Jornal do Brasil, 07/03/99
LUCIANA NUNES LEALDepois do recolhimento que se seguiu à derrota do ano passado, Leonel Brizola, aos 77 anos, exercita mais uma vez a capacidade de dar a volta por cima. Três vezes governador, duas candidato a presidente e uma a vice, voltou a cavar seu espaço no cenário político. Muniu-se de disposição até mesmo mo para enfrentar uma nova candidatura, se for o caso. Sobre essa possibilidade, fala recorrendo a uma de suas muitas filosofias de vida. "Eu tive na vida política brasileira o meu quarto de hora. Estou confortável com o que fiz, com o que aconteceu comigo. Agora, se a vida me reservar ainda alguns dois ou três minutos, tratarei de vivê-los intensamente, principalmente se forem decisivos. Mas, em tese, eu já estou quitado. Esses três minutos viriam inhapa", diz Brizola, bem devagar, sentado no canto de um sofá de sua casa, de frente para a praia de Copacabana.
Sobra - "Sabe o que é inhapa?" É a sobra, aquilo que se ganha sem estar combinado. E os pedetistas mais próximos de Brizola acham que a inhapa pode ser justamente a Prefeitura do Rio, a ser disputada ano que vem. "São especulações que não partem de mim", jura. Brizola garante que não pensa nessa possibilidade, mas seu partido pensa. Pesquisas têm demonstrado o interesse do carioca pelos assuntos nacionais, a vontade de voltar ao centro das discussões do país. Os amigos de Brizola não vêem ninguém melhor que o próprio para entrar nesse vácuo.
"Alguns falam que devo ser senador. São lembranças generosas, mas não tenho futuro, só presente. Como é que, nascendo no interior profundo onde nasci, ia ter futuro? Desde que embarquei num vagão de segunda classe, para a capital, levando o beijo de minha mãe, sem existir, porque eu nem registrado era, só tive presente. Pode ser que ainda surjam os três minutos finais, vamos ver", prossegue o herdeiro do trabalhismo de Getúlio Vargas, padrinho de seu casamento com Neuza Goulart.
Neuza - Brizola está combativo e também saudoso. Procura a foto de seu casamento. "Vivemos 43 anos juntos. Eu só casei quando me formei em engenharia. Neuza era uma mulher independente, muito bonita", diz. Em seguida, busca a última foto do casal, feita na janela daquela mesma sala. Dona Neuza morreu em 1993, de complicações pulmonares depois de uma cirurgia no estômago. "O cigarro...", lamenta.
O assunto volta a ser a crise brasileira, e o presidente nacional do PDT torna-se implacável. Levanta a bandeira da renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não tem o apoio nem do PT nessa idéia, mas não liga de ser uma voz solitária. "Compreendo que é tal o torpor nacional, que só alguém que se sente inteiramente livre pode assumir essa vanguarda. Nunca vivemos um período de tanta vergonha. Alguém tem que dizer a verdade. Eu me disponho a desenvolver esta tese da renúncia como quem expõe um teorema".
Vice - Brizola convenceu-se que o vice-presidente Marco Maciel seria um bom presidente. Acha que as críticas do senador Antônio Carlos Magalhães ao FMI são um sintoma da insatisfação até dos aliados e se mostra um fidelíssimo companheiro do ex-presidente e governador de Minas Gerais Itamar Franco, hoje maior opositor de Fernando Henrique. Calejado, assiste com paciência às críticas e ironias do governador do Rio, Anthony Garotinho, pedetista como ele, a Itamar Franco. Acha que é inexperiência.
E persiste. Anuncia que amanhã pedirá uma reunião da frente das oposições. Reconhece que há divergências, mas quer expor sua tese da renúncia e buscar adesões. "Os copos balançaram, ouvimos o barulho, mas não quebraram, nenhum trincou", diz, tramando a nova "cruzada cívica".
Garotinho: "Se ele tivesse a experiência que eu tenho, estaria assumindo uma posição de diálogo com o governo federal, como é do seu dever como governador, sem atirar pedras ao governador Itamar. É nesse detalhe, em que procura debilitar o governador Itamar, que está o seu equívoco. É achar que a situação dele é a mesma do governador Itamar e pretender dar lições ao governador Itamar. É muita coisa pretender dar lições ao governador Itamar."
Fernando Henrique: "O grande responsável por esse quadro deprimente e triste em que nos encontramos, quando nem conseguimos saber como sair dessa crise, é o atual presidente. Não é que tudo deva ser da culpa desse presidente, mas o exemplo vem de cima. Um presidente pode levar o país ao desastre, como foi o exemplo do Gorbatchev com a União Soviética."
Renúncia: "Diante do atual quadro a única solução dentro da ordem constitucional é a renúncia ou o afastamento por esponte própria do presidente. Ele não tem mais condições de tirar o país da crise. Defendo um movimento popular pedindo a renúncia, para que não venha a ser um conchavo, um contubérnio, uma decisão de grupos de poucas pessoas. Que seja uma decisão consciente da nação. O povo dizendo: demos o nosso voto e agora retiramos."
PT: "O PT viveu uma perplexidade. Ficou em dúvida se devia jogar todo seu apoio, assumir plenamente sua solidariedade ao governador Itamar. Ficou preocupado com o desdobramento político eleitoral que pudesse ter essa posição. Creio que num certo momento preocupou ao PT o desenvolvimento do fenômeno Itamar. Considero que não tem razão, não tem motivo para isso."
Itamar Franco: "O governador Itamar, com as atitudes que vem assumindo e se ele prosseguir com essa firmeza e lucidez, sem nenhuma dúvida estará se credenciando como um candidato muito forte de contestação ao atual modelo econômico e político. Se isso ocorrer, é bem provável que não somente nós, mas todas as forças populares e democráticas, estarão, inclusive o PT, unidas para mudar a situação."