Roda Mundo

A constante polêmica sobre a morte em circunstâncias suspeitas do Presidente João Goulart, muito mais do que buscar a elucidação da certeza de um fato típico de operação Condor, traz à tona o principal personagem político da nem tão longínqua década de 60. Semana passada, em revista de grande circulação Nacional, lá estava novamente uma bela foto de Jango na capa, relembrando uma biografia política que aparentemente havia sido sepultada pela Ditadura Militar – ou ao menos assim foi desejado pela repressão, pois Jango, no limitado entendimento de muitos, era “um comunista subversivo que promovia agitações sociais e visava implantar uma república sindicalista no Brasil nos mesmos moldes do que Perón na Argentina.” E com estas enganosas justificativas procuravam cometer um dos maiores atentados contra a nossa a recente história brasileira, qual seja o de querer ludibriar a sabedoria popular da nação.
 
Pobres daqueles que não perceberam que o mundo da voltas, e que as injustiças acabam sendo desmascaradas com o tempo pela própria Lei divina, na ótica dos cidadãos de fé profunda. Olhando a capa daquela revista lembrei-me da letra de uma música de Chico Buarque, que diz: “A gente vai contra a corrente até não poder resistir, na volta do barco é que sente é que sente o quanto deixou de cumprir. Faz tempo que agente cultiva a mais linda roseira que há, mas eis que chega a roda viva e carrega a roseira pra lá”. Muitos patriotas tombaram igualmente a João Goulart dentro de batalhas de proporções desiguais, amparados nas reivindicações de minorias desamparadas, mas com a responsabilidade de perpetuar um legado para o futuro onde a roda viva ressurja com força máxima.
 
O que dizer, por exemplo, do índio Sepé Tiarajú, nascido na redução de São Luiz Gonzaga, que contrariado com o tratado de Madri de 1750 que exigia que milhares de índios guaranis abandonassem a região das Sete Missões, defendeu com máximo ardor aquelas terras. Morreu em combate, gritando “Essa terra tem dono!”, e jamais se intimidou com o fogo das armas de Portugueses e Espanhóis, mesmo tendo apenas flechas para contra-atacar. O bravo índio sucumbiu em combate, mas sua bravura heróica ficou gravada para a eternidade na roda viva que passa pelas gerações que se sucedem.  
 
Jango, missioneiro de São Borja, tem enraizado na sua biografia um pouco desta resistência Guarani, exemplificada na sua luta contra opressão do povo pelas Elites nacionais e internacionais, na luta pela independência econômica do Brasil, na luta pela justiça social, e na luta contra a aquela que é hoje a pior concentração de renda do mundo. Enquanto o Brasil se mantiver como um proletariado externo do mercado internacional, nas palavras do indigenista Darcy Ribeiro, e não houver a resistência necessária para podermos bradar como o índio missioneiro do século XVIII que dizia que “esta terra tem dono!”, a realidade do nosso mundo continuará rodando para pior, pois a miséria, violência, desemprego e tantas mazelas sociais só tendem a aumentar.

Dia 1° de abril, o dia da mentira, tem a marca dos 45 anos do golpe militar-inconstitucional. Refletindo sobre essa data, sobre a realidade política, social e econômica de nosso país, sobre a luta de Sepé Tiarajú, Darcy Ribeiro e meu avô João Goulart, refletindo sobre a letra da música do mestre Chico, concluí meu pensamento com Elis Regina, na música o Bêbado e a equilibrista que diz lá pelas tantas: “a esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar, a esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista tem que continuar”.
 
 
Christopher Goulart é Advogado e neto de do Presidente João Goulart.