Um dispositivo na constituição do Estado do Rio Grande do Sul determinava ao governo a
entrega de terras aos agricultores, sempre que surgissem abaixo-assinados, com o mínimo
de 100 firmas, reclamando-as. O governo do Estado e as bases do PTB estimularam o
surgimento dos abaixo-assinados e, com base nos dispositivos constitucionais, os
camponeses se reuniam em locais públicos, garantidos pelo Governo, para expor seus
problemas. Na região de Sarandi, as associações de agricultores convocaram seus
associados para que formassem um acampamento. Aí se iniciava o Movimento dos Sem Terra,
que nos anos 90, por falta de continuidade de políticas como a de Brizola, explodiria
pelas cidades e pelo campo, gerando inquietação e morticínio.
No primeiro dia, apareceram 30 famílias, no segundo mais 100. Depois de uma semana,
essas associações conseguiram reunir mais de 5.000 pessoas que lá permaneceram
organizadas pacificamente. Ergueram uma grande cruz de madeira e confeccionaram faixas com
os dizeres: "Acampamento João XXIII. Somos cristãos, queremos terras".
As autoridades estaduais da região receberam ordens do governador para prestar
assistência. Imediatamente foram deslocados médicos para vacinar crianças, e
assistentes sociais do Estado. Alguns setores classificaram o fato como agitação e
desordem de Brizola. Mas não houve desordem alguma. Os camponeses e agricultores
desejavam apenas chamar a atenção da opinião pública para a miséria em que se
encontravam. Queriam terras para trabalhar. Eram homens honestos, com famílias numerosas,
e mãos calejadas pelo trabalho na roça, acampados nas imediações das propriedades de
uma empresa que mantinha 20.000 hectares de terras totalmente improdutivas, à espera de
valorização.
Brizola foi ao local acompanhado por parlamentares, jornalistas, representantes de
associações de proprietários rurais, bem como por autoridades do Judiciário e do III
Exército. Àquela altura lá se encontravam mais de 10.000 pessoas. A comitiva ouviu os
líderes explicarem a situação através de um alto-falante. Brizola subiu num coreto
improvisado e tomou a palavra. Não fez nenhum discurso, apenas travou um diálogo com
milhares de pessoas que lá se encontravam, havia 15 dias, aguardando decisão das
autoridades.
Brizola formulou inúmeras perguntas. em primeiro lugar indagou o que eles estavam fazendo
ali. Alguém tomou a iniciativa e respondeu: "Estamos aqui para mostrar nossa
miséria". E o diálogo prosseguiu durante algum tempo com perguntas e respostas de
ambas as partes. Os agricultores garantiram que não iriam invadir terra nenhuma, embora
existissem muitos latifúndios por perto. A comitiva ouviu tudo em silêncio.
" - As mãos de vocês são de gente da enxada?" - Brizola novamente perguntou,
obtendo a resposta em coro: "Sim senhor, Governador". E todos levantaram as
mãos. Brizola continuou. Perguntou pelas famílias e todos mostraram os filhos,
geralmente em grande número. Um deles tinha 19 filhos. A certa altura o Governador
inquiriu se os agricultores estavam fazendo política e o povo respondeu: - "Não.
Nossa política é a terra, Governador."
Brizola queria mostrar à comitiva que o acompanhava desde Porto Alegre a importância do
aglomerado e com o diálogo respondia às críticas dos conservadores que sempre o
acusavam de agitador. " - Aqui não há nenhum comunista. Somos todos cristãos. Não
vê o Padre que veio aqui rezar missa?" - disse alguém para Brizola.
"- O que vocês querem? Terra de presente?" "- Não, Governador. Queremos
terra para pagar com o nosso trabalho." Brizola apontou para o representante do III
Exército e perguntou se todos estavam em situação militar correta. Muitos responderam
que tinham inclusive filhos servindo o exército.
" - Levante o braço quem esteve na FEB, que o General gostará de saber." -
mais de 200 levantaram o braço sendo que um deles gritou: " - Para nós prometeram
tudo, Governador. E até agora não nos deram nada".
A comitiva não teve o que dizer depois do diálogo. Voltou para Porto Alegre e no dia
seguinte Brizola desapropriou, por interesse social, conforme a Constituição
estabelecia, os 20.000 hectares improdutivos, para distribuí-los entre os camponeses.
O governo de Brizola tomou iniciativas como essa em todo o Estado do Rio Grande do Sul,
inclusive numa região próxima de Pelotas, o Banhado do Colégio, distante 150 km de
Porto Alegre. naquele local, mais de 10.000 pessoas, muitas de origem polonesa e alemã,
formaram também um grande acampamento, ao qual o Governador compareceu, acompanhado pelo
General Jair Dantas Ribeiro, Comandante do III Exército, e outras autoridades, como em
Sarandi. O Estado declarou a área, com cerca de 25.000 hectares, como de interesse social
e a repartiu entre os agricultores, com assistência e planificação. Essa área, após a
reforma agrária, transformar-se-ia num dos centros mais ricos e produtivos do Rio Grande
do Sul.
Alguns círculos conservadores, chocados com esse clima de liberdade, acusaram o governo
de Brizola de patrocinar a agitação. O fato, porém, é que a ampliação das franquias
democráticas permitiu, pela primeira vez, que as massas populares se manifestassem,
fizessem suas reivindicações, sem que isso implicasse qualquer desordem ou violência.
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