PDT elege uma prefeita e dois vereadores indígenas

Elizângela Isaque

Max Fulni-ô, durante campanha para vereador de Águas Belas (PE)

A eleição, no último dia 2, de candidatos indígenas pelo país – pelo menos quatro prefeitos (Acre, Ceará, Minas Gerais e, na Paraíba, pelo PDT), além de dois vereadores também pedetistas – deixa claro que a luta desse povo pelo reconhecimento de seus direitos ainda é forte no Brasil. Essa batalha ganhou força a partir de 1982, quando o Cacique Mário Juruna foi eleito deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro e se tornou o primeiro e único político indígena do Brasil.

Nascido na comunidade Xavante Namakura, próximo ao município Barra do Garças (MT), Juruna só teve contato com população branca aos 17 anos, quando sucedeu seu pai na liderança de sua aldeia. Eleito com 30 mil votos, lutou pela demarcação das terras dos Xavantes e foi responsável pela criação da Comissão Permanente do Índio, no Congresso Nacional.

Juruna fez com que o problema indígena no Brasil ganhasse reconhecimento formal, com grande repercussão no País e no mundo. E sua história deixou um legado.

Eleita prefeita de Marcação (PB), com 51,20% dos votos, a atual vice-prefeita da cidade, Eliselma Oliveira (PDT), promete usar a sua experiência adquiria na Prefeitura para fazer uma gestão diferenciada. Lili, como é conhecida na região, é uma Potiguara – etnia das 16 aldeias indígenas distribuídas pelo município.

“O município precisa de mudanças significativas para as comunidades, sobretudo na saúde, na educação e nas estradas e ladeiras que dão acesso às aldeias”, afirma Eliselma, que pretende resgatar a cultura indígena junto à sua comunidade, que, conforme ela explica, foi perdendo seus costumes e raízes com o passar do tempo.

“Existem algumas escolas que já ensinam a linguagem Tupi, mas um dos meus projetos é inserir o seu aprendizado em todas as escolas”, explica a prefeita eleita, que, a partir desse resgate cultural, pretende alavancar o turismo no município, tendo como atrativos o artesanato, as comidas e as danças típicas.

Já os vereadores eleitos pelo PDT, Fernando Kaxinawá, em Jordão (AC), e Max Fulni-ô, em Águas Belas (PE), estão entre os vários indígenas que concorreram pela sigla a uma vaga nas Câmaras Municipais, em diferentes regiões do país. A Cacique Kamila Prestes, da etnia Mura, localizada nas proximidades do Rio Madeira, em Manaus (AM), é um deles.

Cacique Kamila Prestes, da etnia Mura
Cacique Kamila Prestes, da etnia Mura

“Ser cacique é liderar e ajudar as pessoas, sendo uma referência nas aldeias. Como estou na cidade, tenho que manter a tradição. Por isso, quero ser a primeira representante indígena na Câmara de Manaus. Quero lutar pela questão social e abrir mais projetos para a comunidade”, explica Kamila, que, aos 28 anos, é estudante de Administração de Gestão Pública e fundadora do Instituto de Apoio aos Povos indígenas do Amazonas (Iapoam).

Inspirada pelo líder Mário Juruna, a cacique conta que, no PDT, ela encontrou espaço para atuar em defesa dos direitos dos povos indígenas e das causas sociais. E, embora não tenha alcançado a vitória neste pleito, ela afirma que, apesar das dificuldades que enfrentou, a experiência adquirida a ajudará a continuar firme na luta partidária, em prol de sua comunidade.

Juruna precursor

Uma década antes de chegar ao parlamento, Mário Juruna já era notícia. Nos anos 1970, ele percorreu os gabinetes da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, com um gravador ligado, segundo ele, “para registrar tudo o que o branco diz”. Tais registros originaram o livro “O Gravador do Juruna”, publicado em 1983. A publicação relatava as promessas feitas por dirigentes da Funai e por vários parlamentares que não eram cumpridas.

Cacique Mário Juruna (PDT-RJ)
Cacique Mário Juruna (PDT-RJ)

“Eu nasci para morrer, eu nasci para brigar. Não nasci para ser expulso. Por que estou dentro do Brasil que é do índio… Eu nasci para isso”, disse Juruna, durante uma sessão da Câmara dos Deputados, em 1984.

Foi em 1984, inclusive, que, durante as eleições presidenciais indiretas no Congresso, Juruna denunciou o empresário Calim Eid, coordenador da campanha do candidato do PDS, Paulo Maluf, por tentativa de suborno em troca de seu voto. O voto de Juruna foi para Tancredo Neves, representante da oposição democrática.