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Brizola - Confronto com a mídia

UMA QUESTÃO DE COERÊNCIA
Leonel Brizola
Artigo publicado no Jornal "Folha de S. Paulo", seção Opinião, 30.01.01

Leia o Editorial da Folha de São Paulo

O discurso de Miro Teixeira

Li, surpreso, o editorial "O ocaso do PDT", publicado ontem. É a Folha, com certa morbidez, posicionando-se contra um Partido Político.

Os preconceitos e a indisposição contra mim e contra o trabalhismo, tão comuns a certos pensamentos elitistas, não me chamaram a atenção. Os anos que enfrentei de perseguição e preconceito, logo eu, que jamais pratiquei atos contra quem quer que fosse e que nunca ocupei cargos senão por escolha popular, calejaram-me quanto a esse tipo de incompreensão.

O que me causou espanto foi, isso sim, o primarismo da análise de um jornal tão capacitado a compreender a força e o jogo do poder. O "aggiornamento" à esquerda do trabalhismo varguista, ao qual o editorialista corretamente se refere como sendo objetivo do nosso PDT, é, em nossos tempos, um inimigo jurado de morte pelo neoliberalismo.

A confissão de Fernando Henrique Cardoso em seu discurso de posse, afirmando que sepultar a "Era Vargas" seria o seu propósito de governo, talvez tenha sido sua expressão mais sincera e a única meta que realmente tenha perseguido sem descanso.

As defecções em nosso partido, longe de serem causadas por razões de pureza ideológica, estão – para quem quiser ver e, ao que parece, a Folha não quis ver – eivadas do vício terrível do governismo que assola os políticos brasileiros.

No Rio de Janeiro, há um governante que se elegeu por um partido e uma aliança aos quais, descaradamente, traiu, para aliar-se a um esquema de poder e eleitoralismo em conluio com o PFL e o PMDB. Utilizou-se das práticas mais condenáveis e de um verdadeiro esquema de solapamento, que incluiu a exploração da fé religiosa, para falar o menos. O governador do Rio sabotou, intrigou e manipulou tanto quanto pôde não apenas o PDT, mas outras forças políticas que o apoiaram. De tal maneira que eu próprio tive de me submeter a uma candidatura que visava, acima de tudo, a deixar claro para a população a traição política de um governante sem ética e sem compromissos com idéias.

Saiu do nosso partido arrastando uma legião de nomeados, dependentes e beneficiários, que tinham o "Diário Oficial" como programa partidário, negociando por meses quem lhes hospedasse ambições. E vimos, com tristeza, nosso aliado histórico, o PSB, recolher essa figura, que grupos daquele partido fizeram descer praticamente goela abaixo de suas mais representativas lideranças nacionais.

No Rio Grande do Sul, terão sido diferentes as razões? Deu-se a Folha ao trabalho de considerar que as figuras mais expressivas dessa "dissidência" deixaram o partido para continuar nos cargos do governo do PT nos quais o próprio PDT os colocara como representantes? Não terão muitos aderido ao governo, antes de terem aderido ao PT? Ou por que o governo é petista, passa o governismo a ser considerado mérito ideológico? A senadora emília Fernandes, que provém do PTB, a dois anos de ser levada a enfrentar as urnas, está agindo por purismos ideológicos? A que "subserviência e medo" ela se refere, se insistiu em ser candidata – e o foi – ao governo em 1998, quando eu próprio trabalhava por uma chapa com o PT?

Quanto ao meu filho, escuso-me a comentar o destaque político que lhe dão exclusivamente pelo sobrenome que carrega, deixando que as pessoas de boa índole examinem o comportamento moral de quem se vale disso.

Não me incomodaria em carregar, se necessário, sozinho o estandarte da coerência política e do que representa o trabalhismo como fio condutor de 50 anos de lutas sociais do povo brasileiro. Já passei por situações muito piores, quando não apenas eu, mas meu próprio nome, esteve banido deste país pela ditadura da força. Não é o caso, porém.

Há mais dignidade não apenas no nosso partido, mas também na população, do que supõem os oportunistas que – á direita e à esquerda – vêem na política apenas a arte de se beneficiarem do voto e dos sofrimentos do povo brasileiro.

 

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