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"As mortes de Brizola"

Luiz Fernando Veríssimo

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(Zero Hora - 29.04.02) - Quem desencavar exemplares de Zero Hora de 67 ou 68 poderá encontrar, na página de opinião, artigos de jornalistas hoje esquecidos como Fernando Lopes e Luis Volpe. Esquecidos por todos, menos por mim, porque os dois eram eu. Às vezes faltavam textos para encher a página e o Marcão Faerman ou o Joaquim Campos Neto me encarregavam de produzir um em cima da hora, ou depois que eu acabasse de baixar a seção de frescuras, que era como a gente chamava a parte de informação cultural (que incluía o horóscopo) e guia da noite. Para não repetir o meu nome, eu recorria a heterônimos, como um Fernando Pessoa em cima da perna. Não me lembro se o Fernando Lopes e o Luis Volpe – ou era Fernando Volpe e Luis Lopes? – chegaram a se atacar mutuamente, mas a tentação de fabricar uma polêmica entre os dois, e depois pedir calma sob o meu próprio nome, era grande.

        Mas os assuntos sobre os quais o Luis e o Fernando poderiam polemizar, na página de opinião de ZH ou de qualquer outro jornal do país, eram limitados. Política, só com muito cuidado. A gente estava sempre testando as fronteiras do permitido. Não havia censura ostensiva nas Redações, pelo menos no Rio Grande do Sul. Os jornais se autopoliciavam. Mas algumas regras eram claras, e certos nomes eram proibidos. Lembro do Paulo Amorim, que me levou para o jornalismo, explicando por que tinha cortado o nome "Brizola" da primeira matéria que fiz para a página de opinião: "Para eles, o Brizola morreu". "Eles", claro, eram os militares, o poder da época, ou o que podia e o que não podia da época. E naquele morto não se tocava.

        Fico pensando nisso ao ver o Brizola por aí, urdindo frentes e vetando candidatos, com o mesmo vigor e a mesma força persuasória que assustava "eles" há 30 anos. Quantas vezes já deram o Brizola como acabado? E depois de cada morte ele fica mais vivo. Uma vez, depois da derrota do candidato brizolista à sua sucessão no Rio de Janeiro, fiz uma charge para o Jornal do Brasil que era assim: o Brizola recém enterrado, um grupo de pessoas cercando o seu túmulo, um homem perguntando a alguém do seu lado: "Será que desta vez ele fica enterrado?" E quem está do seu lado é o Brizola. Fenômeno. Brizola.     

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