Novo livro sobre Brizola

Análise da socióloga Maria Victoria Benevides

Prefácio de Luiz Eduardo Soares

Leia também a introdução (do autor)

Como adquirir o livro

 

Brizolismo
João Trajano Sento-Sé
1999.368p.
R$29,00
Fundação Getúlio Vargas

Fim de século: qual será o destino da sociedade contemporânea e da política brasileira? Uma reflexão que João Trajano Sento-Sé desenvolve no livro Brizolismo, co-edição da Espaço e Tempo e Editora FGV. O livro é um convite ao debate. Com o objetivo de repensar os problemas do país e buscar soluções, o autor descreve a saga brizolista, a trajetória política do líder gaúcho e sua incansável candidatura à presidência da República. Analisa várias décadas até a de 80, na qual o compromisso maior era a transformação do Brasil e não o sucesso profissional.
Brizola representa um passado de tempos heróicos e proféticos, de líder carismático que propagava as promessas messiânicas da salvação nacional e, eventualmente, da redenção universal. Da paixão pelo político nasceu a Brizolândia, um espaço freqüentado por seguidores do líder pedetista e transformado em tribuna pública nos anos 80.
Brizolismo é o retrato de uma fase política e vai além da expressão geralmente associada à paixão dos pedetistas. Conta a história de Leonel Brizola na formação do PDT e de sua presença na política e no governo, além de analisar em profundidade o país e a lógica política do liberalismo tardio.
Revê clássicos dilemas da política brasileira - moderno/arcaico, ordem/desordem, tradição/ruptura, elites/massas - que costumam ser associados, de diferentes maneiras, à persona de Brizola. Ele empunhou muitas bandeiras, obteve grandes conquistas e algumas perdas. Mas manteve, segundo o autor, o sentido ético-político, que antes figurava como carro-chefe da identidade intelectual, como estilo de vida e de vocação. Muitas vezes acusado por vários deslizes, Brizola manteve a virtude de não se conformar com a cena política do país.

Para adquirir o livro:

Você pode adquirir esta obra através do cartão de crédito ou via depósito bancário.
Pelo cartão basta informar a bandeira, o nº e a data de validade. Caso prefira o depósito bancário, ele deverá ser feito no Banco do Brasil, a favor da Fundação Getulio Vargas, ag. 0287-9,
c/c 112.715-2, Rio de Janeiro - RJ.
Neste caso, passe um fax (21) 559-5541 com recibo de depósito . Não esqueça de fornecer seu endereço completo.

Site da Editora Fundação Getúlio Vargas

Forma e Conteúdo da Política:

João Trajano Sento-Sé redescreve

a saga brizolista

(disponibilizado na rede em 01/12/99)

Luiz Eduardo Soares

(Professor do luperj e da Uerj, atualmente

sub-secretário de Segurança do estado do Rio de Janeiro)

O livro de João vai se tornar leitura obrigatória na academia, não tenho dúvida. Creio que também se tornará leitura indispensável a todos que se interessam pelos destinos das sociedades contemporâneas e, portanto, pela história do Brasil. Quando o Iuperj premiou a tese de doutorado de João como a melhor de 1997,  já havia, ali, naquele gesto institucional, o reconhecimento desses méritos. Afinal, os que conhecem de perto o Iuperj sabem que 1997 foi uma safra absolutamente excepcional, na quantidade  23 teses foram defendidas, em ciência política,  e na qualidade. A tese virou livro, sem alterações significativas, porque o trabalho já estava bastante maduro. 

Não me cabe, em uma breve apresentação, introduzir os argumentos centrais do livro. Os leitores encontrarão no autor um guia sereno, sofisticado, seguro e, ao mesmo tempo, atraente, persuasivo e didático. Não será preciso, aqui, antecipar-lhe os passos. Meu papel deve ser suplementar, aduzindo considerações que ultrapassem o âmbito de abrangência da temática focalizada no livro, ajudando a contextualizá-lo e a demarcar a importância, e a originalidade, de sua contribuição. Será necessário, então, olhar em volta e darmo-nos conta da história em que estamos metidos. Não da história política, porque dessa trata, e bem, o autor. Mas da história intelectual recente brasileira.  De que enredo somos protagonistas? 

Durante muitas décadas e até o início, pelo menos, dos anos 80, a ciências sociais foram, para várias gerações, uma espécie de compromisso de vida de missão ético-política, cuja finalidade última não era o sucesso profissional, culminância de uma carreira, mas a transformação do Brasil. E esse horizonte típico-ideal marcou profundamente todas as dimensões das trajetórias e obras dos intelectuais, por mais que nossos engenhosos colegas, leitores de Bordieu ou fiéis à teoria liberal do mercado, procurem demonstrar que era apenas a carreira que se escondia, solerte, e se realizava, sob as máscaras honradas dos propósitos coletivos e sob os valores ideológicos dos projetos políticos. Como em quase tudo na vida, diferentes pontos de vista são plausíveis, à imagem dos exercícios gráficos de Escher, em que os labirintos das escadas ora recuam, ora avançam, na direção do observador. Creio que este livro foi escrito de um ponto de vista autoral, para cuja autoconstrução continuam relevantes os quadros de referência do passado: ao intelectual compete repensar seu pais para inventar soluções e ajudar a mudá-lo. 

Brizola, apesar de ainda ativo, na cena contemporânea, também foi um político do passado, de tempos heróicos e proféticos, quando o carisma carregava as promessas messiânicas de salvação nacional e, eventualmente, de redenção universal. 

A tendência que organiza a vida intelectual brasileira, nos últimos anos, tem sido a nova ordem acadêmica, de inspiração norte-americana, cuja matriz é a especialização, a institucionalização das disciplinas, a redefinição do universo de referências em função das exigências da carreira e da lógica da profissionalização. Em síntese, resultam desse processo muitas conquistas significativas, mas também algumas perdas. Entre elas, destaca-se a perda do sentido ético-político, antes chave para a própria identidade intelectual, como estilo de vida e vocação. A profissão substitui a vocação, reificando os valores conferidos a seus instrumentos imediatos e naturalizando os significados que derivam de sua experiência limitada, autocentrada e reiterativa. 

Quem ousaria, nesse fim de século, criticar a modernidade? Para superá-la com insinuações pós-modernas, vá lá... mas para valorizar o passado... não faria sentido Fechamos o século XX, celebrando o diagnóstico de Max Weber: os processos de racionalização, autonomização das esferas, diferenciação e especialização de fato se impuseram. E o fizeram a um preço por vezes inferior ao que Weber antecipara, mergulhado nas sombras de seu ceticismo. Houve efeitos de composição que terminaram por democratizar o processo que Weber concebia tão perverso quanto inexorável. Por que a vida intelectual resistiria à vaga modernizante? E por que não se beneficiaria dos efeitos paradoxais positivos, como a democratização, entre outros? O que haveria de intrinsecamente errado com a tendência que, finalmente, hoje, impera no Brasil? 

Todo cuidado é pouco, em matéria assim complexa e rica em nuances. Uma palavra a mais ou a menos e corre-se o risco de soar passadista, retrógrado, reacionário, nostálgico, idealista e até mesmo elitista. Bem-vinda a modernização. Saudêmo-la, todos. Até mesmo porque inevitável, celebremos seu advento e nos preparemos para torná-la o mais positiva possível, reduzindo-lhe as implicações negativas. Excelente. Ponhamo-nos de acordo quanto a esse ponto. Aceitemos a celebração, mas guardemos uma pitada acre de ceticismo, para que não percamos nosso ânimo crítico. Pitada amarga de dúvida e hesitação, autorizada pelo próprio reconhecimento weberiano de que modernidade traz consigo também implicações negativas. Retomemos, nesse ponto, a conclusão do parágrafo anterior: de que aspecto negativo falamos, afinal, já que parece mesmo legítimo identificá-lo? 

Falamos da reificação que fetichiza as disciplinas e sua estrutura organizacional; da fetichização que concorre para a naturalização do engajamento dos cientistas sociais na ordem que outrora fora objeto da crítica de nossos melhores antecessores.  Recorrendo a conceitos ultrapassados, poder-se-ia sugerir a seguinte formulação: apesar dos avanços que proporciona, nos planos da produção do conhecimento de sua difusão social e de sua aplicação generalizada, a tendência modernizadora, que transforma a vida intelectual em uma profissão como outra qualquer, traz consigo a imposição de uma ideologia, cuja assimilação corresponde ao sacríficio da dimensão ético-política, entendida como compromisso com valores e projetos superiores e independentes da profissão e de sua lógica, essencialmente radicadas no mercado. Em outras palavras, por mais satisfatórios que sejam os resultados, não nos esqueçamos que nossas disciplinas, suas condições organizacionais e seus efeitos identitários, poderiam ser descritas como ideologias, se aceitássemos, por um momento, vocabulários pretéritos, mas ainda, por vezes, úteis. 

Assim como a defesa unilateral e sectária do intelectual do passado seja chamado intelectual orgânico, seja o tradicional, nos termos gramscianos - poderia degradar-se em mera peça de retórica conservadora ou nostálgica, o elogio acrítico da tendência hoje em curso poderia também reduzir-se a simples legitimação de um status quo empobrecedor e, às vezes, autoritário, excludente e tirânico, que contém, cada vez mais, e paradoxalmente, elementos de irracionalismo e de barbárie, sob a forma de idolatrias fetichistas diversas (como a metodolatria neopositivista tão sedutora e fashionable). 

O livro de João incorpora, tacitamente, sua voz, com dicção própria e resoluta originalidade, ao debate contemporâneo sobre os destinos dos intelectuais, no mesmo movimento em que se abre, com rara generosidade e grandeza, para a singularidade do percurso de Brizola e do brizolismo, cujos embaraços com a modernidade são análogos aos vividos pelos intelectuais críticos, em seu próprio campo de autoconstituição identitária. 

A relação de proximidade e distância de João-autor com os procedimentos e linguagens das ciências sociais profissionalizadas parece mimetizar, inconscientemente, as circunvoluções de seu objeto. Ele conhece e domina os recursos conceituais das disciplinas em que se apóia, mas recusa sacrificar sua posição sujeito-autor para fazer falar a ciência: disciplina. Jamais veremos a teoria ou o método operando, como que se reproduzindo por automatismo inercial. Há sempre a mediação do autor. E isso, longe de traduzir narcisismo, expressa a natureza eminentemente reflexiva da linguagem que João cria e em que é criado, como personagem-narrador, isto é, ponto de vista. Em o fazendo, afirma sua sincera humildade epistemológica, porque desnuda o caráter inexoravelmente relativo e contextual das interpretações e de suas motivações. 

Brizola, por sua vez, e seu campo de reverberação semântica, positiva e negativa, o brizolismo,'se acomodam com dificuldade à lógica do mercado político, em sua versão liberal fin-de-siècle. É verdade que Brizola sempre foi um homem de comunicação, por assim dizer, e não teve problemas em passar do rádio para a TV. O líder gaúcho-fluminense sempre foi bom de palanque e de televisão. Todavia, isso não basta para fazê-lo um homem de comunicação ou de mídia, no sentido contemporâneo. No quadro do mercado político liberal, a mídia é o espaço de adequação progressiva à gravitação imposta pelo centro e exige uma enorme agilidade e competência específica, seja na resposta-incorporação das pautas conjunturais, seja na produção antecipada de pautas, que invertam dinâmicas e focos, em beneficio dos que passam a dominar a agenda, introduzindo temas que lhes interessem, capazes de propiciar coalizões momentaneamente convenientes. Brizola tem sido, ao longo de sua trajetória, infenso a pautas alheias e à automodelagem ditada pelas conveniências da oportunidade. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que Brizola foi gradualmente alijado da competição política, na medida em que não cedeu à força de gravitação determinada pelo centro. Gravitação inevitável, porque resultante das lógicas do mercado eleitoral e da mídia. 

O poder da mídia está, sobretudo, em sua capacidade de introduzir temas na agenda pública e focalizá-los, contribuindo intensamente para o estabelecimento da hierarquia que identifica prioridades. E isso é decisivo, já que o resultado dos embates políticos depende da capacidade que cada ator demonstra de somar forças e ampliar alianças, em cada momento, em face de cada disputa específica. Tal capacidade, por sua vez, não é atributo intrínseco ao ator, mas função do tema posto em disputa e dos posicionamentos respectivos, em relação ao tema em causa. Conseqüentemente, vence quem pauta, quem domina a confecção da agenda, quem seleciona os objetos da disputa, uma vez que essa seleção implica a escolha de aliados potenciais e inimigos virtuais. A complexidade desse jogo, que não se reduz à mídia, mas nela encontra sua arena estratégica, tende a refletir o predomínio inexorável do centro ideológico, como eixo fundamental de gravitação política, se denominarmos centro o instável e tenso equilíbrio do mercado de opiniões. Em outras palavras, a virtude política contemporânea, isto é, a aptidão para o êxito, corresponde à capacidade de sintonizar-se com a tendência predominante na sensibilidade pública, que privilegia posições moderadamente conservadoras. O senso de oportunidade outrora estigmatizado no jargão político, emerge como qualidade exponencial. O político moderno é um empreendedor orientado para uma carreira individual que se credencia ao sucesso na medida em que maximizar vantagens, sustentando posições e atuando sobre o imaginário coletivo de forma a contemplar as expectativas dominantes, em cada contexto. O mercado como conteúdo e como forma. O oportunismo sem nenhum caráter como expressão perfomática de uma espécie de estética fetichista do êxito a qualquer preço. Ora, Brizola pode ser condenado por todos os pecados e todos os defeitos, mas tem a virtude de não se conformar a esse molde medíocre e despotencializador. Sua liderança manifesta-se como educativa e formadora de uma visão de mundo, como tributária de uma tradição e provedora de uma narrativa própria, em cuja trama a história brasileira ganha inteligibilidade. Pode ser condenado por anacrônico, autoritário e messiânico; afinal, esse é o custo do atrito entre a construção de uma persona inadequada ao modelo rígido da modernidade. Mas, para o bem e para o  mal, representa a resistência à lógica contemporânea do mercado político midiático. Certamente, é mais fraco que a força de gravidade de nosso admirável mundo novo, mas tem o mérito de ostentar a marca de um outro mundo possível, cujas versões provavelmente não se esgotam em suas atualizações pretéritas e em suas formulações primitivas e caricatas. Política como Bildung, como Paidea, à qual se restitui a dignidade da Nation Building. um tempo pós-nacional. Por que não? Com uma nova estética e uma outra ética, diversa da ditadura do mercado; quem sabe? 

Assim como a história, ainda em curso, do brizolismo, nos autoriza a imaginar revisões profundas do Brasil e da lógica política do liberalismo tardio, sem a ingenuidade de adesões nostálgicas ou do apoio a simplificações e reducionismos de todo o tipo, que poderiam conduzir ao irracionalismo rasteiro à paranóia mais barroca, o texto de João nos proporciona a oportunidade de uma reavaliação radical da forma de produção de conhecimento dominante na universidade brasileira, particularmente na pós-graduação. A leitura de seu livro demonstra a riqueza de que são capazes os híbridos discursivos, quando as transgressões disciplinares de que resultam encontram fundamento nas necessidades ditadas pelos desafios da análise e são praticadas com rigor. João combina recortes historiográficos, etnografia, reflexões teóricas derivadas da filosofia política clássica e moderna, discussões sobre teorias políticas contemporâneas, abordagens sociológicas e antropológicas, e alguns insights provenientes da teoria literária. A erudição do jovem pensador brasileiro, neste livro, não está a serviço da autovalorização vazia, da autopromoção no mercado de talentos, mas da compreensão mais ampla, mais nuançada, mais generosa porém crítica, de um objeto tão evasivo e complexo, multifacetado e multidimensional, quanto ainda vivo e ainda imprevisível, em seu trajeto histórico. 

Espero que os leitores tenham a mesma sensação gratificante de aprendizado e surpresa, de desconforto iluminador, de provocação desconcertante e de profunda empatia humana que eu tenho experimentado todas as vezes que releio este belo texto. Talvez um dos segredos desses efeitos estéticos e cognitivos esteja na mimesis interna, rigorosa mas despercebida, que o novelo dos argumentos realiza, compartilhando idêntico desconforto com a modernidade tardia e engatando sua forma narrativa à alma evanescente de seu objeto. 

Introdução

Farto de, ao confessar o tema de minha pesquisa, ser inquirido por amigos, colegas, parentes e vizinhos se pretendia escrever contra ou a favor do brizolismo, redefini o objeto de análise que, como de praxe, declaro nessa introdução: chamo de brizolismo os discursos acerca da figura de Brizola, o significado atribuído à sua liderança ao longo dos últimos anos, a forma como foi percebida por aqueles que são ou foram a favor dele e por aqueles que a ele se opuseram. Objeto inglório, posto que, a despeito dos recorrentes sepultamentos, Brizola permanece sendo uma referência importante e em plena atividade na política carioca e brasileira. 

Brizola iniciou-se na política ainda na década de 40, ocupando cargos eletivos em vários níveis do poder público. Foi prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul e duas vezes governador do Rio de Janeiro. Foi, também, duas vezes deputado estadual pelo Rio Grande do Sul e duas vezes deputado federal (uma pelo Rio Grande do Sul, e outra, pelo antigo estado da Guanabara) Teve a amarga experiência do exílio, que ciclicamente algumas gerações de políticos brasileiros foram obrigados a enfrentar. Foi um político, portanto, que atuou em "brasis" diferentes. Daí a dificuldade de se fazer um estudo partindo de toda a sua trajetória. Fiz uma escolha talvez um pouco arriscada, ao definir o recorte histórico privilegiado: tentei analisar o brizolismo a partir dos debates imediatamente anteriores a seu retorno do exílio até 15 minutos antes de concluir a presente introdução. Intuindo a existência de vários brizolismos possíveis, concentrei a pesquisa nos significados atribuídos à sua atuação no Rio de Janeiro. 

São muito comuns as percepções contraditórias acerca de Brizola e do que ele tem representado em sua atuação na esfera pública. É muito raro porém,  tais percepções não sejam marcadas por emoções e convicções fortes. Pode-se  dizer que há, quase sempre, uma boa dose de paixão, quando se trata de abordar o significado de Brizola na política brasileira. Isso vale tanto para os que são brizolistas, quanto para os antibrizolistas. Tal passionalidade tende a mascarar o fato de que nos debates em torno do que representam Brizola e o brizolismo está em jogo muito mais do que a disputa sobre uma personalidade polêmica e controvertida. Estão em questão imagens do Brasil, representações da ordem, fantasias do futuro. Ai está o que há de mais fascinante no brizolismo. O capitulo I é o esforço de definir o brizolismo dessa maneira. Na expectativa de tê-lo definido a contento e convincentemente, passo a destrinçar os fios que compõem essa rede de significações, o brizolismo. No capitulo II, dedico-me ao processo de criação da persona pública de Brizola, tentando descrever as formas como ela é articulada à tradição trabalhista e à composição de uma narrativa sobre o Brasil, a construção de sua história passada (a invenção de um passado glorioso) e o diagnóstico de seu presente. O sucedâneo necessário do diagnóstico é a formulação, ainda que não sistemática, de um projeto de futuro, tema abordado no capitulo III. No que chamo de projeto civilizador brizolista, símbolos, imagens e valores são fartamente utilizados. Mote central: o nacionalismo. O capitulo IV é dedicado às percepções da atuação política brizolista, aos princípios que a presidem e aos significados a ela atribuídos. Como nos primeiros capítulos lidos com fontes de dados diversas, atores políticos identificados com correntes díspares e, por vezes, contraditórias, optei por dedicar o capítulo V a um ator específico: o Movimento Popular da Brizolândia. Na pesquisa, a Brizolândia assume o papel de fonte da percepção popular do fenômeno do brizolismo. 

Que não se criem falsas expectativas. Este é um trabalho a respeito dos discursos sobre o brizolismo. Não se trata, portanto, nem da história de Brizola, nem da história do brizolismo. Não é, tampouco, um estudo sobre os governos de Brizola. Dado o caráter polêmico de sua imagem, optei por destacar o aspecto que me pareceu mais interessante de sua trajetória recente: as significações a ela atribuídas. Como já mencionei, estou convencido de que tais debates são extremamente elucidativos dos confrontos mais gerais travados na esfera pública brasileira, em geral, e carioca, em particular. Dilemas clássicos da política brasileira são postos em cena: moderno/arcaico, ordem/desordem, tradição/ruptura, elites/ massas. Tais dilemas são associados, de modos diferentes, à persona de Brizola, que funciona quase como um pretexto para o enfrentamento. No debate político, brizolismo e brizolista têm funcionado, preferencialmente, como adjetivos, evocados positiva ou pejorativamente. Da forma que serão abordados, brizolista é o nome do discurso de atores políticos que fazem da adesão a Brizola o princípio de identidade fundamental em sua inserção na esfera pública. Brizolismo é o nome do campo de embate de significações divergentes acerca da política brizolista. Ambos são, portanto, substantivos. O mesmo vale para antibrizolista. Peço desculpas antecipadas aos antibrizolistas por me ter deixado seduzir pelo objeto. Desculpo-me, também, com os brizolistas, por ter sido tão resistente às seduções (João Trajano Sento-Sé
).

     |Início| |Página de Apresentação|