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"Ninguém me tira o que já fiz"

Entrevista de Leonel Brizola ao repórter Chico Otavio, publicada pelo O Globo, dia 22 de setembro de 2000.

O quarto lugar nas pesquisas não tira o sono de Leonel Brizola. Dos quatro principais candidatos a prefeito do Rio, o pedetista se considera o único que pode perder porque não tem mais o que provar. "Obras como o programa dos Ciep, ninguém me tira", diz. Mas, aos 78 anos, Brizola pretende não só ganhar a eleição para prefeito do Rio como entrar para o Guinness como o político que mais construiu escolas no planeta (segundo ele, oito mil). Avesso a planos de governo, afirma ter experiência suficiente para saber o que a cidade precisa. E insiste nos ataques ao Governo federal, ao PT, à informatização das eleições e à reeleição. Suas críticas mais duras, porém, são dirigidas a Garotinho, que pretendia transformar em seu herdeiro no PDT e hoje chama de burro.

Como o senhor vê a possibilidade de derrota?

LEONEL BRIZOLA: Não penso nisso, mas sou o único que pode perder. Não estou lutando por mais um degrau na minha carreira. Ela está encerrada, embora não haja um muro que me impeça de seguir. O que já fiz ninguém me tira. Sou o sujeito que, no mundo, em qualquer tempo, fez mais escolas na vida. Algo em torno de oito mil. Posso me candidatar ao Guinness. A Cadeia da Legalidade, ninguém me tira. Se não vencer, terei oportunidade de trabalhar um pouco pela organização do partido, que vai entrar numa de suas fases mais construtivas. Somos um partido de massa.

E os outros partidos de esquerda no Brasil?

BRIZOLA: O PT é um partido de quadros, com nuances de massa relativas. O PSB e o PCdoB também são de quadros. Nós somos de massa. O PT está aí, num desenvolvimento paralelo, mas acho que já se esgotou historicamente. Movimentos como o dos sem-terra deixaram o PT para trás.

Há relação entre o alto índice de rejeição que o senhor tem no Rio e a política de segurança de seus dois governos no estado?

BRIZOLA: O que melhorou depois de meu segundo governo? Tudo piorou. Meu esquema era enfrentar a criminalidade, mas cuidando da população, evitando a bala perdida e o desrespeito. Admitia entrar em favela, mas com o Ministério Público junto. Outros que me sucederam cultivaram uma polícia agressiva, e o que adiantou? Incentivaram o surgimento de uma geração de bandidos. Nunca houve tantos assassinatos. E, além do mais, a maior contribuição do trabalhismo ao combate à criminalidade foi a escola integrada na rede de ensino do estado.

Na reta final, que balanço o senhor faz da campanha?

BRIZOLA: Vejo um processo viciado, que não oferece confiança. Começa com a reeleição, uma imoralidade. Não houve desincompatibilização. Apoiado pelos governos federal e estadual, Conde (prefeito candidato à reeleição pelo PFL) está na disputa sem deixar o cargo. Usa a máquina sem escrúpulos, gastando rios de dinheiro. Não tem tradição política. É parecido com Fernando Henrique. Um intelectual e só.

Se a reeleição é só o começo, o que mais ameaça?

BRIZOLA: Os vícios da informatização. Não ponho em dúvida a boa-fé dos juízes. Refiro-me ao desconhecimento deles. O processo acaba caindo nas mãos de empresas especializadas. Não tenho a menor confiança na forma como elas organizam a apuração das eleições. A fraude pode ocorrer.

Quem herdará o legado do trabalhismo no Brasil?

BRIZOLA: Isso nunca me preocupou. Vargas (o presidente Getúlio Vargas), por exemplo, meses antes do suicídio, não tinha idéia de que iria morrer. Só no dia, chamou Jango, entregou-lhe a carta-testamento e disse: ‘‘Vai-te embora para o Sul’’. Tivemos esperança que Garotinho pudesse ser. Era um quadro jovem no PDT. Mas verificamos que não. Ele foi atropelando tudo, em nome de uma ambição mórbida. É um agente desagregador. Anda no interior do estado como um Papai Noel, carregando um saco de bugigangas para os prefeitos. Não vi ninguém com esses métodos que pudesse ir muito longe. A característica mais notável de Garotinho é ser burro. Ele se meteu num matagal, cheio de unhas de gato. Não demora e estará tratando de amarrar o seu barquinho em outro lugar. No nosso partido, ele não será mais nada.

Quais são os seus projetos para a cidade?

BRIZOLA: Tenho uma cesta de projetos do tamanho do Maracanã, que refletem minha experiência e minhas inquietações. Ninguém pode imaginar que não conheço os problemas da cidade. Ninguém realizou metade do que fiz no estado. Depois, tudo andou a passos de tartaruga. O Rio tem problemas se agravando num quadro de degradação e já perdeu suas forças próprias para resolvê-los. Não pode sequer detê-los, como é o caso da poluição, que só pode ser enfrentada com recursos maciços de fora.

Se eleito, como será a convivência com o governador?

BRIZOLA: Não espero problemas. Com Collor, saímos da eleição nos chamando de filho disso, filho daquilo. Mas Collor presidente foi muito correto com o governador Brizola, embora nunca tenha existido relação política com Collor.

Nos últimos anos, o PDT perdeu quadros importantes. Teria gente suficiente para a montagem de uma equipe?

BRIZOLA: Sempre tive muita capacidade de formar boa equipe de colaboradores. Fui eleito vindo de um exílio de 15 anos e, mesmo assim, não tive dificuldade de montar minha equipe em 1983. O que não conseguir no quadro partidário, vou buscar na sociedade.

Há dinheiro em caixa para investimentos municipais?

BRIZOLA: Mais importante é a visão do governador. Se ela é pequena, tudo mais será pequeno. É preciso audácia, bom senso e lucidez. O dinheiro nunca está nos cofres, esperando o novo governador ou prefeito. Geralmente, os cofres estão pelados e os recursos para executar os projetos dependem da clarividência.

 

Como o senhor vê a situação de Itamar Franco?

BRIZOLA: Está desempenhando um papel significativo ao mostrar que o rei está nu. Talvez seja o fator de maior desgaste ao presidente Fernando Henrique nos últimos anos. Como está tocando em certos pontos, é natural que seja ridicularizado e até combatido drasticamente, se insistir nesse tipo de crítica. Num primeiro momento, o conservadorismo tenta derrubá-lo com uma gargalhada.

E o Governo Fernando Henrique?

BRIZOLA: Estamos diante do fracasso do real. Como dizem que não há inflação se o dólar dobrou, os preços subindo, como ocorre com os medicamentos? Todo o entorno do presidente está impregnado de corrupção. Que modernismo é esse em que os governantes não têm responsabilidade nenhuma? Para mim, a responsabilidade é sempre dos governantes


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