Sarney: nem vestal, nem crápula

Chega! Cansei de me segurar! A grande mídia está, há mais de um mês, execrando o Sarney como o pior dos crápulas. Malham-no como a um Judas em praça pública. Desculpem-me todos os maranhenses, inclusive minha mãe, e o Jackson Lago pelo que vou dizer a seguir. Aliás, salvo engano, o Jackson tem se mantido reservado, neste momento, o que faz admirá-lo mais ainda, pois seria tão fácil chutar um cachorro ferido.
 
Sarney está longe de ser uma vestal. Quanto a ser um crápula, não sei se ele chega a estar nesta categoria. Contudo, tenho medo de queimaduras, por isso, não coloco minha mão no fogo por ele. Entretanto, este não é mais um artigo de pichação sobre ele. Por falar nisso, virou esporte nacional falar mal dele. Aquele que escondeu algo do Imposto de Renda, o dono de jornal que recebeu muito dinheiro para veicular matéria para ludibriar a opinião pública, aquele que corrompeu o guarda de trânsito e o guarda que foi corrompido, todos juntos malham o Sarney.
 
Parece que este ato expia as culpas gerais.
 
Este artigo tem a pretensão de tentar recuperar a racionalidade coletiva. Você se propôs a julgar o Sarney? Então, sugiro começar julgando o conjunto de sua obra e só deve julgá-lo dentro do contexto da política brasileira e, não, no contexto da política da Finlândia, que foi escolhida por uma ong internacional como o país menos corrupto. A partir desta informação, passei a imaginar este país como aquele em que uma criancinha chega em casa se esvaindo em lágrimas porque seu colega lhe disse que o pai dele era corrupto. Erradamente, a sociedade brasileira não é, hoje, nem de longe, parecida com a da Finlândia imaginada, o que não justifica nada, mas nos permite entender melhor.
 
Vejamos o conjunto da obra de Sarney. Quando Presidente, pressionado por Ulysses ou não, nomeou Dílson Funaro, Renato Archer, Pedro Simon, Paulo Brossard, Celso Furtado e outros nobres brasileiros para ocuparem Ministérios do seu governo. Com apoio de Ulysses, ajudou o grupo de congressistas sérios que comandaram a elaboração da excelente Constituição de 1988. Aliás, rapidamente desfigurada por um dos seus sucessores. Lançou o Plano Cruzado, uma espécie de precursor do Plano Real, que teve erros, mas era socialmente comprometido.
 
Com a morte abrupta de Tancredo, Sarney manteve, no Ministério inicial, todos Ministros escolhidos pelo outro, o que já demonstra um certo sentimento de nobreza, mesmo que digam que Ulysses foi quem bancou este Ministério e o apoio de Ulysses, à época, era primordial para o governo. Mas, Sarney buscou trabalhar em grupo, inclusive com pessoas que não eram sua escolha de maior preferência. Ele buscou viabilizar o país e, que eu saiba, não era odioso. Não recordo de nenhuma ocorrência de perseguição a sindicalistas, movimentos sociais, funcionários etc.
 
Agora, é verdade que Sarney é provinciano. Ele não escancarou nosso mercado para os produtos e serviços estrangeiros, matando as empresas genuinamente nacionais. Ele não privatizou, desbragadamente, empresas estratégicas, que foram compradas depois do governo dele, em sua grande maioria, por grupos estrangeiros e a preços vis. Não desnacionalizou nosso parque industrial, não desregulamentou a economia e não facilitou o livre trânsito de capitais. Enfim, ele não aplicou nenhum dos princípios do neoliberalismo e não digam que foi por falta de oportunidade, porque princípios neoliberais chegaram ao Chile antes de Sarney assumir a Presidência.
 
Não aceitou assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e não é porque ele é a favor do Brasil ter a bomba. A Constituição foi redigida na época em que ele era Presidente e todos nós sabemos da enorme possibilidade que um Presidente tem de influenciar o legislativo. E, nesta Constituição, tem escrito que o Brasil só utilizará a energia nuclear para fins pacíficos. Sarney não assinou o TNP porque este Tratado divide os países do mundo em duas categorias: os de primeira, que não precisam ser fiscalizados, e os de segunda, que têm que ser fiscalizados. Sarney respeitou os brasileiros, porque não somos um povo de segunda categoria e, assim, ele não assinou o Tratado absurdamente discriminatório. Infelizmente, em outro governo, após o de Sarney, ele foi assinado.
 
A mídia tradicional está batendo pesado no Sarney, o que já nos deixa desconfiados porque ela só bate muito nas pessoas mais compromissadas socialmente. Vejam que querem julgá-lo agora, depois de décadas de atuação pública com uma coerência perfeita. O Sarney de hoje é o mesmo de ontem, o de anteontem e o de sempre, inclusive o de oito anos de suporte do governo Fernando Henrique Cardoso.
 
É normal as pessoas perderem a noção da ordem de grandeza dos fatos. Todos eventuais prejuízos causados por Sarney, se não forem calúnias, não ultrapassam a casa das dezenas de milhões de dólares. Os processos de privatização no Brasil podem ter rendido bilhões de dólares de perda para o país, ou seja, estamos falando de um número 100 vezes maior. Ou seja, o Sarney é, mais uma vez, um provinciano. Mas, a nova Inquisição, esplendidamente desempenhada por nossa mídia tradicional, só vê o “fichinha” Sarney. Os graúdos tubarões não são vistos.
 
No entanto, o melhor Sarney é o de agora, porque está dando governabilidade a um governo em que o número de miseráveis diminuiu, eles estão comendo mais, a concentração de renda diminuiu um pouco, a economia, apesar do tranco mundial, está se comportando bem, o Brasil nunca esteve melhor na área internacional etc. E batem nele. Estranho, não é?
 
Paulo Metri é diretor do Instituto Solidariedade Brasil