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Brizola, ano 76 por Osvaldo Maneschy O ex-governador Leonel Brizola afirmou aos militantes do
PDT reunidos na sede do diretório regional do Rio de Janeiro para celebrar o seu 76º
aniversário, no último dia 22 de janeiro, que a recém formada aliança do PDT com o PT
além de fundir 80% da Oposição brasileira desencadeou Leonel Brizola chega aos 75 anos de idade, neste dia 22 de janeiro, cada vez mais confiante no reencontro do Brasil com sua autonomia, interrompida com o golpe de 1964. O tufão neoliberal que varre o País, desde então, não parece abater o velho guerreiro. Sem ser candidato a nada, mas não abrindo mão de intervir nos acontecimentos, Brizola pretende fazer uso intenso da experiência que acumulou, ao longo de meio século de vida pública, ainda por muito tempo. Vendendo saúde e com o moral sempre em alta, qualquer que seja a crise, ele se entregou a um trabalho silencioso de organizar o PDT e de unir as oposições. Uma de suas alegrias foi presenciar, em São Luís, no primeiro do ano, a posse do prefeito Jackson Lago, eleito pela coligação PDT-PT. E não desperdiçou a oportunidade de saudar a aurora de uma nova era. Mas foi no atraso da emenda da reeleição de FHC que Brizola identificou os primeiros sinais de que o país começa a despertar do torpor político gerado pela asfixia da mídia. "Ali falou o profundo do povo brasileiro", comentou, ao se referir à convenção do PMDB, que, no dia 12/01, se manifestou contra o continuísmo do atual Presidente da República. De onde menos se espera, o processo social se manifesta com o seu vigor inapelável, comenta, sem querer fugir ao recolhimento a que se impôs. Brizola acha que muita água ainda vai passar por baixo da ponte da política brasileira, antes que se efetive o continuísmo de FHC. Até aqui, na verdade, a crise econômica, conseqüência de um plano que vem de fora, e que já começa a pipocar em alguns setores, ainda não se manifestou com a sua virulência. É que muitos ainda acham que o Brasil jamais chegará à situação do México, da Argentina, do Peru... (Zero Hora - José Barrionuevo - 22/01/97 - Pág. 10) "Ninguém lembrou: o herdeiro político do trabalhismo de Getúlio e de Jango está comemorando 50 anos de sua primeira eleição, como constituinte estadual em 1947. O PTB elegeu a maior representação na Constituinte gaúcha (23), a primeira eleição de deputdos estaduais depois da redemocratização. Foi seguido por PSD (16), PL (%) UDN (4), PRP (4) e PCB (3), quando votaram 555.659 eleitores (30% de abstrenção). Para o governo do Estado, Walter Jobim (PSB-PRP-PCB) derrotou Alberto Pasqualini (PTB) por uma vantagem de 20 mil votos. Também concorreu Décio Martins Costa (PL-UDN). Para a terceira vaga de senador, o PTB foi vitorioso com Joaquim Salgado Filho, que tirou 40 mil votos de vantagem sobre Osvaldo Vergara (PSD). Como suplente de senador, foie eleito José Braga Pinheiro (PTB), numa disputa à parte, sem vinculação. A eleição foi realizada no dia 19 de janeiro de 1947." Desabafo de aniversariante: LEONEL BRIZOLA COMEMORA 75 ANOS COM CRÍTICAS A FH (Jornal do Brasil, 23/01/97, pág. 3) O ex-governador Leonel Brizola comemorou ontem 75 anos de idade fazendo duras críticas ao presidente Fernando Henrique Cardoso. A luta do presidente pela reeleição e possível venda da empresa estatal Vale do Rio Doce são as principais razões da revolta de Brizola. "Ele é um otário, um boca-mole que não tem pulso para conduzir esta nação", disse o ex-governador aos militantes brizolistas que lotaram a sede do PDT, no Centro do Rio, para homenagem. Também sobraram alfinetadas para ex-afilhados políticos - o ex-prefeito César Maia e o governador Marcello Alencar. Brizola defendeu a realização de um plebiscito para decidir se Fernando Henrique Cardoso deve ter ou não o direito à reeleição. O ex-governador acredita que o presidente corre um sério risco de derrota no plebiscito. "Cairiam de uma só vez o impostor e seu falso plano econômico", pregou. "Fernando Henrique Cardoso quer pôr o Congresso de Joelhos. Dominar pela ilegalidade e pela corrupção é mais indigno do que dominar pelo poder". Para reforçar o teor de suas críticas, o ex-governador contou um "causo" de seus anos de exílio no Uruguai. Segundo ele, um professor americano lhe contou na época que as elites dos países latino-americanos pretendiam comprar todas as fábricas de bebidas para acrescentar a elas drogas de efeito calmante. "O Fernando Henrique quando fala em vender a Vale do Rio Doce me parece ter tomado a maior dose", disse, arrancando risos da festiva platéia de militantes. Brizola aproveitou a festa para reafirmar que não pretende ser candidato nas eleições presidenciais de 1998. Mas disse que irá continuar prestando ajuda a todos os que forem concorrer pelo partido. O ex-governador não quis apontar os prováveis candidatos do PDT ao Palácio do Planalto: "Não é hora de falar nisso. Não queremos queimar nomes". "Me
sinto um garoto, aos 75" A festa foi improvisada no último momento, já que inicialmente Brizola celebraria o seu aniversário juntamente com Barbosa Lima Sobrinho num grande ato público no auditório da Associação Brasileira de Imprensa, também no Centro do Rio de Janeiro, contra a privatização da Vale do Rio Doce. Mas o ato público na ABI foi transferido para o dia 27 de janeiro por pressão da família do Dr. Barbosa Lima, temerosa de que o ato público e a homenagem a Barbosa Lima pelos seus 100 anos de vida - prejudicassem a sua saúde. A chegada de Brizola à sede do PDT estava inicialmente prevista para as 16 horas - mas ele se atrasou porque, antes, visitou a família do jornalista e professor Edmundo Muniz, falecido na madrugada do dia 22. Depois dos salgadinhos, do bolo e dos refrigerantes - Brizola discursou para as pessoas presentes na sede do PDT: Eis a íntegra do discurso de Brizola: "O livro que registra o tempo em que vivemos tem muitas páginas que ainda não foram escritas. E nós, acredito, temos a chance de escrevê-las. Mesmo sendo eu uma pessoa muito discriminada pelo establishment. Existe no Brasil uma camada, uma nata, permanentemente preocupada com a possibilidade de que o Brizola alcance áreas de decisão. Eles sempre se unem diante desta possibilidade promovendo as uniões mais incoerentes possíveis. "Estas mesmas pessoas usam dos instrumentos mais vis que existem para embargar o nosso caminho. Sabem por que? Porque já vi a esperança na face do povo brasileiro. E quem já viu a esperança na face do povo não esquece jamais. Durante toda a minha vida, mesmo nos momentos em que pude me considerar vencedor, as coisas nunca foram fáceis para mim. Elas nunca estiveram integralmente decididas. Sempre tive que trabalhar duro, me esforçar, fazer mais - para que as coisas prosseguissem, fossem mais adiante. "Mas tudo isto, tenho certeza, faz parte do processo social. O processo social é insondável, difícil de entender. Ele tem os seus meios, os seus próprios caminhos. Mas só ele é capaz de fazer ruir, de derrubar como um castelo de cartas, o mais gigantesco dos poderes. Mesmo aquele que todos consideram inabalável. Olha, digo para vocês, do alto dos meus 75 anos, com a experiência de veterano, como muitos que estão aqui: sinceramente, não me sinto um velho! Sei que a minha idade é verdadeira por que eu mesmo me registrei. Até tinha interesse naquela época em aumentar de idade. Não me sinto um velho! "E olhando por aí espero que o prédio não desabe com a citação a gente vê pessoas como o Roberto Marinho, com 92, 94 anos de idade; na ativa. Ele vai ao escritório todos os dias! Sem falar no nosso Barbosa Lima Sobrinho que hoje está completando 100 anos de vida. Olha, diante desses exemplos sinto-me um garoto. Barbosa Lima com 100 anos, Roberto Marinho com noventa e tal, sinto-me um garoto! "Só que nunca imaginei que neste quadrante da minha vida pudesse assistir ao que estamos vendo hoje. Como é que o nosso país foi cair nas mãos dessa gente que está no poder agora? Jamais imaginei isto! Precisamos entender e assimilar o que está acontecendo já que a cada dia tudo vai se elucidando... "Estamos vivendo hoje um tipo diferente de dominação. É claro que continuam a existir exércitos, soldados, marinheiros. Mas agora domina-se uma nação através da desinformação. Os esquemas de comunicação que existem no Brasil são de tal ordem que provocam o torpor a que assistimos no presente. "Há outras explicações para o que está acontecendo, é claro. Lembro por exemplo que quando estava no exílio em Montevidéu, há muitos anos atrás, apareceu por lá um americano, um professor que não lembro o nome, que queria falar com nós, exilados que vivíamos lá. Ele nos reuniu, umas 15 pessoas e até o Allende, Salvador Allende do Chile, que estava por lá, assistiu à palestra do americano. "Ele nos disse que as indústrias de bebidas de consumo popular de toda a América Latina - os refrigerantes e as cervejas, já que Coca Cola a gente nem fala - seriam compradas porque existia um plano de adicionar nessas bebidas, sem que ninguém soubesse, uma droga que ele não conhecia para que os latino-americano ficassem dóceis, tranqüilos, não criassem problemas para os Estados Unidos. Uma droga criada em laboratório para que as pessoas permanecessem acomodadas e quietas. "Não acreditei muito nessa história nem dei importância a ela, na época. Mas agora, anos e anos depois, vendo o que está acontecendo no Brasil, vendo esse clima de torpor, chego a ficar em dúvida. Será que o americano estava falando sério? Não acreditei na época mas agora, confesso a vocês, chego a pensar que talvez a denúncia tenha sido séria... "E se for séria, tenham certeza, este Fernando Henrique Cardoso deve ter tomado uma dose dupla ou tripla da tal droga! Eu pergunto: porque eles não fariam isto contra o Terceiro Mundo? Quem os impediria de fazer isto? Eles não inventaram aviões para voar quase na estratosfera e lançar bombas sobre pessoas que morrem sem saber o que as atingiu? De repente existe mesmo a tal droga que o americano falou. Penso nisso quando vejo pessoas acomodadas, quietas, prontas para serem disciplinadas através da televisão... "30 ou 40 anos atrás era impossível prever o que está acontecendo hoje. Como é possível existir esta política de entrega e desnacionalização das empresas públicas? Como o Brasil vai ter condições de se desenvolver? Como vai ser possível o país crescer? Fernando Henrique Cardoso é um submisso! Como poderemos construir a Nação e o nosso futuro governados por uma pessoa como ele? "Vivemos uma época onde não há discussão. Só isto pode justificar toda essa onda de vender o patrimônio público e empresas como a Vale do Rio Doce. Que coisa perversa! Ninguém discute! Digo o seguinte: este Fernando Henrique Cardoso é um otário, um boca-mole! Ele é uma pessoa que não tem pulso para defender a Nação! E a Nação está sujeita a tudo pelo fato de estar nas mãos de uma pessoa como ele. "Não esperava, no ultimo quadrante de minha vida, assistir ao que está acontecendo com o Brasil. Mas também digo a vocês: cultivo a esperança de que numa destas, tudo mude! Repararam que a mão mentirosa de cinco dedos do Fernando Henrique se transformou na mão do Collor nessa campanha veiculada há pouco pela televisão? Quem sabe se isso não é o prenúncio da derrocada deles? Quem sabe se o processo social não dá a eles uma resposta a altura? "Eles estão vergonhosamente avacalhando o Congresso Nacional. O Congresso está sendo avacalhado, sendo moralmente destruído pelos que querem a reeleição. Fernando Henrique Cardoso, além de usar patrimônio público para continuar no poder, está recorrendo a métodos e a processos que ele não tem o direito de usar! Ele não tem o direito de corromper, de comprar congressistas! Ainda mais para aprofundar o colonialismo e a dominação estrangeira no Brasil. "Podem crer, sou um homem de esperança. Sinto-me amargurado mas também tenho a consciência queimando de esperança. Fernando Henrique Cardoso está se desmoralizando e se desgastando por patrocinar esse projeto continuista. E mesmo que ele consiga passar no Congresso, tenho esperanças de que amanhã quando Fernando Henrique for candidato controlando o governo, controlando tudo ele venha a sofrer uma grande derrota diante do povo. "Companheiros: se há orgulho que sinto, é o de ser acompanhado por pessoas como vocês. É claro que os traidores existem. Um aqui, outro ali, mas isto é da vida. Até Jesus Cristo, que era Deus, foi traído. Ele escolheu 12 apóstolos e entre eles um o traiu - Judas Escariostes. Na minha interpretação da Bíblia - peço licença ao L ysaneas (Maciel)que está aqui e é meio pastor - na minha interpretação da Bíblia, acho que Judas se matou de desgosto. Porque todos os que o seguiram, na verdade, estavam atrás de dinheiro. Ele acabou se matando de desgosto porque, além de traidor, viu-se abandonado quando acabou o dinheiro. "Quantos seguiram Marcello e Cesar? Quem sabe se quando acabar o dinheiro eles não se enforquem, como aconteceu na Bíblia? "Quanto a nós, precisamos caminhar em busca de nosso destino, conscientes de que somos a resistência. Tenham certeza: a hora da verdade está se aproximando. Para eles e para nós. E nós somos a resistência. Alguns podem até questionar: mas é isto mesmo? Somos só nós? É isto mesmo: a resistência é sempre feita por poucos. Nós somos a resistência! O meu abraço, vocês também estão de parabéns". Tenacidade, aos 74Por Leite Filho Ele fez 74 anos em 22 de janeiro. Dois dias depois, presidiu, sem arredar o pé, 12 horas seguidas de reuniões da convenção nacional do PDT, em Brasília, deu 13 entrevistas e ainda estava em forma para jantar fora. Os anos, que já abateram tantos outros, não só em vida como principalmente em convicções, não parecem tê-lo vergado. É a mesma tenacidade. A mesma intransigência. A mesma inconformidade. A mesma altanaria. Um idealismo de colegial, que o leva a prever para breve o fim do neoliberalismo, a encarar na mais recente rebelião francesa de dezembro de 95 uma luz no final do túnel e a não descartar a derrogação das reformas de FHC, antes mesmo que elas entrem em vigor ("O Clinton arruma emprego para oito milhões de americanos e o Fernando Henrique pretende demitir um milhão de empregadas domésticas") - sinaliza. É este Brizola, curtido de tantos sofrimentos,
com o exílio de 15 anos e a derrota pré-fabricada de 94, agora quase tão cassado quanto
o foi no autoritarismo, que está aí, aparentemente isolado, mas com um projeto de Brasil
muito definido e um magnetismo pessoal ainda intacto. Brizola comemorou seus 74, na sua intimidade, no
Rio de Janeiro. Polidamente, recusou uma homenagem que lhe preparam os companheiros.
Preferiu recolher-se para refletir, aliás como o tem feito nos últimos dias - exatamente
como fazia nos seus longos anos de exílio e confinamento. |
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