Sinto que não volto mais”, disse Jango ao filho

Ex-deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, João Vicente Fontella Goulart, 50 anos, tem clara na memória a última imagem do pai em vida. Ambos estavam na Inglaterra, onde João Vicente morava com a família por conta do exílio imposto pela ditadura militar. Corria o mês de setembro de 1976. Jango atravessou o oceano para conhecer o neto, que, mesmo sem qualquer atuação política, fora condenado a nascer longe do país natal.

No aeroporto, antes de embarcar de volta para a Argentina, onde vivia, o ex-presidente se aproximou do filho, à época com apenas 19 anos de idade, e afirmou: “Não sei porque, mas sinto que não vou voltar mais”, lembrou João Vicente, sem conseguir conter as lágrimas. Três meses depois, afastado dos filhos (João Vicente e Denise), do neto recém-nascido e do país, o ex-presidente morreu ao lado de sua mulher, Maria Tereza Goulart, em sua estância La Villa, na cidade argentina de Mercedes.

O corpo foi levado para São Borja (RS), sua cidade natal, onde foi sepultado por uma multidão estimada em 30 mil pessoas. O enterro transformou-se em um ato contra a ditadura.
– O que mais me marcou durante todos os anos de exílio foi ver a saudade imensa que meu pai sentia do Brasil, por isso queremos fazer esse resgate e dar a ele o lugar que merece na história do nosso país – sublinhou João Vicente, em entrevista concedida ao DC em um restaurante na Praia de Itaguaçu, parte continental de Florianópolis, na tarde de segunda-feira, 17. Ele estava em companhia dos primos o artista plástico Silvino Barão Goulart e o empresário César Goulart, que moram na Capital.

Recentemente, João Vicente e Denise acionaram a Justiça brasileira em um processo contra o governo dos EUA. Eles acusam os norte-americanos de financiar opositores a Jango, disponibilizando apoio logístico para o golpe de 1964. A família quer indenização pela perseguição dos militares, constantes ameaças de morte e seqüestros, além de outros tipos de violência. Dois ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) já votaram pela continuidade da ação.

Na década de 50, já defendia reforma social

O ex-presidente Jango foi um homem à frente do seu tempo. Filho de um rico fazendeiro, foi o principal discípulo de Getúlio Vargas e sempre defendeu bandeiras como o direito dos trabalhadores e as reformas agrária, tributária, administrativa, bancária e educacional. Em plena Guerra Fria, quando o mundo estava dividido em dois grandes blocos, de um lado os Estados Unidos capitalista e, do outro, a União Soviética comunista, posicionou-se de forma contundente contra o embargo imposto pelos norte-americanos a Cuba, e, a convite pessoal de Mao Tsé-tung, visitou a China em 1961 na condição de vice-presidente da República – gesto que só seria repetido por um chefe de Estado ocidental 10 anos depois, quando o então presidente norte-americano Richard Nixon foi a Pequim.

Nacionalista convicto, Jango pagou um preço alto pelas ações e idéias de vanguarda para a época. Perseguido pelos militares e por setores da direita, que não aceitavam sua aproximação com os ideais do bloco comunista/socialista, teve que recorrer ao exílio para salvar sua própria vida, a família e, principalmente, evitar uma guerra civil no país. E foi no exílio que morreu, no dia 6 de dezembro de 1976, lutando até o último momento para voltar ao Brasil e à vida política. Oficialmente, o ex-presidente foi vítima de um ataque cardíaco enquanto dormia.

Amigo uruguaio denunciou que Jango foi assassinado

Para muitos, porém, ele não teve morte natural, mas sim foi assassinado por grupos ligados à extrema direita, conforme mostrou o DC na edição do dia 14 de maio de 2000. Naquele ano, o empresário uruguaio Henrique Diaz, amigo de Jango, protocolou na Justiça do Departamento (Estado) de Maldonado, no Uruguai, uma denúncia atribuindo a políticos brasileiros a morte do ex-presidente. As suspeitas nunca foram confirmadas ou desmentidas.