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Por que FHC deve renunciar

(29.05.01) - O presidente do PDT, Leonel Brizola, voltou a defender a renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso: "O presidente deveria pensar seriamente em tomar uma atitude parecida com a de Arruda e de Antonio Carlos, renunciar", pregou o líder pedetista. "Ele violou a confiabilidade, a boa-fé do povo brasileiro com o descaso, quase desleixo criminoso sobre esse assunto", acusou. No dia 12 de março de 99, numa conversa informal com jornalistas no Raphael Plaza Hotel de Porto Alegre, Brizola explicou em detalhes as razões que o levaram a desencadear o movimento nacional pela renúncia do presidente. Nesta entrevista, Brizola preocupou-se em fazer uma radiografia dos governos civis, desde 85, e mostrar como eles, sempre voltados para proteger interesses das elites, marginalizaram o povo, dilapidaram o país e agora querem acabar com o que resta de aparato do Estado. Como a entrevista é longa, resolvemos separá-la por itens. Clique no que mais lhe interessar: 

  1. O verdadeiro enfoque da questão
  2. Ato de grandeza
  3. FHC esgotou-se
  4. Sou insuspeito
  5. Uma bandeira oportuna
  6. Desde o Plano Cruzado
  7. O Plano Real
  8. Dentro da Constituição
  9. Utopia?
  10. Banco do Brasil, Petrobrás, Caixa...
  11. O PT precipitou-se
  12. Relação com o PT

  13. O verdadeiro enfoque da questão
    Brizola - O jornalismo é uma atividade que exige uma dinâmica especial porque vocês (jornalistas) todos os dias têm que se apresentar com o jornal novinho, pão quente e isso é muito trabalho. Então eu, com essa preocupação, gostaria de dizer duas palavras também em função do que o noticiário tem focalizado. Essa questão que estamos levantando neste momento, esta pregação, este apelo, este chamamento por uma renúncia do atual Presidente, não tem, de nenhuma forma, conteúdo ou sentido golpista. Foram muitos os editoriais que fizeram pelo país afora, falando de ranço golpista, outra preocupação golpista, enfim, atribuindo uma intenção golpista. Quero começar por isto, para dizer que rigorosamente se constitui num equívoco esta colocação e se com isso pretendem se contrapor a esta bandeira, a esta nossa proposta, não vão conseguir nada, porque se trata, no fundo de um sofisma, de um desvio, de uma fuga do verdadeiro enfoque que este assunto está procurando fazer. 

    Ora, eu não tenho nenhuma tradição de golpismo. Ao contrário, me honro de estar na história brasileira entre os que defenderam a Legalidade democrática de arma na mão. Segundo, nunca ocupei cargo, função nenhuma, a não ser eleito pela população. Quando fui secretário de Obras Públicas, levava comigo a bagagem de ser o deputado mais votado, naquelas eleições do estado, deputado federal. E assim tem sido a minha vida. Além do mais, que poder poderia ter eu para estar fazendo proposta golpista? Nem poder econômico, nem poder real, nenhum elemento de barganha. Ao contrário, eu poderia dizer que estou numa campanha anti-golpista, porque este Governo usou e abusou de processos discricionários, como é o caso, por exemplo, da exploração de medidas provisórias, de decretos leis, e do sentido discricionário com que impôs a política econômica. 

    Então, não há como se pretender acusar essa campanha de golpista, por nenhum motivo e há ainda a circunstância de que estamos pelos caminhos pacíficos, democráticos. Quando se invoca que não está previsto na Constituição, o eleitorado vota, elege, depois cassa. Não, nós queremos nos manifestar, não temos força para impor nada, queremos nos manifestar, como fizeram tantas vezes muitos povos pelo mundo e como nós próprios. Vocês recordam, como a história registra, o nascimento de nosso país? A rigor nosso país nasceu de uma renúncia com aquela grande e bela figura de D. Pedro I, que fez a independência do pais, assumiu aquela atitude corajosa e foi, sob o ponto de vista da brasilidade um patriota, um benfeitor, fundador do nosso país. Pouco tempo depois, em função das dificuldades teve que reconhecer que não era mais útil, que sua presença estaria criando problemas e teve a coragem de renunciar. 

    Ato de grandeza

    Isto significa que a renúncia muitas vezes, para um governante, não é uma humilhação. Ao contrário, se constitui num ato de grandeza, excepcional e são muito poucos os que chegam a essa compreensão em matéria de prestação de serviço. É o que nós estamos fazendo, argumentando que o atual Presidente se encontra numa situação muito difícil, tanto que as pesquisas estão registrando cerca de 65% de rejeição a ele, como média nacional em algumas áreas, onde a rejeição é maior. Cumpriu o mandato com tudo na mão, maioria no Congresso, até relativamente com grande apoio internacional, começou seu abandeirado da modernidade, de uma visão econômica espetacular e chegamos a essa triste conclusão. Foi um fracasso, ele fracassou, rotundamente. E há um agravante, ele forçou a reeleição, constrangeu o povo brasileiro para continuar, para reeleger-se e escondeu a crise, não debateu, mesmo num diálogo perante os meios de comunicação com o operário, o trabalhador, como era o caso do Lula. Quer dizer, escondeu a crise, tanto escondeu que, eleito, com todas as fanfarras, em 60 dias, a situação rebentou, caindo tudo como um castelo de cartas, nunca se viu isso na história brasileira. Eu tenho assistido muitos processos de desvalorização, mas nunca assim. Foi uma derrocada. O real não debilitou-se, o real não caiu apenas em crise, não. Ele simplesmente desmontou-se, ruiu. Então há essa responsabilidade. Mas o que há de maior, o que nos assiste com maior razão e o que a mim mais importa, - eu que não estou buscando nada para mim, estou procurando prestar um serviço, estou reunindo meus pensamentos conclusivos, - é que eu analiso a situação como muitos já estão fazendo e verifico que o Presidente não tem mais condições de tirar o país da crise. O FHC gastou-se, ele com tudo o que ocorreu, encerrou o seu papel. E a tragédia é que, com essas manobras, estamos diante de um Governo, de um Presidente que chegou ao fim no começo do mandato. 

    FHC esgotou-se

    Quer dizer, esta situação insólita, surrealista, de um Presidente que gastou-se, desacreditou-se interna e externamente, internacionalmente, porque o secretário do tesouro dos EUA disse que o maior problema do Sr. Fernando Henrique é recuperar a credibilidade. É duro ouvir isto, quietinho. Então, o grave é isto: ele não tem mais condições, no meu modo de ver. Eu me proponho a demonstrar isto como quem demonstra um teorema, em linguagem de engenheiro. Bem, mas isto acontece, como aconteceu com D. Pedro I (em 1831), com o Presidente Vargas, em 1945. Ele esteve diante da impossibilidade de continuar e o governante que ama o seu povo, o seu país, caminha para a renúncia. Isto não é uma atitude humilhante, é honrosa, ele revela muita coragem. Para um governante patriota, a renúncia é um processo inteiramente acolhido pelas boas práticas democráticas, evita o conflito, evita o derramamento de sangue, evita o conflito entre irmãos, evita o agravamento do sofrimento da população, das dificuldades do país. 

    Vêm outros e dizem assim: "Mas renuncia Fernando Henrique..." -como, por exemplo, sei que dirigentes do PT sustentam esse ponto de vista do meu modo de ver equivocadamente -, "não seria entregar isso ao ACM, espécie de protótipo, símbolo do conservadorismo oligárquico?" Eu não reconheço nenhuma procedência, soa como um falso argumento, porque, primeiro, eu não tenho elementos para dizer que o Sr. Marco Maciel (o atual Vice-Presidente) seja um simples áulico, uma sombra do senador ACM. Não tem sido assim, eles até pertenciam a áreas diferentes na política governamental, de hoje e de ontem, quando da ditadura, áreas políticas diferentes. 

    Sou insuspeito

    Em segundo lugar, eu sou insuspeito para dizer porque não tenho nada com o Sr. Marco Maciel, eu o conheço assim ligeiramente, mas não conheço nada que o desabone, que tenha sido desonesto, que tenha sido um homem que se tenha comprometido com atividades repressivas, contrário aos direitos humanos. Eu o tenho como um homem educado que se vem colocando, sempre numa situação modesta nos momentos difíceis. Agora, a verdade é que não se trata da pessoa do Sr. Marco Maciel, trata-se de funcionar um mecanismo constitucional, trata-se do Vice-Presidente constitucional. Ele é ou não é o Vice-Presidente constitucional? É. Mas se ele é o Vice-Presidente constitucional, por que não admitirmos que ele deva assumir a presidência? Nós fomos coerentes a partir do momento que defendemos a posse do Vice-Presidente João Goulart. Então esse é um mecanismo constitucional, temos que fazê-lo funcionar. 

    "Mas ele está lá, a mesma política vai continuar", alguns dizem. Claro, se toda a renúncia e a sua substituição for o produto de um conchavo, de um cambalacho, então é possível que sim. Mas não, estamos apelando para a opinião pública, nós queremos que o povo brasileiro tome consciência, vá para as ruas, e venha exigir publicamente a renúncia a partir de manifestações como esta e as pesquisas estão prenunciando; francamente, eu acho que pode ir quem for para lá, mas jamais poderá contrariar esta tendência, pretender que o Governo continue essa política econômica. É a mesma coisa que depois das diretas-já o Presidente impor uma ditadura, uma coisa impossível, uma ditadura militar. 

    Uma bandeira oportuna

    Então nós estamos conscientes de que isto se constitui numa bandeira oportuna e que todos aqueles que se engajarem neste movimento pela renúncia estarão prestando um serviço. E aos que se opõem a nós, perguntamos, qual a alternativa? Quem sabe surge uma alternativa, que até nos faça retirar deste movimento, que vamos apoiar esta alternativa. Não tem. A alternativa é ele continuar. E qual é o futuro do Brasil com a continuidade deste homem? Ele não se revelou competente, não se revelou um homem com pulso firme para governar a nação. Eu acho que ele foi um blefe, não sei se vocês estarão de acordo comigo, um grande professor, mas no fundo, como Presidente, ele foi um blefe. Vocês ouviram, falei a palavra blefe. Eu só gostaria de fazer estas declarações, já deixo este assunto claro, queria me estender para mostrar a vocês que não estou numa tirada demagógica nem oportunista - compreenderam? -, como diz lá o seu Gustavo Franco naquele interminável canto de cisne dele, que foi lá naquela atitude insólita para a posse do novo Presidente do Banco Central. Até não era ele o Presidente, era outro que deveria passar o cargo, mas ele faz aquele discurso e me reservou lá alguns momentos, entre os quais diz que eu tenho sido em relação à política econômica um oportunista. Mas por que oportunista? 

    Desde o Plano Cruzado

    Eu, quando me insurgi e denunciei o Plano Cruzado, eu era governador do Rio de Janeiro, eu estive presente na reunião do Presidente Sarney com os ministros e os governadores todos, eu vi por dentro o nascedouro do plano e saí dali convencido de que não se tratava de outra coisa a não ser de uma impostura. Poucos me acreditaram, outros disseram quem sabe, o que vamos fazer, e acabou virando o que todos sabemos. Então não é oportunismo, eu disse porque eu considerava uma impostura, eu até invoquei o próprio episódio daquela reunião, eu perguntei ao Sarney: Presidente, o senhor há 30 dias fez o reajustamento do leite para compensar os produtores que estão trabalhando com prejuízo num regime inflacionário como este, eles estão esmagados. Ele ficou sério, tocou no bigodão e olhou para o falecido Funaro, que era o ministro, e o Funaro disse, não, nós não vamos manter, porque senão não teremos inflação zero. Mas eu disse: "Presidente, inflação zero a custo dos produtores de leite, eles vão soltar as vacas". Então vejam, um argumento prático, simples, até ingênuo no meio daquelas feras. Eu olhei para o governador de Minas, ele recém tinha chegado, bem penteado, assim, parecia um cantor de tango, recém tinha levantado, lustroso, não piou. Vocês sabem que é importante o leite para Minas Gerais. No ministro Brossard, não encontrei muita acolhida. Disse: "Mas eles vão soltar as vacas, Presidente, eles vão ficar só com as vacas que eles têm, eles não podem sustentar essa situação". Sabem o que o Funaro disse? As preocupações do governador, Sr. Presidente, não têm maior peso neste conjunto porque nós já temos preparada toda a importação de leite em pó até da Nova Zelândia". Digo, mas o senhor acho que isso é solução, ministro? A nossa preocupação com a inflação zero é tão grande que neste momento é. Nós vamos destruir a nossa produção láctea, leiteira, em vez de incrementá-la para esses resultados financeiros e eu duvido que se mantenha, porque é artificial. Quer dizer, por esse pequeno detalhe, ficou claro que aquilo ali era uma impostura, um arranjo, não poderia se manter. 

    O Plano Real

    Quando veio o Plano Real eu também fiz minhas observações, este pode durar um pouco mais porque eles prepararam aquilo que o Presidente Menem me disse, na posse, quando ele tomou posse, e ele me disse: "Ah, Brizola, o erro do Sarney, foi não ter reservas, ele tinha que acumular reservas, nem que fossem emprestadas". E como ele, Fernando Henrique como ministro acumulou reservas fazendo juros, vocês lembram que o país não tinha nem orçamento, quer dizer, fizeram manobras para manter as reservas, para isto, para manter os pagamentos e o país ia se encalacrando. 

    Então durou mais, é o mesmo que agora. Quem não vê que essas soluções são soluções de instituições encalacradas, que estão caminhando para crise muito mais grave. É como uma grande empresa que já está entrando em dificuldades, está tomando dinheiro emprestado e se submetendo a exigências. Esses acordos com o Fundo são deprimentes porque são a base de exigências, estão impondo ao Brasil a venda do nosso patrimônio, venda é modo de dizer, é leiloagem, a queima do nosso patrimônio. Querem o Banco do Brasil, querem que venda a Caixa Econômica, entregar a particulares os correios e telégrafos e a Petrobrás, que são as jóias da coroa. Quer dizer, como é que este país pode estar indo bem se está desmantelando seu patrimônio, e o endividamento aumenta cada vez mais, e o empobrecimento, os índices sociais se agravam no Brasil? Agora ele foi para cima de uma colheitadeira e disse que a âncora agora é verde, a agricultura. Pobre da agricultura, vai ancorar a continuidade do desastre. É uma ameaça não é uma esperança. De modo que nós argumentamos exaustivamente, quem tiver uma alternativa, olha, se vocês tiverem alguma alternativa como jornalistas, se encontrarem lá pelas redações ou pelos economistas ou políticos, que naturalmente vão até zombar de nossas posições, eu gostaria que vocês pudessem afirmar, olhem, ele está pedindo uma alternativa, porque a da continuidade deste homem é um desastre. Vamos ter mais desemprego, mais quebradeira, nosso país vai se afundar ainda mais, não é por pessimismo nem por oposição, é invocando os fatos que estão aí. 

    Dentro da Constituição

    Então é importante para o Brasil que surgisse uma nova situação aqui, dentro da Constituição, um novo Governo, que pudesse representar uma esperança, novos termos de diálogo lá fora e aqui também, com as forças internas do país. Eu acalento a esperança de que venha um novo Governo e faça um Governo de concentração nacional, juntando todas as forças até regularizarmos, pelo menos razoavelmente, a nossa situação. 

    P – Renuncia e faz nova eleição?

    Brizola – Pela Constituição não. Isso se trata de especulação, agora pior é a situação concreta que está aí. A Constituição previa anteriormente que o Presidente, no caso de vacãncia da presidência, se estivesse na primeira metade do mandato, novas eleições; no segundo continuaria o Vice-Presidente até o fim. Mas agora isso foi retirado da Constituição já nas últimas modificações. O Vice-Presidente assume e vai até o fim. Se eu tivesse apoio, o Fernando Henrique já estaria na Sorbonne. E os meios políticos não irão apoiar facilmente esta tese, eles estão na rosca das vantagens do poder, só quem não está é o povo brasileiro. Então eu vou apelar para o povo brasileiro, levá-los a manifestações públicas com outras correntes da oposição, levá-los às praças públicas, para as ruas e desfraldar esta bandeira contando com a pressão, com movimentos da população. Recém estamos começando a debater, agora estou pedindo uma reunião da Frente para tratar do assunto, da Frente de Oposições. Esta é uma questão para os partidos e para as instituições que possam assumi-la, não é o caso dos governadores, por exemplo. Alguém me perguntou, mas o governador Olívio é contra, o próprio PT reuniu o Diretório apressadamente e tomou uma posição contrária a esta tese, eu creio que mais para impedir que o doutor Tarso Genro continuasse na sua pregação em torno dessa bandeira. 

    O PT precipitou-se

    Considero que o PT precipitou-se e incorreu em equívoco e espero que consigamos, considero que devemos cultivar esperanças que o PT venha reconsiderar, nós vamos pedir uma reconsideração dessa decisão. Agora os governadores não, não teria cabimento, os governadores precisam de relações administrativas com o Governo federal, é melhor que deixem este assunto para os partidos. O governador Itamar Franco tem uma situação particular, especial, neste momento. Tanto que todos os demais governadores, como é o caso do governador Olívio, Garotinho, tem que desenvolver relações, têm que governar seus Estados. 

    Eu acho que a Carta de Porto Alegre foi uma precipitação, quem podia firmar aquela Carta era o governador Itamar Franco, os demais o fizeram e se precipitaram em tomar aquela atitude, tanto que não pôde ser sustentada. O único que ficou naquela carta foi o governador Itamar, os governadores não ficaram bem. Ele tem uma situação especial, foi Presidente, é o pai da candidatura de Fernando Henrique, ele tem um papel, um grande potencial político neste momento. Então as suas reclamatórias têm uma dimensão muito grande, ele está questionando, junto com as suas reclamações, o próprio modelo econômico e político, não é uma situação especial, e vem se caracterizando com grande independência. Eu nunca conversei com ele, estivemos juntos no RJ, naquele ato da Assembléia Legsilativa, ele ouviu atentamente, mas não falamos sobre o assunto. A impressão que eu tenho é que esta nossa tese ela transcende um pouco aos objetivos que o governador Itamar está buscando, que é o de argumentar com a má política, com os atos insanos do atual Presidente em relação aos governadores, aos Estados e a federação. Mas são caminhos que não são divergentes. 

    Utopia?

    P – Como mobilizar a população, não é utópica essa idéia?

    Brizola – Não vamos fazer nada diferente do que vocês podem imaginar. Vamos trabalhar intensamente através da Internet. Já tem um slogan , os mineiros estão dizendo, "FHC renúncia pr’ocê". Lá no Rio de Janeiro se diz, "FH renúncia já". O Rio Grande do Sul é um estado muito massacrado, recém Deus nosso senhor nos enseja uma boa safra, que não deve nada ao Governo Fernando Henrique, ao contrário, vencendo as dificuldades geradas por esse Governo, porque a desvalorização do Real, que veio indiretamente romper um equilíbrio pernicioso contra a economia do Rio Grande, imposta através das concessões do Mercosul, que é uma causa que sempre mereceu de nós todo o apoio mas nunca essas concessões levianas, indevidas, feitas através de almofadinhas do Itamarati, que de agricultura devem conhecer o que comem nos restaurantes. 

    Sem a participação dos produtores, o RS pagou o pato, a economia local perdeu muito com essas precipitações do Mercosul e como coisas feitas assim, sem o necessário debate, sem levar em conta a realidade, acabam num desastre. Agora vamos tratar de recuperar nossos prejuízos, gaúcho é teimoso. Agora Deus nos ensejou esta safra, já está começando com o arroz, assim foi com a soja, o milho sofreu mas a turma teimosa replantou e por sorte o milho do tarde vai ser do bom. Vou conversar com o governador Arraes no sábado, vou almoçar com ele. É natural que esta questão que nós vamos debater, mas eu também não estou esperando que todos tenham o mesmo nível de discussão que eu, neste momento, mas dentro do PT eu tenho encontrado um grande acolhimento para esta tese. Creio que devemos esperar uma evolução dentro do PT, tanto que vamos pedir reconsideração, queremos participar desse debate, queremos que nos honrem convidando-nos para esse debate. 

    Se espero apoio de Arraes, preferiria não me manifestar, porque cada um sabe onde aperta o sapato, mas acho que ele não deixará de ficar ao lado de todos os que defendem o patrimônio público, especialmente o Banco do Brasil, enfim, estas entidades que estão à venda, já estão nas mãos dos auditores estrangeiros. 

    Banco do Brasil, Petrobrás, Caixa

    Quero dizer aqui, uma mensagem para todos os funcionários do BB, CEF e Correiros e Petrobrás. Contem como certo, neste momento eles estão tramando entre quatro paredes o desmantelamento destas instituições. As auditorias já estão trabalhando, estrangeiras, e vão entregar para os grupos internacionais, porque grupo nacional não pode comprar. Vocês viram o que foi o leilão das teles. Aqui, no rio Grande, a RBS, que é o grupo mais próspero, entrou no assunto e teve que entregar a rapadura. Entraram os grupos estrangeiros e compraram e tudo isso é para vender aos grupos estrangeiros.Fernando Henrique é incompetente e acha que só pode arrumar as contas vendendo. 

    P – Tendência de agravamento da crise...

    Brizola – Não há quem não preveja o agravamento da crise. Então porque continuar? Mas não, ele é o grande piloto para tomar conta do barco nesta travessia perigosa. A realidade comprova que não é. Ele é um governante fraco, pusilânime. Marco Maciel é o Vice-Presidente constitucional. Isso traz consigo muita força na hora de um movimento popular, nós precisamos de um movimento popular, o povo brasileiro precisa se mostrar neste momento da crise. Isso é o que vai garantir quem é o depositário da soberania nacional, o dono do patrimônio nacional que eles querem dilapidar e vender, quem é o depositário da perenidade da nação é o povo e mais ninguém. Porque as nossas elites são frouxas, ele existe, este país, pelo seu povo, disso estou convencido, se não já estava retalhada, na invasão Holandesa, a Espanha já teria outra parte, já havia até acordo tácito internacional para reconhecer o direito da Holanda naquela faixa, os ingleses estavam nisso, por isso não havia reação organizada por parte de Portugal contra aquela situação. Tudo era tão grande que Portugal queria negociar o reconhecimento definitivo, internacional, de Salvador para baixo, até o Rio Grande do Sul, e sobre a Amazônia. Aquilo não ocorreu pelo sentimento nativista. Ali, no meu modo de ver, a nação começou a mostrar a sua presença, ali chorou essa criança que seria o Brasil naquele momento. 

    Relação com o PT

    P – E a relação com o PT?

    Brizola – Ela existe com problemas em maior ou menor intensidade, conforme a região. Mas não há esse tipo de relação com qualquer partido que não tenha problema, esse o nosso desafio, administrar situações complexas, dificultosas e admitir todas as hipóteses e soluções. Aqui no RS, por exemplo, estamos desenvolvendo esforço com boa vontade de entrosamento e colaboração no Governo. Vamos caminhar, o quanto possível juntos.

    P – Existe possibilidade de rompimento?

    Brizola – Não se cogita concretamente de uma atitude deste tipo, mas ela deve estar sempre presente em nossas previsões, porque a nossa presença no Governo tem uma finalidade, se não ocorrer essa oportunidade de colaboração, eu, por exemplo, como Presidente nacional do partido serei o primeiro a vir aqui propor aos companheiros uma reflexão. Nós atuamos aqui, vocês sabem, num ambiente muito difícil, trabalhamos aqui num ambiente muito difícil porque nós aqui possuímos uma imprensa fortemente empresarial, então nós sofremos uma hostilidade endêmica dos órgãos de comunicação, alguns como um plano em marcha sempre, um plano em andamento, em relação a nós e nossas coligações, a nossa atuação, nosso Governo, me refiro ao RS. Então alguns são deliberados, outros vão na onda porque têm medo das retaliações econômicas, as pequenas rádios, jornais, os órgãos médios, então é ambiente difícil. 

    É como a gente ter que trabalhar na chuva, está sempre goteando, está sempre batendo, e são chuvas ácidas, como essas que os ecologistas denunciam, às vezes chuvas de pedra, vento. 

    P – Na prática, como vai funcionar essa campanha da renúncia?

    Brizola – nós estamos abrindo o debate e recolhendo inclusive o pensamento da nação e das pessoas, porque nós não podemos ficar de braços cruzados, assistindo indiferentes a uma situação que não pode continuar. O atual Governo fracassou rotundamente, ele perdeu muito da sua credibilidade. Nós estamos numa crise profunda, na hora que os pescadores de águas turvas, os nossos exploradores aprofundam o punhal sobre nós, a nossa proposta de mudança é uma campanha pela renúncia do atual Presidente. Vamos pedir, apelar, conclamar o atual Presidente no sentido de que ele entenda que a sua função se esgotou, porque há uma situação muito grave, ele não tem mais condições, perdeu as condições, ele gastou-se e não tem condições de tirar o país da crise. Essa a nossa preocupação. Vamos fazer funcionar a Constituição. Quem disser ou pensar que isso tem algum conteúdo de golpismo está muito enganado, nós estamos agindo democraticamente, não temos como dar golpe, quem dá golpe são eles, não nós, e nós queremos que o Governo sinta, como sentiu D. Pedro I, fundador do nosso país. 

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