que era antes. E da forma mais desastrosa possível para nós. Por que não encaram, não tratam de ir à raiz do problema? Na verdade eles trabalham exatamente no sentido contrário: a política deles é abrir cada vez mais e a sangria, que vinha sendo feita através de uma agulha, passa a ser feita através de veias abertas. Que espécie de concorrência podemos ensejar abrindo o país? Um conjunto de fatores despojam a economia, transferindo as riquezas para os grandes centros internacionais de acumulação do capital. Vendemos barato demais, o dólar sobe e a dívida externa também. Importar fica caro, e a nossa indústria não consegue se reciclar. Não temos uma estratégia de autonomia e fortalecimento, e tampouco uma política industrial no país. Vai acontecer conosco o que está acontecendo na Argentina. Os industriais de lá não fabricam mais nada, importam! E no fundo é isto que querem fazer com a economia brasileira. Só que a nossa economia não é uma economia qualquer: ela pesa na balança dos interesses internacionais! E colonizar o Brasil interessa muito às grandes nações. O Brasil e o seu futuro incomodam aos poderosos do mundo, por isso a eles interessa desmantelar a indústria brasileira e as nossas perspectivas futuras de autonomia e vida própria. Esta é uma questão que recém começou a ser discutida. É claro que precisamos combater o déficit, enxugar a economia, fazer com que se trabalhe mais aqui e se desperdice menos, mas há também uma questão fundamental: ter uma classe dirigente aliada ao povo. Isto a curto e a médio prazos. Agora, se pensarmos no futuro a longo prazo, não há outro caminho senão o da revolução educacional. Só preparando a nossa gente, o nosso povo, é que conseguiremos sobreviver. Não imaginamos o futuro sem a grande nação que o Brasil tem condições de construir. (05-11-91) Vejam o que aconteceu com a União soviética. Para nós era inconcebível até há poucos dias como um país daquele tamanho, daquela importância, daquele poder, de repente se desmanchar, se derreter como uma pedra de gelo ao sol do meio-dia. Desmontar como um castelo de cartas... Vejam também o que aconteceu lá na Venezuela. O presidente eleito estava executando uma política - exatamente a exigida pelo Fundo, a chamada neoliberal, um homem que conheço pessoalmente, uma grande expressão do nosso tempo, eleito legitimamente, um homem de grande experiência que exercia pela segunda vez a presidência da Venezuela; pois este homem, o presidente Andres Pérez, de repente se viu bloqueado por um movimento, uma tentativa de golpe, e agora está vivendo um processo de desestabilização. Sua administração está sendo ameaçada pelo próprio partido oficial, que exige mudanças da política econômica e a destituição de ministros. Enfim, vivemos num mundo que nos adverte: o Brasil é um país muito grande, uma árvore gigantesca que não pode cair. O Brasil não é um arbusto que se dobra com o vento. Devemos nos preocupar profundamente com o nosso destino. Para mim o que aconteceu na União soviética foi nada mais nada menos do que uma circunstância que pode ocorrer com famílias, com empresários e até com as pessoas. Os dirigentes daquele imenso império, em dado momento, absorveram e assimilaram a ideologia de seus competidores. E com isto desestabilizou-se a situação no país. Precisavam sair por meio de uma posição coerente, mas como assimilaram a ideologia dos outros, não conseguiram. Isto pode se repetir aqui: imitamos as idéias dos países ricos e industrializados, idéias que não se aplicam a nós. Se abrirmos tudo para os interesses externos, internacionalizarmos a nossa economia - o que não ofereceria nenhum perigo para nações como Alemanha, França, Estados Unidos e, quem sabe, o Japão - para nós isso pode trazer conseqüências trágicas. Eles nos colonizam! É como naquela história dos peixes que observavam as aves e eram até um pouco provocados por elas - porque não podiam sair da água e viviam molhados. As aves diziam: "Venham para cá, para o Sol!" E os peixes respondiam: "Não podemos andar livremente, temos que ficar aqui". Mas um dia eles combinaram fazer uma tentativa de viver diferente e saltaram para fora d'água. Ficaram na praia. São ameaças que pesam sobre nós, porque estamos nos desarraigando, estamos nos desprendendo de algumas virtudes, de algumas questões que foram básicas, foram o cimento que mal ou bem construiu esta nação. Este movimento neoliberal quer abrir o país e transferir patrimônio público para bolsos particulares a partir deste eufemismo chamado "privatizar". Francamente, isso não passa de um período que chamaremos de "extertores" desse sistema. Isso não vai dar certo aqui, como não deu na Venezuela e não dará na Argentina. Como não deu certo em parte alguma. Para que abrir as fronteiras do país e entregar tudo para que estrangeiros venham e façam? Naqueles pequenos países da América central, onde coisas assim sempre foram possíveis, não deu certo. A população continua pobre, miserável e atrasada. Um povo sai de suas dificuldades por si próprio. Um povo só consegue sair da crise com as suas energias, com os seus valores. E também com o seu orgulho! E é isso que precisamos recuperar, é isso que precisa voltar a influir em nossos movimentos, em nossas decisões, em nossas preocupações. Precisamos retomar o nosso destino. E tudo o que está aí é contrário a que isso aconteça. O sistema econômico em vigor no Brasil é contrário aos interesses do povo brasileiro. Ele é uma amostra, uma prova, da deterioração da vida brasileira. As coletividades humanas, quando se estabelece a crise, a carência, a fome, a reimão de seus filhos. E é isto o que está acontecendo com o povo brasileiro. O quadro desanimador que vemos nos dias à hoje nas grandes cidades brasileiras é resultado do sistema econômico do pós-guerra, que recaiu sobre nós e sempre contou com a cumplicidade das classes dirigentes. Por que isso não entra na cabeçadas pessoas importantes, dos grandes empresários, das pessoas ricas e dos intelectuais convencionais? E principalmente desses intelectualóides que o Brasil tem? Não entra porque muitos deles estão a serviço desses interesses. Na verdade, meus compatriotas, isto não tem nada de ideológico. É uma realidade cruel, desumana e monstruosa. O Brasil está na coluna dos perdedores. É uma tristeza fazermos uma comparação com países que, a rigor, em função da produção, deviam até pagar salários menores do que os nossos. Somos um país de baixos salários. Isso ocorre com os aposentados e os pensionistas, por exemplo. De um lado o governo segura e diz que não tem, do outro lado está a realidade da sobrevivência dos aposentados. O que justifica a existência de uma nação? O mínimo de garantia da sobrevivência do seu povo. Quando vejo este quadro geral em que vivem nossos aposentados e pensionistas, sinto uma tristeza profunda. Tudo vai sendo adiado em função da luta para conter a inflação, tudo é procrastinado. E esse endividamento? Como é que caímos nesse endividamento? Quando vejo a imprensa ocupada com alguns ladrões de galinha, deixando que o país perca a sua essência através desse verdadeira assalto que é a dívida externa - pagando juros desta forma, transferindo renda, permitindo esses depósitos- escandalosos lá fora -, enfim, com toda essa economia sangrando, fico triste, pensando que tudo que os jornais publicam é para encobrir, para erguer uma cortina de fumaça! Fala-se em moralização, mas focalizam dois ou três ladrões de galinhas, quando esse espaço nobre deveria estar a serviço da economia nacional contra esse sistema que nos corrói. O que se passa com a nossa economia que está entre as maiores do mundo, mas vem caindo? O que está acontecendo? Produzindo como produzimos, como é que podemos ter o atual padrão de vida? Para onde é que vai a riqueza produzida? Tudo se escoa porque estamos submetidos a um processo de perdas por essa economia cartelizada. Nós, que viemos de longe, pressentimos que isso está no fim. Esse modelo que se estabeleceu no pós-guerra está exaurido terminou. Vamos entender tudo isso, mas principalmente saber que se nós não estivermos unidos, não tivermos uma vontade nacional e voltarmos a ser o país dos brasileiros, não conseguiremos sair da crise em que vivemos. Precisamos reconstruir o Brasil, trazê-lo de volta para o nosso próprio povo; e isso exige a nossa união. (16-03-92) *** Lá em Nova York, na câmara de comércio Brasil-Estados Unidos, aquela gente importante me olhava, com certa curiosidade, para ver como é que esse Brizola de cabelos brancos, já setentão, ainda seria uma ameaça. Tanto que perguntaram de chofre: "O senhor, eventualmente na Presidência da República, honraria os compromissos assumidos pelos sucessivos governos brasileiros por conta da dívida externa?" Olhei bem, parei um pouquinho e fiz que nem o papa que espera um pouco só para criar expectativa. Aí disse: "Olha, os senhores sabem que temos milhões de pessoas no Brasil passando fome. Temos milhões de crianças sem colégio, desnutridas, estamos mergulhados numa crise em grande parte devido à insensatez dessa dívida externa. Precisamos atender a essas prioridades, mas de nenhuma forma queremos fazer algum tipo de papelão assumindo uma atitude que de repente deixa mal o nosso país. Mas continuar com o quadro que está ai, é impossível. Os senhores não estão recebendo nem os juros da divida e nós estamos sem condi- ções de pagar. Estamos dando sucessivas cartas para o FMI e não cumprimos estas cartas. Esta é uma situação deprimente, inclusive até destrutiva moralmente para nós e para os senhores frente aos seus acionistas, pois terão que explicar como é que foram emprestar dinheiro para um cliente tão relapso." Aí conclui: "Sabem qual é a minha orientação? Negociar, negociar e negociar!" Bom, na medida em que ia repetindo a palavra negociar, aumentava a reação de desabafo daquele plenário. Acharam graça, acharam tudo razoável. (24-11-93) |
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