Uma nova saudação às armas?

A “corrente da felicidade” das finanças arrebentou-se. E agora? A quem salvar?

As autoridades americanas apontaram para os mesmos condutores da corrente. Salvem-se os bancos e todos estaremos salvos. Mais dinheiro para os “líderes” que fazem os elos se moverem. Mas espera aí? Não era o mercado e o mercado não é a dinâmica das individualidades, das privacidades decidindo suas vidas materiais em tal escala que todos ficam satisfeitos? Como somos todos humanos em permanente necessidade, necessitamos as mesmas coisas de modo que a cada decisão de adquirir a minha necessidade implica na satisfação da necessidade do outro. Isso não é a própria dinâmica do capitalismo em que a vida social é a totalidade da dinâmica de cada pessoa que ao tomar suas decisões faz o mundo girar? 

 

Na outra ponta os velhos capitalistas, os inventores do liberalismo, os Ingleses, apontam noutro sentido. Agora os capitalistas dos bancos precisam de capitais e estes virão pelas mãos coletivas do Estado. Uma escola poderá não ter sua manutenção feita. A indústria de automóveis não terá solicitações. Um novo produto de saúde não entrará neste ano. Adiam-se investimentos sociais para investir capitais nos negócios bancários. O Estado os recuperará mais adiante? Os bancos ingleses estão passando por um processo de semi-estatização.

 

De qualquer um dos modelos, existe uma verdade que não entardece: recursos sociais serão injetados nos negócios privados para que estes não quebrem. A poupança das classes médias, incluindo os fundos de pensões, se encontra em processo de proteção social por parte do Estado. O patrimônio dos grandes investidores está sendo limpo da sujeira especulativa que levou a economia mundial ao sofrimento típico de um milênio em transição.

 

Quando se somam algo em torno de cinco trilhões ou mais de dólares injetados para salvar negócios em quebradeira quase sistêmica em todo o mundo, só neste semestre, uma grande mudança de prioridade está ocorrendo na civilização. Não se trata de uma mera contabilidade de números. Na verdade deixou-se de construir habitações, realizar transportes coletivos, investir em saúde, em proteção ambiental, em equipamentos sociais. Mas seguramente não se interromperá o investimento em armamentos.

 

As guerras nestas situações de transferência de prioridades se tornam a matéria prima de todos os continentes. Como já se dizia, repetindo a análise feita sobre os anos finais da belle epoque, os períodos que encerram os desastres do liberalismo econômico são extremamente cruéis.  

* José do Vale é militante do PDT-RJ