Entrevista à Revista Istoé - Nº 1584 - 09/02/2000
Jornal Legalidade (novembro de 1996, pág 4 e 5)
FHC usa roupagem democrática para servir aos grupos econômicos
Em entrevista exclusiva ao jornal Legalidade, da Juventude do PDT no Paraná,o ex-governador e presidente nacional do partido, Leonel Brizola, fez um balanço do desempenho dos pedetistas nas eleições. "Os meios de comunicação fazem o que podem para ocultar uma realidade que salta das urnas", disse Brizola. Ele também falou sobre o governo FHC, cuja obra, como frisa, "não tem sido outra senão a da destruição", e apontou os grandes feitos do Presidente Getúlio Vargas, a conquista dos direitos sociais pelos trabalhadores e a afirmação da soberania brasileira.
Para o ex-governador e presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, a obra do governo Fernando Henrique Cardoso não tem sido outra senão a da destruição. É um governo que não constrói escolas, hospitais, estradas. Brizola mencionou os chamados tigres asiáticos entre os exemplos de desenvolvimento ancorado na educação, emprego e produção de alimentos. Não há progresso com ignorância, desemprego e fome e este governo não só não os combate como os está agravando, lamentou".
Estas afirmações do líder Leonel Brizola foram feitas para o Jornal Legalidade, entrevistado por Valmor Stédile na segunda-feira 18/11, no Rio de Janeiro. Entre vários intervalos de duas reuniões - da Direção Nacional do PDT e de prefeitos eleitos do RJ - que se prolongaram por sete horas, Brizola dispensou especial atenção para o fechamento da entrevista, sabendo que seria transmitida aos pedetistas do Paraná, na edição nº 50 do nosso jornal. Referindo-se à convivência política com Jaime Lerner, disse que o governador teria saído do PDT no dia seguinte ao de sua filiação, se dependêssemos das previsões da imprensa. Vale a pena conferir:
VS - Governador Leonel Brizola, seguidamente ouvimos o senhor afirmar: Nós viemos de longe. Então, gostaria de iniciar a nossa conversa com uma mensagem sua, para ser transmitida sobretudo aos mais jovens, a respeito das origens do PDT. De onde viemos, governador?
Brizola - O trabalhismo surgiu como um caminho próprio, autóctone, das lutas sociais do povo brasileiro. Foi o correspondente, no Brasil, ao movimento social-democrata que se fortaleceu na Europa na segunda metade do século. Fundiram-se aqui, sob a liderança de Getúlio, as vertentes do movimento dos trabalhadores e seus sindicatos e os sentimentos nacionalistas. Veja: todas as afirmações de direitos sociais e de independência econômica nacional têm a marca do trabalhismo, desde a legislação trabalhista até as empresas estratégicas como a Petrobrás. Não é a toa que é contra elas que se volta o furor dos autoproclamados neoliberais, porque os interesses econômicos que eles de fato representam sempre sonharam destruí-las. Você pede uma mensagem às novas gerações: pois bem, peço aos jovens que pensem o quanto nosso País se assemelha a eles próprios. Perguntem-se: pode haver liberdade sem independência econômica? Pois o Brasil jamais poderá seguir o destino próprio, alcançar o desenvolvimento ou a justiça que todos sonhamos se não puder se afirmar como uma nação independente, com o gigantismo potencial que possui. As elites estão sempre menosprezando e desqualificando o Brasil, pois sabem que se houver consciência do que somos e do que podemos ser quando dirigirmos nosso próprio destino, então o povo brasileiro não se conformará em continuar sofrendo e sustentando os privilégios dos grupos que se nutrem dos frutos do trabalho e das riquezas deste País.
VS - Como certa frequência, os paranaenses são levados a incompreensões quanto a supostos atritos entre Leonel Brizola e Jaime Lerner, especialmente quando ocorrem fatos polêmicos de repercussão nacional. O que tem de verdade nisso, como se deu a entrada de Lerner no PDT e como tem sido o seu relacionamento com ele?
Brizola - Se fôssemos acreditar nas previsões dos nossos amigos da imprensa, Jaime Lerner teria saído do PDT no dia seguinte ao de sua filiação. Claro que cada um de nós tem suas próprias visões sobre muitos temas. Podemos e vamos divergir muitas vezes, como ocorre entre dois seres humanos. Só os conservadores e os preconceituosos acreditam que o nosso partido é um bando de ovelhinhas, que se pode dirigir para cá e para lá. Lerner é uma liderança política por seus próprios méritos e pelos méritos do nosso partido, especialmente no Paraná, pelo qual disputou todas as eleições. Quando, em meu primeiro governo no Rio de Janeiro, fiz de Lerner um colaborador de minha administração, ele estava afastado da vida política e jamais disputara eleições. Nosso relacionamento têm sido um aprendizado mútuo. Ele, com sua vocação de urbanista, de quem procura viabilizar o bem-estar da coletividade e, ao mesmo tempo, tem os olhos postos no futuro, nos caminhos dos desenvolvimento, encontrou no PDT a expressão política destas mesmas aspirações.
VS - O Paraná está atraindo investimentos externos como a Renault, Chrysler e Skoda. Os opositores apontam contradição entre estas iniciativas do governador Jaime Lerner e o fato de o PDT ter votado contra a abertura da economia ao capital internacional. O que o senhor diz a este respeito?
Brizola - Veja como se processa a criação das intrigas. Desde quando eu e o PDT fomos contra a entrada de indústrias automobilísticas? Este processo, que se iniciou no Governo JK, do qual participamos, se mereceu de nós algum reparo sempre foi o de que não devíamos nos restringir a umas poucas montadoras, que acabaram gerando um cartel. Evidentemente, tudo isso não supera a necessidade de desenvolvermos nossa própria tecnologia e fábricas, como fizeram os coreanos com a Hyundai, a Kia e outras marcas, que se espalharam mundo afora. Só podemos aplaudir a entrada de novas empresas no setor, ainda mais quando representam uma desconcentração geográfica destas indústrias. Isto nada tem a ver com a entrega, a leiloagem de nosso petróleo, de nosso sistema de comunicações, como o que querem fazer agora com a Vale e nossas riquezas minerais. Veja como, mesmo neste campo, tudo ocorre ao contrário do que sugerem as intrigas: o Governador Lerner assumiu uma posição lúcida e que só merece aplausos, recusando-se a entregar a grupos privados as centrais elétricas que já estão operando, ao mesmo tempo em que permite que as empresas que se disponham a investir na construção de usina possam fazê-lo. A privatização que pretendem não é essa, é a entrega, a preço vil, do que foi construído como o dinheiro público.
VS - A Direção Nacional do PDT levou à exclusão de seus quadros três deputados federais eleitos pelo Paraná. Que exemplos podemos colher deste comportamento da direção partidária diante da infidelidade corrente entre os políticos em geral?
Brizola - O povo paranaense pôde ver a verdadeira natureza destes que se camuflaram sob nossa legenda para servir aos adversários . Um deles chegou mesmo a se lançar candidato a prefeito para dificultar a vitória do nosso partido, do Governador Lerner e do Prefeito Rafael Greca. O clamor popular contra este tipo de procedimento, felizmente, parece que nos irá levar,finalmente, à instituição legal do preceito da fidelidade partidária. Todos têm o direito de mudar, mas não de trair os votos que receberam. A consciência pertence ao indivíduo, mas o mandato pertence ao eleitor, através dos partidos.
VS. - O PDT elegeu 192 prefeitos em 1988, 366 em 1992 e chegamos a 524 agora com o segundo turno das eleições de 96. Verifica-se aí um significativo constante crescimento nacional. Como foi o desempenho nacional. Como foi o desempenho do partido no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, considerados berços do trabalhismo brasileiro?
Brizola - Os números que citou comprovam que o PDT, hoje, tem uma sólida implantação nacional, que lhe permite se apresentar ao povo brasileiro como uma alternativa cada vez mais viável. Os meios de comunicação fazem o que podem para ocultar uma realidade que salta das urnas. Somos o quinto partido nacional em número de votos, com 9% dos votos nacionais - o maior entre os de oposição - administrando 15 das 100 maiores cidades brasileiras. O número de vereadores passou de 6.000. Quantos quadros partidários surgiram ou ratificaram suas qualidades neste processo eleitoral? Quantos potenciais Governadores de Estado, Senadores, Deputados , enfim , quantas esperanças para o nosso Partido e para a população devem estar surgindo? Sofremos, é verdade, algumas importantes derrotas, no Rio e em Porto Alegre, mas continuamos fortes tanto entre os gaúchos quanto no Estado do Rio de Janeiro, onde, somados interior, capital e periferia, nosso partido foi o que mais votos recebeu.
VS - O presidente Fernando Henrique Cardoso assumiu proclamando o fim da Era Vargas. Esta declaração acontece 40 anos depois da morte do saudoso Presidente Getúlio Vargas. FHC estaria realmente disposto a fazer o que sequer a ditadura ousou conseguir nos longos anos do autoritarismo?
Brizola - Como disse ao responder sua primeira pergunta, quase tudo o que existe neste País como direitos sociais e como afirmação de soberania, traz a marca do trabalhismo e, consequentemente, de Vargas. Nesse sentido, é coerente e até emblemático que o atual Presidente tenha escolhido a expressão Era Vargas para simbolizar aquilo que ele pretendia destruir na sua administração. Porque a obra do presidente Fernando Henrique Cardoso não tem sido outra senão a da destruição. É um governo que não constrói escolas, hospitais, estradas. Nem mesmo o que encontrou está mantendo em condições dignas, o que, aliás, já provocou a demissão do Doutor Jatene. O pretexto da estabilidade econômica serve como justificativa para tudo. Veja como promovem esta verdadeira destruição de direitos do trabalhador, do aposentado, do servidor público. Em lugar do que faz todo o mundo desenvolvido, não se fala aqui em melhorar salários, aumentar garantias do trabalhador e do idoso, mas em diminuí-los e se estimula o desemprego para que, cada vez mais ameaçados, os trabalhadores não reajam! No campo econômico, faz-se a mesma obra demolidora: em lugar de dar eficiência aos serviços públicos, procuram destruir aquilo que vem dando certo. Veja, por exemplo, o tratamento que deram e dão à agricultura e à agroindústria. Nem se importam se vai haver quebradeira no campo, se produtores deixarão a terra nua, se faltará emprego para os trabalhadores rurais. Querem é destruir aquilo que dá certo e afirma nossas possibilidades de soberania, como é o caso da Petrobrás - que quebra recorde após recorde de produção - ou então doar a verdadeira mina de ouro que é a Vale do Rio Doce, algo tão absurdo que vem conseguindo reunir até mesmo os setores conservadores que possuem algum patriotismo. Respondendo diretamente à sua pergunta: sim, Fernando Henrique Cardoso está fazendo o que o autoritarismo e governos conservadores não tiveram coragem de fazer, porque a nação se insurgiria contra eles. Ele usa o seu passado e a roupagem democrática de que foi investido para prestar-se a este papel, o de impor uma ditadura do poder econômico.
VS- Em seu pronunciamento no XX Congresso da Internacional Socialista, realizado em Nova Iorque no mês de setembro, o senhor combateu duramente a política econômica do Brasil. Que iniciativas seriam viáveis para reverter a gigantesca onda de desemprego que assola países como a Argentina e o Brasil?
Brizola - A política econômica não é do Brasil, é no Brasil. Esta é a receita que os centros econômicos nos impõem, em seu próprio benefício e por intermédio de uma elite pretensiosa e tola, que produz governantes como o que temos aqui, ou Ménem, na Argentina e outros pela América Latina. Nada tem a ver com o processo de crescimento dos chamados tigres asiáticos, como argumentam. Lá, eles formaram a base do desenvolvimento com três pilares sólidos: educação, emprego e produção de alimentos. Não há progresso com ignorância, desemprego e fome e este governo não só não os combate como os está agravando. Veja: não há um projeto educacional em curso; não se dá o mínimo apoio à agricultura e, quanto ao emprego, a política oficial é a de patrocinar as demissões, seja no serviço público seja no setor privado, como nesta decisão absurda de abolir as indenizações nas dispensas sem justa causa.
VS - Entre outras atividades, a Internacional Socialista também se ocupa do esforço em busca de democratizar os meios de comunicação, notadamente nos Países do Terceiro Mundo, nos quais as ditaduras das armas deram lugar a ditaduras psicológicas praticadas através de choques eletrônicos da mídia ....
Brizola - Os avanços tecnológicos, ainda que sejam um bem pertencente a toda a sociedade, ao longo da história, durante algum tempo, acabam por funcionar como instrumentos de dominação. Foi assim com a navegação, há 300 ou 400 anos, foi assim com as máquinas industriais, no final do século passado e no início deste, como é assim agora, com os meios eletrônicos de comunicação. Estes progressos, antes de se converterem em fatores de promoção do bem comum e do progresso geral das sociedades, foram usados para a sua dominação. Não há dúvida que, mais importante que o controle físico dos cidadãos , que as armas permitem, é o controle das mentes, que os meios de comunicação ensejam.
VS - O que faz a Internacional Socialista para contrapor-se a esses sistemas de dominação?
Brizola - A ação da Internacional Socialista quanto à democratização dos meios de comunicação tem ficado muito aquém do necessário, ainda que seus dirigentes denunciem este processo e, nos governos que se exerceram sob sua responsabilidade, tenham dado exemplos práticos de que é possível tornar público de democrático o controle da mídia eletrônica. Perante o mundo, o quadro avassalador de monopólio e controle dos meios eletrônicos de comunicação que temos em nosso País constitui-se num escândalo. Representa uma verdadeira opressão sobre o povo brasileiro e uma violação dos processos democráticos de formação da opinião pública. Mas o processo social é como um rio que desce uma vertente. Ora é mais rápido, ora é um caudal, esbarra em obstáculo aparentemente intransponíveis, mergulha na terra aqui, para ressurgir mais adiante, e apesar de tudo segue em frente, sem que possamos ter a pretensão de dirigi-lo. O povo brasileiro, não importa quantas vezes tentem represá-lo, sempre encontrará uma maneira de seguir em busca da justiça e da felicidade a que tem direito. O nosso papel é estar sempre ao seu lado.