“Resistimos por mais de 500 anos. Que venham outros 500!”, afirma Rafael Weree

Por Wellington Penalva01/09/2017

Formado em Antropologia pela Universidade de Brasília, o índio xavante Rafael Weree é o responsável pela formação do Movimento Indígena do PDT. Neto do deputado pedetista Cacique Mário Juruna, ele também milita em favor dos povos nativos brasileiros.

Weree concedeu entrevista exclusiva ao portal do PDT na qual contou um pouco da sua trajetória política e deixando claro que acredita na politização dos índios para a conquista de direitos.

“Precisamos entender o processo político para exercer de fato a cidadania e não sermos enganados pelos políticos não indígenas, como acontece desde 1500”, disse Rafael Weree.

 

O seu avô, Cacique Mário Juruna, foi deputado federal e lutou pelas causas indígenas no legislativo brasileiro. Sua entrada na política foi inspirada nele? Por quê?

Meu avô entrou na política pela necessidade de lutar e defender os nossos irmãos indígenas e a demarcação de terras. Ele já atuava em defesa dos povos indígenas como liderança tradicional, como cacique. Os ataques físicos nos campos e os ataques aos nossos direitos continuam nos dias atuais. Então, precisamos dar continuidade à luta em defesa de nossa população. Creio que a minha inspiração e vontade de entrar na política está na causa [do desrespeito aos povos indígenas], assim como foi o caso do Cacique Juruna.

Como foi sua trajetória política antes de chegar ao PDT?

Como muitos políticos, comecei na Universidade de Brasília durante a eleição do DCE, onde a chapa da qual eu participava saiu vitorioso. Foi minha primeira sensação de pedir votos para nossa chapa e discutir ideias, propostas e debates. Em 2014, concorri a eleição para deputado distrital em Brasília, pelo PCdoB, sempre pensando em representar os povos indígenas no legislativo.

Em 2016, cheguei ao PDT, onde recebi acolhimento a minha pessoa e a nossa causa indígena, já prevista no estatuto [do partido]. Então, deu casamento. Vamos juntos fazer enfrentamento, não radicalismo, e buscar a solução que seja boa para todos – indígenas e não indígenas.

Há algum tempo você articula a criação do Movimento Indígena do PDT. Como está o desenvolvimento desse projeto? Como será sua atuação?

Sim, é verdade. Estamos construindo o Movimento Indígena do PDT que já está organizado em, pelo menos, nove estados do país. O trabalho está sendo bem recebido pelos indígenas, muitos estão filiando-se ao partido para poder participar do movimento. A nossa ideia é promover os cursos disponíveis no site da Fundação Leonel Brizola – Alberto Paqualine (FLB-AP). Precisamos entender o processo político para exercer de fato a cidadania e não sermos enganados pelos políticos não indígenas, como acontece desde 1500. Nós vamos promover principalmente o Curso Básico de Formação Política para formar novas lideranças indígenas.

Qual a sua avaliação do relacionamento do Governo Temer com os povos indígenas do país?

Bom, se governo Temer está olhando a sociedade não indígena em um olho, ele está de olho vendado, anulando as terras indígenas e atacando os nossos direitos com muita violência. Ainda tem os ruralistas que estão na base de apoio do governo, a luta está muito desfavorável, tanto no campo quanto no Congresso Nacional. Mas resistimos por mais de 500 anos. Que venham outros 500. Por isso estamos trabalhando para eleger o nosso candidato Ciro Gomes, homem de visão que tem muita experiência.

Qual a sua avaliação do massacre ocorrido no Maranhão em maio passado e de outras atrocidades envolvendo latifundiários e indígenas no Brasil?

O massacre do Maranhão deixa a gente revoltado, mas na sociedade, em sua maioria, ninguém contesta. A situação é assim: quando o indígena mata o não indígena vira escândalo e o povo pede justiça. Quando o não indígena mata o indígena, o culpado é o índio. Ainda no tempo dos bandeirantes, o Brasil avançou muitos em tudo, menos no principal que é o cérebro. A cabeça parou no tempo.

Que tipo de política pública contemplaria os povos indígenas de maneira justa e respeitosa?

Os povos indígenas, na sua maioria, eram nômades. Hoje estamos ilhados. Precisamos de alternativas para nossa sobrevivência, ninguém pediu para ser ilhado. Por isso, o estado deveria promover condições como saneamento, fortalecimento da agricultura indígena, atendimento a saúde nas comunidades e sustentabilidade de maneira de geral.

O que espera alcançar em sua luta pelo direito das nações indígenas no Brasil?

Espero que, através do PDT, consigamos dar voz aos povos indígenas, elegendo os nossos vereadores, deputados, senadores e outros. Aí sim, o Brasil vai alcançar a verdadeira democracia. Esses são os nossos projetos de futuro, a médio e longo prazos.