Análise da socióloga Maria Victoria Benevides
Prefácio de Luiz Eduardo Soares
Leia também a introdução (do autor)
| Brizolismo João Trajano Sento-Sé 1999.368p. R$29,00 Fundação Getúlio Vargas |
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Fim de século: qual será o destino da sociedade
contemporânea e da política brasileira? Uma reflexão que João Trajano Sento-Sé
desenvolve no livro Brizolismo, co-edição da Espaço e Tempo e Editora FGV. O livro é
um convite ao debate. Com o objetivo de repensar os problemas do país e buscar
soluções, o autor descreve a saga brizolista, a trajetória política do líder gaúcho
e sua incansável candidatura à presidência da República. Analisa várias décadas até
a de 80, na qual o compromisso maior era a transformação do Brasil e não o sucesso
profissional. |
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João
Trajano Sento-Sé redescreve
a saga brizolista
(disponibilizado na rede em 01/12/99)
Luiz Eduardo
Soares
(Professor do
luperj e da Uerj, atualmente
sub-secretário
de Segurança do estado do Rio de Janeiro)
O livro de João
vai se tornar leitura obrigatória na academia, não tenho dúvida. Creio que também se
tornará leitura indispensável a todos que se interessam pelos destinos das sociedades
contemporâneas e, portanto, pela história do Brasil. Quando o Iuperj premiou a tese de
doutorado de João como a melhor de 1997, já havia, ali, naquele gesto
institucional, o reconhecimento desses méritos. Afinal, os que conhecem de perto o Iuperj
sabem que 1997 foi uma safra absolutamente excepcional, na quantidade 23 teses foram
defendidas, em ciência política, e na qualidade. A tese virou livro, sem
alterações significativas, porque o trabalho já estava bastante maduro.
Não me cabe, em
uma breve apresentação, introduzir os argumentos centrais do livro. Os leitores
encontrarão no autor um guia sereno, sofisticado, seguro e, ao mesmo tempo, atraente,
persuasivo e didático. Não será preciso, aqui, antecipar-lhe os passos. Meu papel deve
ser suplementar, aduzindo considerações que ultrapassem o âmbito de abrangência da
temática focalizada no livro, ajudando a contextualizá-lo e a demarcar a importância, e
a originalidade, de sua contribuição. Será necessário, então, olhar em volta e
darmo-nos conta da história em que estamos metidos. Não da história política, porque
dessa trata, e bem, o autor. Mas da história intelectual recente brasileira. De que
enredo somos protagonistas?
Durante muitas
décadas e até o início, pelo menos, dos anos 80, a ciências sociais foram, para
várias gerações, uma espécie de compromisso de vida de missão ético-política, cuja
finalidade última não era o sucesso profissional, culminância de uma carreira, mas a
transformação do Brasil. E esse horizonte típico-ideal marcou profundamente todas as
dimensões das trajetórias e obras dos intelectuais, por mais que nossos engenhosos
colegas, leitores de Bordieu ou fiéis à teoria liberal do mercado, procurem demonstrar
que era apenas a carreira que se escondia, solerte, e se realizava, sob as máscaras
honradas dos propósitos coletivos e sob os valores ideológicos dos projetos políticos.
Como em quase tudo na vida, diferentes pontos de vista são plausíveis, à imagem dos
exercícios gráficos de Escher, em que os labirintos das escadas ora recuam, ora
avançam, na direção do observador. Creio que este livro foi escrito de um ponto de
vista autoral, para cuja autoconstrução continuam relevantes os quadros de referência
do passado: ao intelectual compete repensar seu pais para inventar soluções e ajudar a
mudá-lo.
Brizola, apesar
de ainda ativo, na cena contemporânea, também foi um político do passado, de tempos
heróicos e proféticos, quando o carisma carregava as promessas messiânicas de
salvação nacional e, eventualmente, de redenção universal.
A tendência que
organiza a vida intelectual brasileira, nos últimos anos, tem sido a nova ordem
acadêmica, de inspiração norte-americana, cuja matriz é a especialização, a
institucionalização das disciplinas, a redefinição do universo de referências em
função das exigências da carreira e da lógica da profissionalização. Em síntese,
resultam desse processo muitas conquistas significativas, mas também algumas perdas.
Entre elas, destaca-se a perda do sentido ético-político, antes chave para a própria
identidade intelectual, como estilo de vida e vocação. A profissão substitui a
vocação, reificando os valores conferidos a seus instrumentos imediatos e naturalizando
os significados que derivam de sua experiência limitada, autocentrada e
reiterativa.
Quem ousaria,
nesse fim de século, criticar a modernidade? Para superá-la com insinuações
pós-modernas, vá lá... mas para valorizar o passado... não faria sentido Fechamos o
século XX, celebrando o diagnóstico de Max Weber: os processos de racionalização,
autonomização das esferas, diferenciação e especialização de fato se impuseram. E o
fizeram a um preço por vezes inferior ao que Weber antecipara, mergulhado nas sombras de
seu ceticismo. Houve efeitos de composição que terminaram por democratizar o processo
que Weber concebia tão perverso quanto inexorável. Por que a vida intelectual resistiria
à vaga modernizante? E por que não se beneficiaria dos efeitos paradoxais positivos,
como a democratização, entre outros? O que haveria de intrinsecamente errado com a
tendência que, finalmente, hoje, impera no Brasil?
Todo cuidado é
pouco, em matéria assim complexa e rica em nuances.
Uma palavra a mais ou a menos e corre-se o risco de soar passadista, retrógrado,
reacionário, nostálgico, idealista e até mesmo elitista. Bem-vinda a modernização. Saudêmo-la,
todos. Até mesmo porque inevitável, celebremos seu advento e nos preparemos para
torná-la o mais positiva possível, reduzindo-lhe as implicações negativas. Excelente.
Ponhamo-nos de acordo quanto a esse ponto. Aceitemos a celebração, mas guardemos uma
pitada acre de ceticismo, para que não percamos nosso ânimo crítico. Pitada amarga de
dúvida e hesitação, autorizada pelo próprio reconhecimento weberiano de que
modernidade traz consigo também implicações negativas. Retomemos, nesse ponto, a
conclusão do parágrafo anterior: de que aspecto negativo falamos, afinal, já que parece
mesmo legítimo identificá-lo?
Falamos da
reificação que fetichiza as disciplinas e sua estrutura organizacional; da
fetichização que concorre para a naturalização do engajamento dos cientistas sociais
na ordem que outrora fora objeto da crítica de nossos melhores antecessores.
Recorrendo a conceitos ultrapassados, poder-se-ia sugerir a seguinte formulação: apesar
dos avanços que proporciona, nos planos da produção do conhecimento de sua difusão
social e de sua aplicação generalizada, a tendência modernizadora, que transforma a
vida intelectual em uma profissão como outra qualquer, traz consigo a imposição de uma
ideologia, cuja assimilação corresponde ao sacríficio da dimensão ético-política,
entendida como compromisso com valores e projetos superiores e independentes da profissão
e de sua lógica, essencialmente radicadas no mercado. Em outras palavras, por mais
satisfatórios que sejam os resultados, não nos esqueçamos que nossas disciplinas, suas
condições organizacionais e seus efeitos identitários, poderiam ser descritas como ideologias, se aceitássemos, por um momento,
vocabulários pretéritos, mas ainda, por vezes, úteis.
Assim como a
defesa unilateral e sectária do intelectual do passado seja chamado intelectual
orgânico, seja o tradicional, nos termos gramscianos - poderia degradar-se em mera peça
de retórica conservadora ou nostálgica, o elogio acrítico da tendência hoje em curso
poderia também reduzir-se a simples legitimação de um status quo empobrecedor e, às vezes,
autoritário, excludente e tirânico, que contém, cada vez mais, e paradoxalmente,
elementos de irracionalismo e de barbárie, sob a forma de idolatrias fetichistas diversas
(como a metodolatria neopositivista tão sedutora e fashionable).
O livro de João
incorpora, tacitamente, sua voz, com dicção própria e resoluta originalidade, ao debate
contemporâneo sobre os destinos dos intelectuais, no mesmo movimento em que se abre, com
rara generosidade e grandeza, para a singularidade do percurso de Brizola e do brizolismo,
cujos embaraços com a modernidade são análogos aos vividos pelos intelectuais
críticos, em seu próprio campo de autoconstituição identitária.
A relação de
proximidade e distância de João-autor com os procedimentos e linguagens das ciências sociais
profissionalizadas parece mimetizar, inconscientemente, as circunvoluções de seu objeto.
Ele conhece e domina os recursos conceituais
das disciplinas em que se apóia, mas recusa sacrificar sua posição sujeito-autor para
fazer falar a ciência: disciplina. Jamais veremos a teoria ou o método operando, como
que se reproduzindo por automatismo inercial. Há sempre a mediação do autor. E isso,
longe de traduzir narcisismo, expressa a natureza eminentemente reflexiva da linguagem que
João cria e em que é criado, como personagem-narrador, isto é, ponto de vista. Em o
fazendo, afirma sua sincera humildade epistemológica, porque desnuda o caráter
inexoravelmente relativo e contextual das interpretações e de suas motivações.
Brizola, por sua
vez, e seu campo de reverberação semântica, positiva
e negativa, o brizolismo,'se acomodam com dificuldade à lógica do mercado político, em
sua versão liberal fin-de-siècle. É verdade que Brizola sempre foi um
homem de comunicação, por assim dizer, e não teve problemas em passar do rádio para a TV. O líder
gaúcho-fluminense sempre foi bom de palanque e de televisão. Todavia, isso não basta
para fazê-lo um homem de comunicação ou de mídia, no sentido contemporâneo. No quadro
do mercado político liberal, a mídia é o
espaço de adequação progressiva à gravitação imposta pelo centro e exige uma enorme
agilidade e competência específica, seja na resposta-incorporação das pautas
conjunturais, seja na produção antecipada de pautas, que invertam dinâmicas e focos, em
beneficio dos que passam a dominar a agenda, introduzindo temas que lhes interessem,
capazes de propiciar coalizões momentaneamente convenientes. Brizola tem sido, ao longo
de sua trajetória, infenso a pautas alheias e à automodelagem ditada pelas
conveniências da oportunidade. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que Brizola foi
gradualmente alijado da competição política, na medida em que não cedeu à força de
gravitação determinada pelo centro. Gravitação inevitável, porque resultante das
lógicas do mercado eleitoral e da mídia.
O poder da
mídia está, sobretudo, em sua capacidade de introduzir temas na agenda pública e
focalizá-los, contribuindo intensamente para o estabelecimento da hierarquia que
identifica prioridades. E isso é decisivo, já que o resultado dos embates políticos
depende da capacidade que cada ator demonstra de somar forças e ampliar alianças, em
cada momento, em face de cada disputa específica. Tal capacidade, por sua vez, não é
atributo intrínseco ao ator, mas função do tema posto em disputa e dos posicionamentos
respectivos, em relação ao tema em causa. Conseqüentemente, vence quem pauta, quem
domina a confecção da agenda, quem seleciona os objetos da disputa, uma vez que essa
seleção implica a escolha de aliados potenciais e inimigos virtuais. A complexidade
desse jogo, que não se reduz à mídia, mas nela encontra sua arena estratégica, tende a
refletir o predomínio inexorável do centro ideológico, como eixo fundamental de
gravitação política, se denominarmos centro o instável e tenso equilíbrio do mercado
de opiniões. Em outras palavras, a virtude política contemporânea, isto é, a aptidão
para o êxito, corresponde à capacidade de sintonizar-se com a tendência predominante na
sensibilidade pública, que privilegia posições moderadamente conservadoras. O senso de
oportunidade outrora estigmatizado no jargão político, emerge como qualidade
exponencial. O político moderno é um empreendedor orientado para uma carreira individual
que se credencia ao sucesso na medida em que maximizar vantagens, sustentando posições e
atuando sobre o imaginário coletivo de forma a contemplar as expectativas dominantes, em
cada contexto. O mercado como conteúdo e como forma. O oportunismo sem nenhum caráter
como expressão perfomática de uma espécie de estética fetichista do êxito a qualquer
preço. Ora, Brizola pode ser condenado por todos os pecados e todos os defeitos, mas tem
a virtude de não se conformar a esse molde medíocre e despotencializador. Sua liderança
manifesta-se como educativa e formadora de uma visão de mundo, como tributária de uma
tradição e provedora de uma narrativa própria, em cuja trama a história brasileira
ganha inteligibilidade. Pode ser condenado por anacrônico, autoritário e messiânico;
afinal, esse é o custo do atrito entre a construção de uma persona inadequada ao modelo rígido da
modernidade. Mas, para o bem e para o
mal, representa a resistência à lógica contemporânea do mercado político
midiático. Certamente, é mais fraco que a força de gravidade de nosso admirável mundo
novo, mas tem o mérito de ostentar a marca de um outro mundo possível, cujas versões
provavelmente não se esgotam em suas atualizações pretéritas e em suas formulações
primitivas e caricatas. Política como Bildung, como
Paidea, à qual se restitui a dignidade da Nation Building. um tempo pós-nacional. Por que
não? Com uma nova estética e uma outra ética, diversa da ditadura do mercado; quem
sabe?
Assim como a
história, ainda em curso, do brizolismo, nos autoriza a imaginar revisões profundas do
Brasil e da lógica política do liberalismo tardio, sem a ingenuidade de adesões
nostálgicas ou do apoio a simplificações e reducionismos de todo o tipo, que poderiam
conduzir ao irracionalismo rasteiro à paranóia mais barroca, o texto de João nos
proporciona a oportunidade de uma reavaliação radical da forma de produção de
conhecimento dominante na universidade brasileira, particularmente na pós-graduação. A
leitura de seu livro demonstra a riqueza de que são capazes os híbridos discursivos,
quando as transgressões disciplinares de que resultam encontram fundamento nas
necessidades ditadas pelos desafios da análise e são praticadas com rigor. João combina
recortes historiográficos, etnografia, reflexões teóricas derivadas da filosofia
política clássica e moderna, discussões sobre teorias políticas contemporâneas,
abordagens sociológicas e antropológicas, e alguns insights provenientes da teoria literária. A
erudição do jovem pensador brasileiro, neste livro, não está a serviço da
autovalorização vazia, da autopromoção no mercado de talentos, mas da compreensão
mais ampla, mais nuançada, mais generosa porém crítica, de um objeto tão evasivo e
complexo, multifacetado e multidimensional, quanto ainda vivo e ainda imprevisível, em
seu trajeto histórico.
Espero que os
leitores tenham a mesma sensação gratificante de aprendizado e surpresa, de desconforto
iluminador, de provocação desconcertante e de profunda empatia humana que eu tenho
experimentado todas as vezes que releio este
belo texto. Talvez um dos segredos desses efeitos estéticos e cognitivos esteja na mimesis interna, rigorosa mas despercebida, que o
novelo dos argumentos realiza, compartilhando idêntico desconforto com a modernidade
tardia e engatando sua forma narrativa à alma evanescente de seu objeto.
Farto de, ao
confessar o tema de minha pesquisa, ser inquirido por amigos, colegas, parentes e vizinhos
se pretendia escrever contra ou a favor do brizolismo, redefini o objeto de análise que,
como de praxe, declaro nessa introdução: chamo de brizolismo os discursos acerca da
figura de Brizola, o significado atribuído à sua liderança ao longo dos últimos anos,
a forma como foi percebida por aqueles que são ou foram a favor dele e por aqueles que a
ele se opuseram. Objeto inglório, posto que, a despeito dos recorrentes sepultamentos,
Brizola permanece sendo uma referência importante e em plena atividade na política
carioca e brasileira.
Brizola
iniciou-se na política ainda na década de 40, ocupando cargos eletivos em vários
níveis do poder público. Foi prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul e
duas vezes governador do Rio de Janeiro. Foi, também, duas vezes deputado estadual pelo
Rio Grande do Sul e duas vezes deputado federal (uma pelo Rio Grande do Sul, e outra, pelo
antigo estado da Guanabara) Teve a amarga experiência do exílio, que ciclicamente
algumas gerações de políticos brasileiros foram obrigados a enfrentar. Foi um
político, portanto, que atuou em "brasis" diferentes. Daí a dificuldade de se
fazer um estudo partindo de toda a sua trajetória. Fiz uma escolha talvez um pouco
arriscada, ao definir o recorte histórico privilegiado: tentei analisar o brizolismo a
partir dos debates imediatamente anteriores a seu retorno do exílio até 15 minutos antes
de concluir a presente introdução. Intuindo a existência de vários brizolismos
possíveis, concentrei a pesquisa nos significados atribuídos à sua atuação no Rio de
Janeiro.
São
muito comuns as percepções contraditórias acerca de Brizola e do que ele tem
representado em sua atuação na esfera pública. É muito raro porém, tais
percepções não sejam marcadas por emoções e convicções fortes. Pode-se
dizer que há, quase sempre, uma boa dose de paixão, quando se trata de abordar o
significado de Brizola na política brasileira. Isso vale tanto para os que são
brizolistas, quanto para os antibrizolistas. Tal passionalidade tende a mascarar o fato de
que nos debates em torno do que representam Brizola e o brizolismo está em jogo muito
mais do que a disputa sobre uma personalidade polêmica e controvertida. Estão em
questão imagens do Brasil, representações da ordem, fantasias do futuro. Ai está o que
há de mais fascinante no brizolismo. O capitulo I é o esforço de definir o brizolismo
dessa maneira. Na expectativa de tê-lo definido a contento e convincentemente, passo a
destrinçar os fios que compõem essa rede de significações, o brizolismo. No capitulo
II, dedico-me ao processo de criação da persona pública
de Brizola, tentando descrever as formas como ela é articulada à tradição trabalhista
e à composição de uma narrativa sobre o Brasil, a construção de sua história passada
(a invenção de um passado glorioso) e o diagnóstico de seu presente. O sucedâneo
necessário do diagnóstico é a formulação, ainda que não sistemática, de um projeto
de futuro, tema abordado no capitulo III. No que chamo de projeto civilizador brizolista,
símbolos, imagens e valores são fartamente utilizados. Mote central: o nacionalismo. O
capitulo IV é dedicado às percepções da atuação política brizolista, aos
princípios que a presidem e aos significados a ela atribuídos. Como nos primeiros
capítulos lidos com fontes de dados diversas, atores políticos identificados com
correntes díspares e, por vezes, contraditórias, optei por dedicar o capítulo V a um
ator específico: o Movimento Popular da Brizolândia. Na pesquisa, a Brizolândia assume
o papel de fonte da percepção popular do fenômeno do brizolismo.
Que não se
criem falsas expectativas. Este é um trabalho a respeito dos discursos sobre o
brizolismo. Não se trata, portanto, nem da história de Brizola, nem da história do
brizolismo. Não é, tampouco, um estudo sobre os governos de Brizola. Dado o caráter
polêmico de sua imagem, optei por destacar o aspecto que me pareceu mais interessante de
sua trajetória recente: as significações a ela atribuídas. Como já mencionei, estou
convencido de que tais debates são extremamente elucidativos dos confrontos mais gerais
travados na esfera pública brasileira, em geral, e carioca, em particular. Dilemas
clássicos da política brasileira são postos em cena: moderno/arcaico, ordem/desordem,
tradição/ruptura, elites/ massas. Tais dilemas são associados, de modos diferentes, à persona de Brizola, que funciona quase como um
pretexto para o enfrentamento. No debate político, brizolismo e brizolista têm
funcionado, preferencialmente, como adjetivos, evocados positiva ou pejorativamente. Da
forma que serão abordados, brizolista é o
nome do discurso de atores políticos que fazem da adesão a Brizola o princípio de
identidade fundamental em sua inserção na esfera pública. Brizolismo é o nome do campo
de embate de significações divergentes acerca da política brizolista. Ambos são,
portanto, substantivos. O mesmo vale para antibrizolista. Peço desculpas antecipadas aos
antibrizolistas por me ter deixado seduzir pelo objeto. Desculpo-me, também, com os
brizolistas, por ter sido tão resistente às seduções (João Trajano Sento-Sé
).