30/11/99) Leonel Brizola foi escolhido pela revista Istoé desta
semana (com data de 01/12/99) como um dos 20 maiores estadistas brasileiros do século XX,
na companhia de Getúlio Vargas, João Goulart, JK, Marechal Rondon, Barão do Rio Branco,
Oswaldo Aranha e Rodrigues Alves.
Para integrar o júri para a escolha dos 20 estadistas a revista convidou as seguitnes personalidades: General Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete da Segurança Institucional, Jarbas Medeiros, professor da UFMG; Marco Maciel, Vice-presidente da República; Jorge Mautner, compostior e escritor; Miro Teixeira, deputado federal; Josúe Montello, escritor; David Flexher, cientista político e professor da Universidade de Brasília; Walmor Chagas, ator; Roberto Freire, senador; Rafael Villa, professor da UFPR; Celina Vargas, historiadora; Jáder Barbalho, presidente do PMDB; Villas Boas Corrêa, jornalista; Paulo Hartung, senador; Bolívar Lamounier, sociólogo; Wilson Figueiredo, jornalista; Eliane Catanhede, jornalista; Olívio Dutra, governador do Rio Grande do sul; Franklin Martins, jornalista; Homero Costa, professor da UFRN; Roberto Campos, economista; Delfim Netto, deputado federal; José Dirceu, presidente do PT; Ivres Gandra, tributarista, Oscar Schmidt, jogador de basquete; Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos RS; Ronaldo Sardemberg, ministro da Ciência e Tecnologia; Walquíria Leão Rego, professora da Unicamp e Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político.
* O júri indicou 30 nomes, dentre os quais os leitores escolheram 20 homenageados.
É o seguinte o perfil divulgado na edição especial de Istoé:
"Leonel Brizola
Os pés descalços, a espada de pau em punho, o moleque soltava os pulmões: "Eu sou o capitão Leonel!" Era Itagiba de Moura Brizola, mas cedo adotou o nome de Leonel rocha, chefe da revolta de 1923. Era como se vestissse a pele de do herói vingador. A guerra civil ocorrera em reação ao desejo de Borges de Medeiros de concorrer pela Quinta vez a um mandato de presidente do Rio Grande do Sul na época as eleições eram quase sempre fraudulentas. O acordo de paz estava já assinado quando o agricultor José, pai de Brizola. Foi morto por tropas governistas. Nosso espadachim da área rural de Carazinho (RS), nascido às 22 horas de 22 de janeiro de 1922, tinha um ano quando o pai morreu. O ibope ruim do caudilho Borges era ilustrado pela brincadeira dos meninos naquele rincão. Quando se escondiam atrás dos galpões para fazer cocô, diziam a senha: "Vou mandar um telegrama para o Borges de Medeiros". Mais de 30 anos depois, Leonel Brizola governava o Estado e o pivô do assassinato do pai morava perto do palácio. Com 93 anos, Borges batia à porta e pedia licença para tirar uma prosa. "Eu o recebia sem rancor. Estava muito doente, praticamente morreu nos meus braços", contou Brizola a ISTOÉ.
Be-á-bá na mata- A mãe, Oniva, casou logo com um vizinho, também viuvo. Tinha cinco filhos e o novo esposo seis. Ela juntava a turma em baixo de uma grande árvore e alfabetizava os guris com um só livro que circulava de mão em mão. "A extrema dificuldade que passei para estudar me fez eleger a educação pública como prioridade. No Sul, construí mais de seis mil escolas e, ao governar o Rio de Janeiro, nos anos 80 e 90, implantei turno inte4gral, com refeição e assistência médica".
Aos 11 anos, Brizola saiu da área rural epara ser jornaleiro e engraxate, além de carregar malas na estação de trem de Carazinho. Morou um ano com um pastor metodista, que o encarregava de ler as rezas no culto. Foi quando aprendeu a falar em público. E quem resiste à lábia de Brizola? O carola converteu até a mãe, até então católica fervorosa. Aos 14 mudou-se para Porto Alegre, onde foi ascensorista e jardineiro de praças. Só aí concluiu o ginásio e entrou na Faculdade de Engenharia. Lá, achou a verdadeira vocação: a política. "De um lado, havia os chamados punhos de renda, filhos de estancieiros, com os quais não me identificava. De outro, estavam os comunistas. Era polígrafo para todo lado, um arsenal ideológico. Mas não havia diálogo porque o pessoal do Partidão já sabia de tudo". Era ainda universitário quando se elegeu deputado estadual pelo PTB, aos 22 anos. Nos anos 60, comprou espaço na Rádio Farroupilha para irradiar sua retórica. Uma vez, um casal de velhinhos compareceu à sede do PTB, onde Brizola transmitia o programa. "Lá no interior, embaixo de cobertor de pena, a gente se deita para ouvir o senhor e pega no sono. Duas horas depois, acorda e o senhor continua falando".
O método de comunicação seria posto à prova em 1961, quando era governador gaúcho Brizola já havia sido então secretário estadual de obras, deputado federal e prefeito de Porto Alegre. Com a renúncia do presdiente Jânio Quadros, o vice João Goulart (cunhado de Brizola) teve sua posse vetada pelos militares. Dos porões do Palácio do Pi8ratini, Brizola formou uma rede de 104 emissoras em todo o país, a Cadeia da Legalidade. O Rio Grande resistirá ao golpe, ainda que seja esmagado", anunciava ao microfone. Pediu aos mordores das cercanias que se afastassem, porque o palácio estava para ser bombardeado (o que não ocorreu). Requisitou armas do comércio e das fábricas Taurus e Rossi, distribuindo-as à população. "A pessoa ganhava um revólver e uma caixa de balas e assinava um recibo. Quando tudo se resolveu , quase todos devolveram as armas, mas alguns pediram para levar como souvenir". Em meio à crise, o comandante do III Exército, general Machado Lopes, pediu audiência. "Me preparei para prendê-lo, mas ele aderiu a nós. O rádio de pilha dividiu as Forças Armadas e, com isso, evitamos o golpe. É um episódio de resistência civil raro na América Latina, do qual até hoje me orgulho".
Cômoro de areia Brizola que no Sul havia estatizado as companhias de energia elétrica e de telefonia, subsidiárias da canadense Bond and Share e da americana ITT era deputado federal pela Guanabara quando estourou o golpe de 1964 que depôs João Goulart. Disfarçado com uniforme da polícia militar gaúcha, escondeu-se atrás de um cômoro de areia em Cidreira (RS) até avistar o avião que o levaria para o exílio. "Éramos inexperientes e não soubemos aproveitar o momento privilegiado que a história ofereceu para mudarmos o País", lamenta. Ao voltar do exílio em 19979, fundou o PDT, pelo qual se elegeu governador do Rio de Janeiro duas vezes. Aos 77 anos, sem mandato, declara-se "um brasileiro indignado que, no íntimo, nunca deixou de resistir".