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|Agenda|Partido|Brizola|Jango|Getúlio|Governo FHC|Parlamentares|Darcy|Programa|Juventude| Brizola denunciou o Cruzado - O primeiro plano eleitoreiro (1986) (Trechos do livro "Brizola Tinha Razão", do jornalista FC Leite Filho) A fala na TV
Na noite de 06 de março de 1986, quinta-feira, o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, foi ao rádio e á televisão, em cadeia nacional, para fazer uma denúncia: "o Plano Cruzado - cravou - constitui uma imprudência que, fatalmente, levará o país ao caos econômico e à miséria social. Os mais prejudicados serão os assalariados, os produtores agrícolas e os pequenos e médios empresários". Durante 35 minutos do programa do PDT, de uma hora, no horário garantido pela Justiça Eleitoral, Brizola disse que apoiava a decisão sobre o congelamento de preços, entre outras medidas ali incluídas, que considerou positivas. Fez, porém, duras críticas ao pacote, que acusou, no todo, de enganador e de confiscar os salários dos trabalhadores, concentrar ainda mais a renda e só beneficiar os grandes grupos econômico-financeiros - nacionais e estrangeiros. O novo e mais ruidoso pacote econômico da "Nova República, denominado Plano de "Inflação Zero", tinha apenas seis dias de decretado. Seu efeito foi o de um terremoto, sacudindo todo o país. Um portentoso esquema publicitário jogou o povo na rua para aplaudir o congelamento de preços, pedra-de-toque do Plano, que se pretendia de estabilidade econômica. Homens e mulheres eram insuflados a fechar lojas e supermercados, e denunciar à pol¡cia, em nome do Presidente Sarney, os empregados que remarcassem os preços. Entravam em ação os "fiscais do Sarney", estranhos personagens que surgiram com a mesma rapidez com que se evadiram. Mais precisamente, enquanto durou o logro da "Inflação Zero". A Rede Globo de Televisão comandava o espetáculo com seu estonteante aparato eletrônico e seu avassalador monopólio da televisão, estribado numa audiência de 80 milhões de pessoas, espalhadas pelo país inteiro. Toda a programação era dirigida para sugerir um paraíso dourado de inflação inexistente, preços inalterados, aumento real dos salários e desenvolvimento perene. Intoxicado, o povo foi ver Brizola dizer algumas duras verdades pela TV, naquela noite. Não se convenceu logo do que ouviu, mas ficou atento o bastante para dar razão ao Governador, quando tudo desmoronou em dez meses. Até aquele momento, porém, o país foi tragado pela avassaladora propaganda. E se engajou integralmente na campanha contra a remarcação, seguindo fielmente a receita da Globo: tabelinha da Sunab na mão e, logo sentindo os efeitos de sua vigilância com a queda temporária dos preços de alguns produtos, embrenhou-se na luta pelo que o governo alardeava ser "a defesa de seus direitos de cidadão". O entusiasmo beirava a histeria. Sem perder um lance das reações ao show que ela própria montou, a TV Globo reproduzia cenas de euforia explícita. Gente multando casas comerciais, dando flagrante em empregados de supermercado - em empregados, porque os donos continuavam por cima, participando do Conselho Monetário Nacional, e viriam até a indicar o Ministro da Fazenda. As investidas terminavam sempre com os "fiscais do Sarney" cantando o Hino Nacional e dando "vivas ao Presidente e ao Ministro Funaro", o xerife do pacote. ___________________________ Observadores mais atentos não esqueceram de anotar uma semelhança muito próxima daquelas cenas com o delírio coletivo dos argentinos no episódio da invasão das Ilhas Malvinas, tão bem retratado pela TV, quatro anos antes. O general Leopoldo Fortunato Galtieri, ditador da Argentina, querendo salvar seu governo e o regime militar, então em agonia, desfechou um golpe de propaganda: mandou as tropas tomar de volta aquelas distantes ilhas no Atlântico Sul, que estavam sob o domínio britânico há mais de um século. Como os argentinos, que foram às ruas saudar o novo "redentor" e até há pouco vil Galtieri, os brasileiros saíram de casa para aclamar seu novo herói José Sarney, cuja associação com os militares datava de pouco mais de um ano, como presidente do PDS, o partido da ditadura que precedeu a "Nova República". O desastre argentino, com a derrota que se seguiu na guerra com os ingleses, se reproduziria no Brasil de forma não cruenta, mas penosamente mais demorada e cortante. Se a guerra das Malvinas, custou dois meses e 13 dias aos argentinos, a "guerra do cruzado" consumiria aos brasileiros nove longos meses e 21 dias. Com ela, a dilapidação das suas reservas, a liquidação da poupança nacional, bilhões de dólares na importação de alimentos deteriorados e produtos supérfluos, a desestruturação de seu processo produtivo, a recessão, o desemprego e o maior arrocho salarial de todos os tempos. O Cruzado impôs ao país o custo de sua completa desorganização econômica, o descontrole social e um descalabro administrativo que jogou o país num abismo de incertezas, frustrações e absoluta falta de perspectivas. Meio milhão de micros, pequenos e médios empresários, um setor que produz 1/5 de toda a riqueza do país, foi à falência. E isto porque atendeu à convocação do governo de produzir mais. A agricultura ficou desmantelada, o sistema de fiscalização desmontado; os salários desceram ao fundo do poço, a ponto do salário mínimo beirar os 30 dólares mensais. A miséria, que já era grande, desembestou, espraiando sua devastação no campo e na cidade, exacerbando a violência e o caos econômico e social. O "golpe do Cruzado", contudo, só foi mesmo sentido pela população a partir de 21 de novembro de 1986, seis dias depois da eleição, quando o governo já estava seguro da maioria esmagadora dos votos ainda em processo de apuração, que obtivera nas urnas. Naquele dia, o presidente Sarney baixou o pacote denominado Plano Cruzado II, terminando de vez com a farsa do congelamento de preços, - de preços, porque o congelamento de salários continuaria - e que empurrou com a barriga até o dia do pleito. E impôs a maior alta no custo de vida que o país já presenciara. Os aluguéis aumentaram 710% num período de seis meses; as passagens dos ônibus urbanos, 530% em São Paulo e 450% nas outras capitais; de janeiro até junho de 1987, o leite subiu 436%; o pãozinho francês, 205%; as passagens aéreas, 293%; e tudo isto contra um índice oficial de inflação de 126,8% e um reajuste salarial de 144%. Os juros, por sua vez, caminhavam para a estratosfera, chegando a quase 50%. Não importava que o povo tivesse acabado de dar a maior vitória eleitoral a um governo. O PMDB e o PFL, constituindo a Aliança Democrática que apoiava o presidente, elegeram a totalidade dos 23 governadores e mais de 90% das Assembléias Legislativas, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A oposição foi quase dizimada e o país se encontrou novamente diante do unanimismo, agora civil. A Arena (Aliança Renovadora Nacional) de Médici passou a se chamar Aliança Democrática de Sarney. ___________________________ O povo recebeu o mais recente dos pacotes do chamado governo de transição como uma punhalada pelas costas. Mas só foi depois dele, e ainda sem se recuperar da violência do golpe do Cruzado II, que as pessoas começaram a dar sinais de consciência efetiva de que tinham sido logradas. Nas ruas do Rio de janeiro, São Paulo, Bras¡lia, Porto Alegre e outras grandes cidades do país, começaram a circular nas conversas do povo e nas pixações dos muros desabafos do tipo "Votou neles? Agora aguenta!" e "Brizola tinha razão!" Antes disto, o país ficara anestesiado pela injeção publicitária, com uma inoculação tão profunda, que conseguiu amortecer os sinais mais evidentes, que se projetavam por toda parte, de fracasso do pacote. Os sintomas, na verdade, começaram a se manifestar logo no fim do mês de vigência do congelamento. Houve falta de produtos essenciais e começou a prosperar um implacável mercado negro, que tomaria todo o cenário dali para a frente e liquidaria, pouco depois, qualquer veleidade de estabilização econômica. O que mais impressionou nisso tudo foi que a propaganda oficial não engambelou apenas a grande massa, a qual por causa da falta de informação, torna-se presa fácil das manobras mistificadoras. Ela envolveu sobretudo as elites, frente aos intelectuais e o mundo artístico e cultural, a que caberia o dever de zelar pelos interesses dos menos informados. Com apenas onze dias de decretado o pacote, o historiador Hélio Silva, considerado um dos maiores intérpretes de nossa história republicana, inclusive porque viveu grande parte dela, fazia o seguinte julgamento: "O presidente Sarney praticou o único ato revolucionário da História do Brasil, que não um golpe, não um contragolpe, que é realmente uma revolução". "Eu vim ao Rio de Janeiro - contou o historiador - onde ouvi mulheres, donas-de-casa, gente do povo, dizer: "Eu sou fiscal do meu presidente Sarney". Eu nunca vi, em toda a minha vida de observador político, dizerem isso de um presidente. Nem de Vargas no auge de sua popularidade". A atriz Sônia Braga, que estava no Brasil advinda dos Estados Unidos, onde fixara moradia para lançar o seu mais recente filme ("O Beijo da Mulher Aranha"), não resistiu à empolgação e foi á Brasília dar "um beijo de agradecimento" no ministro Dilson Funaro", o executor do pacote. Sônia Braga disse, depois de uma conversa de 15 minutos com o seu "ídolo", numa cena devidamente filmada e reproduzida para todo o Brasil pela TV Globo: "Ele é um gato, elegantérrimo! Um gato, porque representa a energia das mudanças. Elegantérrimo, porque é uma pessoa delicada e compreende os sentimentos dos outros". Mas se se releva o exagero do historiador e o deslumbramento da atriz, que podem ser debitados na conta do calor do momento, não se pode compreender a conduta de Jorge Amado, nosso maior romancista vivo. Ele escreveu, num artigo especial para a revista Veja, de 10 de dezembro de 1986, quando todo o sonho da "Inflação Zero" e do congelamento de preços tinha naufragado com o Cruzado II: "(...) Outro equívoco fatal foi aquele que levou o governador Brizola a colocar as eleições em termos de disputa pessoal entre ele e o Presidente da República, tentando encobrir o sucesso do Plano Cruzado com uma demagogia radical e negativista, ameaçando com as "Diretas Já" para as eleições presidenciais. Ora, o Plano Cruzado teve o maior êxito e fez de José Sarney o mais popular dos presidentes da História da República Brasileira, e a proposta de "Diretas-Já" apareceu perante o povo como prova de ambição pessoal do atual governador do Rio de Janeiro". Quando Jorge Armado escreveu seu artigo para a Veja, o "mais popular dos presidentes" já tinha sido obrigado a recorrer a 8 tanques Urutus do Exército para se deslocar do Palácio do Planalto à Catedral, onde assistia a uma missa. Naquele dia, 27 de novembro de 1986, a massa enfurecida contra o Plano Cruzado II incendiou a Capital Federal, no episódio que ficou conhecido como o "Badernaço de Brasília". A partir dali, o presidente foi impedido de comparecer a locais públicos por recomendação da segurança, que temia manifestações hostis do povo brasileiro. Quando não atendia a esta recomendação, era vaiado e insultado do Rio de Janeiro ao Acre. Hélio Silva, Sônia Braga e Jorge Amado usaram quase as mesmas palavras para expressar seu juízo sobre o Plano Cruzado e o governo Sarney que o banqueiro Amador Aguiar, dono do Bradesco. Amador declarou ao "Jornal do Brasil", edição de 16 de março de 1987: "Nunca vi um movimento como este, de apoio popular às medidas anunciadas pelo governo para combater a inflação. É um fato histórico, mesmo para um homem como eu, que trabalho há 60 anos. Isto, enfim, pode representar o começo de uma importante mudança de mentalidade do brasileiro. Com inflação zero já dá pra gente saber quanto tem no bolso. É o início de uma era em que o trabalho passa a ser mais respeitado, porque as pessoas começaram a ter consciência de quanto realmente elas ganham. Não há mais nada para impedir uma visão precisa da realidade". ___________________________ Tais manifestações podem sugerir muito bem a atmosfera daquele 06 de março, quando Brizola foi à TV. A euforia era evidente, fazia o país trepidar de ponta a ponta. Ainda por cima, os preços caíam a olhos vistos, embora artificialmente; houve um abono de 8% ao salário mínimo; o reajuste de salários, mesmo rebaixado pela metade, foi antecipado; as dívidas e prestações dos bens duráveis diminuiriam, enquanto se prometia congelar as do BNH e os aluguéis. O povo estava no auge da empolgação. Mesmo assim, Leonel Brizola sentiu de seu dever alertar o país para o que estava se passando. O senso de estadista lhe indicava que deveria arrostar as incompreensões, mesmo se elas viessem deliberadamente fabricadas ou superestimadas, como acabou acontecendo. O governador tinha ciência de que não seria bem compreendido naquela noite. Mais ainda, sabia dos riscos que corria fazendo aquele pronunciamento diante da reação da máquina oficial e da mídia. Elas foram logo acionadas para tentar desmoralizá-lo e mesmo execrá-lo junto à opinião pública. Praticamente todo mundo, desde a direita mais truculenta à esquerda mais carbonária, passando pelos intelectuais de todos os matizes, aplaudiram o pacote como a maior revolução de nossa história e a verdadeira salvação da Pátria. Só Brizola denunciava. Nem mesmo os Partidos Comunistas, nas suas múltiplas tendências, ou o Partido dos Trabalhadores, que como partidos marxistas e trabalhistas têm compromissos a zelar pelo salário e o bem-estar dos trabalhadores, ousaram questionar o plano do governo. ___________________________ Os comunistas foram unânimes na aprovação e até à louvação do pacote. Foram inclusive ao Palácio bater palmas e abraçar o presidente Sarney, na solenidade de lançamento do Plano "Inflação Zero". O PT, por sua vez, que também teve a oportunidade de ocupar, na ocasião, uma cadeia de rádio e TV, encheu-se de dedos. No máximo, se permitiu a algumas "piadinhas" irônicas sobre o pacote. Desprezando as conveniências do momento, e preocupado em preservar o país dos efeitos de um ato insano, o governador decidiu denunciar à Nação a farsa, e preveni-la quanto aos resultados desastrosos daquele verdadeiro salto no escuro. Ele fez como De Gaulle, que em 1940 abandonou a França para lutar pela salvação de seu país, então assolado pelo colaboracionismo alemão. De Gaulle largou atrás de si uma sentença de morte. Leonel Brizola, uma ameaça de destruição política. Nenhum dos dois estadistas deixou de cumprir, contudo, o papel histórico de alertar seu povo naqueles graves momentos, que só os verdadeiros líderes sabem divisar. Brizola tinha noção perfeita e acabada de que, com aquela denúncia, faria desabar sobre si o colaboracionismo oficial, que era estupendo, quase absoluto, no Brasil do Cruzado. Que sua campanha de candidato à Presidência estava ameaçada de sofrer um sério revés. Com efeito, naquele exato momento, o oficialismo começou a armar para esmagá-lo. O objetivo era impedir-lhe de fazer o sucessor no Rio e eleger os correligionários do partido nos outros Estados, na eleição que se seguiria a 15 de novembro. Sem se deixar perturbar, o governador do Rio de Janeiro foi direto ao ataque do plano de "Inflação Zero", por considerá-lo, antes de mais nada, lesivo a 95% dos trabalhadores, e só beneficiar ao grande capital nacional e estrangeiro. Brizola foi ainda mais longe: convocou seu partido, o PDT, a "assumir uma posição", pois como observou, "se permitirmos isso, se não estivermos ao lado do trabalhadores, melhor fecharmos o Partido, porque somos inúteis". Esta ousadia lhe custaria um preço alto. Governo, establishment e mídia uniram-se para fritá-lo. Começaram por vedar-lhe o acesso aos meios de comunicação, sobretudo à televisão, a qual não mais teria acesso dali em diante, fosse na campanha eleitoral ou no horário comercial. Foi censurado na televisão e nos jornais. Chegou ao absurdo de se proibir que ele aparecesse em pôsteres colocados no Rio de Janeiro, ou seja, no Estado em que era governador eleito pelo voto direto. A repercussão do pronunciamento de 06 de março, por exemplo, foi minimizada em todos os jornais e televisões de São Paulo. No Rio, o exíguo espaço que mereceu só comportou as críticas e os ataques mais virulentos que lhe fez o oficialismo, sem que lhe assegurasse qualquer tipo de defesa. No resto do país, o tratamento não foi diferente. Mas a grande ofensiva contra Leonel Brizola estava preparada para a campanha eleitoral. Toda a grande imprensa, os Institutos de Pesquisas, as multinacionais e o capital financeiro foram mobilizados para, em uma "santa aliança", esquartejar os candidatos do PDT no Rio e em outros Estados. ___________________________ Numa das campanhas mais corrompidas da história da República, a de 1986, Governo Federal e establishmnent atuaram juntos para manipular as pesquisas eleitorais, favorecer os candidatos oficiais e bombardear os oposicionistas, em frente os brizolistas. O acesso de Brizola à televisão foi vedado durante a campanha, numa acintosa violação à legislação. Todo o oficialismo temia o poder de persuação do Governador e passava por cima de qualquer lei, para que não aparecesse na TV um segundo sequer, negando-lhe mesmo o direito de resposta. Mesmo assim, o descaramento oficial exalta até hoje a eleição de 86 como a "mais livre e democrática do Brasil". O engodo, que de tão bem urdido, foi engolido inclusive pela imprensa internacional, não levou em conta um fato elementar: a cassação nos meios de comunicação do principal líder oposicionista. Era como se na Inglaterra o governo da primeira-ministra Thatcher proibisse o Líder Trabalhista Neil Kinnock de ir à TV, ou nos EUA o presidente Ronald Reagan pressionasse aos meios de comunicação a não falar das atividades do senador Edward Kennedy. E que dizer da escamoteação vergonhosa e sistemática das pesquisas, as quais mesmo antes do início da campanha condicionaram com índices claramente manipulados, os eleitores e os cabos eleitorais a se alinharem com os candidados do governo. Em que país democrático do mundo tais práticas são permitidas? O escândalo eleitoral será examinado em profundidade mais adiante. Por enquanto, vamos nos ater ao que Brizola falou à TV naquele 06 de março de 1986, e verificar por que suas palavras ganham hoje tanta atualidade e dimensão histórica. Mas o que disse Leonel Brizola de tão tonitruante naquela noite? Ele disse que o chamado plano de "Inflação Zero" constituía uma aventura, uma imprudência, cujos resultados desastrosos, como previa, seriam inevitavelmente debitados na conta dos trabalhadores, sobretudo dos mais pobres, dos produtores rurais e dos pequenos e médios empresários. Brizola calculou que de 95% a 98% dos assalariados seriam atingidos pela nova e sofisticada forma de arrocho salarial que acreditava estar sendo implantada pelo pacote: "Vão perder algo equivalente ao que o Brasil paga, por ano, pela dívida externa". Ressaltou que o maior beneficiário seria o grande capital, representado no Brasil pelos oligopólios industriais e financeiros, tanto nacionais como estrangeiros. Ele partia da premissa de que o pacote não alterava o modelo econômico, que ficava, a seu ver, até fortalecido com as novas medidas. A resposta imediata da população ao apelo para fiscalizar os preços deixou o Governo estonteado. O congelamento de preços que estava previsto pelo Pacote 2 para durar no máximo três meses foi prolongado indefinidamente. Este fator, ao lado do desmantelo de todas as opções do pequeno e médio investidor - caderneta de poupança, open market, Bolsa, CDBs, overnight etc - detonou uma violenta febre de consumo. Toda a poupança nacional foi então desviada, por absoluta falta de opção, para a compra de produtos supérfluos como roupas luxuosas, carros, televisores e bebidas estrangeiras. O consumo atingiu assim proporções alarmantes, a ponto de desorganizar a economia e provocar um desabastecimento generalizado, que ia do Oiapoque ao Chuí. Tal situação levou a um reaquecimento artificial da economia, disfarçando momentaneamente a perda salarial prevista por Leonel Brizola. O ágio e as outras conseqüências naturais do desabastecimento, como a alta artificial dos produtos de maior necessidade, encarregaram-se de comer aquele suposto ganho real do trabalhador. Esta perda, porém, foi sentida de forma brutal quando o governo tirou o disfarce do congelamento e a taxa inflacionária, pulou, sucessivamente, de "Zero" para 100, 500, 1.000, 2.000%. O mercado requentado alimentava a publicidade oficial, que propalava ganhos reais de salários e aumento da oferta de empregos, quando na verdade a renda do trabalhador e a economia caminhavam para a bancarrota, sem qualquer perspectiva de recuperação. O país havia embarcado para o desconhecido. Aos trancos e barrancos, o governo levou o congelamento até a eleição de 1986, em 15 de novembro. Mas não esperou sequer que as urnas abrissem de todo para mandar o congelamento de preços para o espaço - apenas dos preços, porque o congelamento dos salários continuou impiedoso, voraz. Como os votos já estavam depositados, não havia pressa em atender ao povo. ___________________________ No final, a perda salarial foi ainda maior do que a estimada por Brizola, e como era de se esperar, a conta da farra do Cruzado acabou sendo cobrada aos trabalhadores, sobretudo os de renda mais baixa. Afetou ainda dramaticamente a classe média, que nunca se pauperizou tanto no Brasil como na época pós-Cruzado. Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Sócio-Econômicas), órgão dos sindicatos responsável pela aferição dos preços, os salários foram aviltados no primeiro ano do Cruzado em pelo menos 40%. Diz o relatório do órgão, divulgado em abril de 1987, que a correção dos salários pela média dos 6 meses anteriores ao Cruzado, mais 8% de abono (15% no caso do salário mínimo), fez com que "a remuneração do trabalhador fosse eleita como perdedora no processo inflacionário". Mais tarde, o "Jornal do Brasil" anunciava na primeira página, edição de 20 de setembro de 87, que "de março de 1986 ao fim do Plano Cruzado, a novembro próximo, já no Plano Bresser, o trabalhador teria perdido em média 47% de seu salário". Valia-se o jornal carioca de um estudo realizado pela empresa de consultoria MBE, de Luís Carlos Mendonça de Barros e Ibrahim Eris (ambos assessores do ex-ministro Dilson Funaro). A mesma notícia do JB adiantava: "Na conta do DIEESE, só para reaver o poder aquisitivo de fevereiro de 86, o assalariado deveria ter reajuste de 93,1% neste mês". O governador do Rio de Janeiro, proibido de aparecer na TV Globo desde que assumiu o Palácio Guanabara, a 15 de março de 1983, preocupou-se também em advertir quanto à gigantesca publicidade que a mídia eletrônica conduzia em nome do Governo, e que tinha efeito instantâneo junto á população. "Nós não devemos nos impressionar - destacou - com esta onda publicitária que está aí. Isto contém finalmente o propósito de levar o povo brasileiro por diante, de afetar e eliminar o ambiente saudável de exame sereno e discussão do evento". Lembrou que em 1964, quando se instalou o regime militar, fizera-se estardalhaço parecido. Congelaram os preços e prenderam gente, mas o congelamento de preços só durou até a consolidação da ditadura, ou seja, uns poucos dias. Os aumentos voltaram depois ainda mais avassaladores. Mas foi para o pacote de 65, coordenado pelo então ministro Roberto Campos, responsável maior pela economia, que Brizola chamou mais a atenção. Naquela ocasião, o Cruzeiro virou Cruzeiro Novo. Brizola identificou neste pacote "um parentesco muito suspeito" com o Plano de "Inflação Zero". Nas medidas de 86 - lembrou - também se repetira o recurso ao congelamento de preços com todos os apetrechos de tabelamento, fiscalização etc. "E naquela época - acentuou - não demorou muito, comeram a estabalidade do trabalhador do povo. A seguir, aplicaram o arrocho salarial." Pior de tudo, segundo Brizola, "são os resultados daquilo que veio a ser o famoso Pacotão do regime do Sr. Roberto Campos. Levaram o país a isto, a esta inflação vergonhosa. A um endividamento incompreensível. Como um país como o nosso foi cair nessa? Dever deste jeito e nas condições que passou a dever? Abriram para os grandes grupos internacionais, concentraram a renda". |Início| |Página de Apresentação| |
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