Retrocesso mais do que evidente

Mário Augusto Jakobskind

Nem bem o chefe do golpe, Michel Temer, tomou posse na Presidência da República, a mídia conservadora deu uma clara demonstração de subserviência ao esquema montado para que o Brasil seja palco de um tremendo retrocesso. O Globo, por exemplo, chegou a apresentar uma diagramação diferente da habitual, como que exaltando “o novo tempo” que chega. Os editores, na maior cara de pau, ainda destacaram que o governo que assumiu é o da “salvação nacional”.

Cercado de abutres por todos os lados, mais parecendo uma convenção da antiga Arena, o partido político de sustentação da ditadura empresarial militar de 64, Michel Temer foi logo dizendo para deixar de lado a palavra “crise”. Não é preciso nenhuma bola de cristal para verificar que a mídia conservadora, endeusadora do deus mercado, vai mudar de linguagem. Tudo de ruim que acontecer daqui para frente a culpa será da “herança maldita” do governo anterior. E se depender da mídia conservadora não vai ter mais crise.

O Ministério do chefe do golpe é de envergonhar qualquer um que não se deixa envolver pelo falso clima de euforia apresentado pela mídia conservadora, que daqui para frente vai aumentar o tom. O jornal da família Marinho concedeu uma página para que o ex-presidente FHC desse o recado, como se ele fosse uma grande figura, quando na verdade não passa de um ex que está em estado de graça, porque finalmente apareceu alguém como o chefe do golpe Michel Temer prometendo colocar em execução o que não foi conseguido na gestão do atual presidente de honra do PSDB, o partido que se apresenta como social democrata, quando na verdade adotou uma política sempre defendida pela famigerada UDN (União Democrática Nacional) de entrega das riquezas nacionais às finanças internacionais.

Precavido, FHC diz esperar que “o Temer tem que fazer um milagre”, mas avisou que se ele não der certo o seu PSDB “pula fora”. Cardoso está de olho em 2018 e logo de saída avisa que se Temer não der certo a sua agremiação política abandona o barco. O “se não der certo” significa na prática que se ele não conseguir terminar o serviço de entrega do país, leia-se Petrobras, pré-sal, bancos estatais etc em tempo hábil, o PSDB deixará Temer de lado.

Os correligionários de FHC ficaram com o Ministério da Justiça, nas mãos do linha dura Alexandre de Moraes, no Ministério do Exterior, José Serra, e no Ministério das Cidades, Bruno Araújo. O primeiro vai armar a repressão aos movimentos sociais, como fez em São Paulo, o segundo vai tentar trazer de volta a política de subserviência aos Estados Unidos, como acontecia nas duas gestões de FHC. O Ministro Bruno Araújo vai fazer o jogo que mais convier ao esquema tucano, cumprindo apenas o que o poderoso chefão FHC quiser nesta área.

Aliás, vale sempre repetir, a composição do Ministério golpista é uma prova concreta de como será o Brasil nos próximos meses e no restante do mandato caso os senadores confirmem o resultado na votação final do esquema que traz de volta os que enaltecem o deus mercado ao governo brasileiro.

No meio de tudo isso, ainda tem o Ministério da Educação, agora também de Cultura. O deputado Mendonça Filho, do DEM (Democratas) ocupa o posto. Este parlamentar não tem absolutamente nada a ver com a Educação, muito menos com a Cultura. O deputado do DEM pode entender de aves, se é que entende disso, por já ter presidido a Associação Avícola de Pernambuco.

E no meio da mediocridade ululante ministerial, ainda foi dado espaço para o PPS, o partido que reúne ex-comunistas e atuais direitistas, como o próprio Raul Jungman. O ex-Roberto Freire, que fez questão de, segundo denunciam atuais comunistas, entregar os arquivos do antigo PCB à Fundação Roberto Marinho, será um apoiador e certamente em troca de algum poder.

Como se não bastassem esse elementos que confirmam o retrocesso no cenário político e econômico brasileiro, ainda por cima reaparece nas páginas com toda força um medíocre serviçal da ditadura de nome João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro do Planejamento (na época também conhecido como planeja aumento), O Globo deu logo o maior destaque ao referido pelo fato dele afirmar que “o governo deveria deixar as estatais se virarem. Tem tantas… Se algumas morrerem, será um benefício para o país”.

O destaque a Reis Veloso foi dado em matéria que tem como título “Pente-fino nas estatais”, numa demonstração concreta que o novo governo advindo do golpe tem como uma de suas missões principais seguir o programa de FHC, ou seja, doar a preço de banana o que ainda resta das estatais.

No mesmo dia da posse do golpista Temer, o Ministro Gilmar Mendes, determinou a suspensão das investigações contra o Senador Aécio Neves, que é suspeito de participar no esquema de desvio de dinheiro de Furnas. Resta agora aguardar a decisão do Procurador Geral da República. Rodrigo Janot se considera realmente necessária abertura de inquérito.

Se Janot seguir os passos de Mendes, Aécio sairá ileso das acusações, o que poderá ser uma norma no que se refere a outros investigados, seja na Lava Jato ou outra qualquer. No caso, o chefe do golpe que hoje é presidente interino, tudo pode acontecer, mesmo tendo afirmado na posse que a Lava Jato continuará. Vamos ver o que acontecerá com os ministros que aparecem como suspeitos?

Em tempo: no encerramento desta reflexão a agência de notícias Sputnik News–Brasil divulgou a informação apresentada pelo site WikiLeaks segundo a qual o golpista Michel Temer foi um informante da Inteligência e Defesa dos Estados Unidos há dez anos.

Segundo ainda o site WikiLeaks, em janeiro e junho de 2006, Temer, na qualidade de líder do PMDB, transmitia seus pontos de vista sobre a unidade do partido e as próximas eleições presidenciais a órgãos de inteligência americanos. Sob a rubrica “sensível”, as informações foram enviadas ao Comando Sul dos EUA em Miami e ao Conselho Nacional de Segurança dos EUA, entre outros destinatários.