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Brizola - Confronto com a mídia

As muitas "mortes" de Leonel Brizola
José Maria Rabelo
Artigo para o Jornal do Brasil, dezembro de 1992

Cada cabeça uma sentença

Matador Ano Sentença
Assis Chateubriand  1964 O populismo está morto e leva Brizola no caixão
Gal. Euclides Figueiredo 1982  Brizola é um sapo que a gente engole e depois expele
Newton Cardoso 1986  Brizola é uma vela que está se apagando
Enterradores de plantão 1989  Brizola chegou ao fim
Roberto Marinho 1992  O fim de Brizola
Coveiros de sempre 1994  Brizola acabou de vez
Revista "Veja" 2001 É reconhecida sua capacidade de reviver após a decretação de sua morte política

Em 1945, com o golpe que o afastou do poder, Vargas foi dado como morto politicamente por muitos de seus adversários. No mesmo ano, entretanto, elegia Dutra Presidente da República e ele próprio voltaria à Presidência nas eleições de 1954, seu partido – o antigo PTB – ajudaria a eleger Juscelino em 1955 e faria de João Goulart o vice-presidente, cargo que voltaria a conquista em 1960.

Desaparecido há quase 40 anos, Vargas continua presente como uma das referências mais fortes da vida política brasileira.

Com Brizola não tem sido diferente. Pitonisas e carpideira de todos os tipos e marcas há mais de 30 anos anunciam sua morte política. Basta um revés eleitoral, e pronto: é o fim de Brizola. Aliás, foi exatamente este esse o título de um artigo de primeira página de O Globo, de 7 de novembro último (1992), reproduzindo o pensamento de seu proprietário, Roberto Marinho. No momento em que o PDT surge das eleições como um dos maiores vitoriosos, triplicando praticamente o número de prefeitos e vereadores e alcançando uma implantação nacional que nunca tivera, não passa de pura e cínica escamoteação da realidade dos fatos pretender sustentar o declínio de quem é o principal criador do partido e sua mais destacada personalidade. Mas o Sr. Roberto Marinho não é o primeiro e nem será o último enterrador de Brizola. Em 1964, quando os golpistas destruíram a democracia brasileira e estabeleceram no país a fase mais retrógrada e obscura de nossa história, o Sr. Assis Chateaubriand, que era o Marinho da época, e com as mesmas certezas, escrevia em sua cadeia de jornais

"O populismo está morto e enterrado e leva no caixão o agitador Brizola". Não é preciso dizer que os fatos passaram muito longe dos agouros do profeta e Brizola retornaria ao país, apesar do longuíssimo exílio, como a sua mais importante liderança popular.

Aconteceria mais tarde a perda de nossa antiga e histórica legenda. Por obra de um complô palaciano, articulado por Golbery e pelos órgãos de segurança, a sigla do PTB foi entregue a um grupo de serviçais da ditadura, sem nenhum compromisso com as idéias de Vargas e do Trabalhismo, destituído de seu símbolo-maior, o próprio nome do Partido, não foram poucos os que viram naquele episódio mais um fim de Brizola.

Um ano depois, superando todas as aramadilhas montadas pelo Poder, e já com o PDT, Brizola era eleito governador do Estado do Rio. E mesmo na vitória, não faltou mais um enterrador. Sugerindo que Brizola não concluiria seu mandato, o general Euclides Figueiredo, irmão do então Presidente da República, pronunciou seu édito particular: "Brizoa é um sapo, que a gente engole e expele no momento oportuno".

Os fatos ocoreram de maneira muito diferente e quem acabou sendo expelido foi o general falastrão.

A impostura do Plano Cruzado, em 86, deu a vitória ao PMDB em praticamente todo o país. Mas, para a direita, o único derrotado tinha sido Brizola, porque não conseguiu eleger seu sucesor. O Sr. Newton Cardoso, deixando por um instante seus negócios nebulosos à frente do governo de Minas, apresentou-se como o enterrador de plantão: "O Brizola é uma vela se apagando", declarou à revista Veja - com certeza de todos os entendedores. No ano seguinte, Brizola elege o prefeito do Rio e o sucessor deste, em 1988.

Porém, havia pela frente outras mortes programadas. A primeira veio nas eleições presidenciais. Coma a derrota, os enterradores retomaram sua ladainha fúnebre: Brizola chegou ao fim. Um ano depois, tiveram a resposta: ele voltava ao governo do Rio com mais de 60% dos votos. O próprio analisou os resultados das últimas eleições e não pode esconder, apesar de toda a má vontade: o PDT é o terceiro maior partido brasileiro e um dos que mais aumentaram as sua base nacionais. (*)

È evidente que, entre muitas vitórias sofremos a derrota do Rio, que nos amargurou profundamente, embora o PDT tenha crescido em todo o Estado e seja a maior legenda da capital.

Nesta campanha permanente contra Brizola, existe um fio invisível que une, com sua lógica implacável, os Marinhos de ontem e de hoje , o ex-governador corrupto e o militar cascateiro, e todos os demais enterradores, e por detrás deles os grande privilégios dominantes do país, de que são simples porta-vozes.

Diz um provérbio chinês que os desejos e os perfumes a gente pode usar à vontade. Só que entre os desejos e a realidade, apesar da teimosia das carpideiras e pitonisas, há uma distância insuperável. A mesma que separa os interesses das oligarquias dos interesses do povo brasileiro.

José Maria Rabelo é jornalista membro do Diretório Nacional
e do Conselho de Ética do PDT

(*) Em 1998, Brizola "ressuscita" mais uma vez e elege no Rio de Janeiro o Governador, o Senador e grande bancada da esquerda no Congresso Nacional. Ele derrota de cambulhada Marcello Alencar, César Maia, Roberto Campos e toda mídia carioca.

 

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