O corrupto, o poder e a corrupção

Hari Alexandre Brust

 

CORRUPTO é um crustáceo cavador, que apresenta indivíduos de vários tamanhos. Possuem garras, deve-se tomar cuidado, pois podem causar ferimentos. São apelidados de Corruptos, pois são muitos, não aparecem e são difíceis de capturar. Eles cavam buracos onde se escondem e as pessoas pegam eles com equipamento. Quanto maior o buraco, maior o animal que nele habita”. (Wikipédia)

 Qualquer semelhança com a designação dos corruptos identificados pela Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013) é coincidência pura, pois esse apelido foi herdado do nome do crustáceo que, como ele, “são muitos, não aparecem e são difíceis de capturar”, porque escondem-se em cargos e funções importantes do Estado e alguns até com prerrogativas especiais, tanto no Executivo, como no Legislativo e no Judiciário, onde “são cavadores e se apresentam de vários tamanhos”, de acordo com o poder que o cargo detém.

Assim como o crustáceo que é considerado uma excelente isca, as obras do Estado, nos diversos níveis, são as iscas corruptoras do poder que, em conluio com a iniciativa privada, através de empreiteiras, fisgadas pela isca, assumem o papel de corruptores e “quanto maior o buraco (o cargo), maior o animal (o corrompido) que nele habita” (está nomeado).

“As pessoas (pescadores) pegam eles com equipamento”(bomba de sucção). O equipamento do Estado para capturar os corruptores e os corrompidos é o Ministério Público, a Polícia Federal e o Poder Judiciário, que estão explodindo os buracos e até bunkers em suas estruturas fortificadas.

Tal qual a dificuldade da extração do corrupto na areia da praia, a tarefa da captura de corruptos exige inteligência, paciência, persistência, autoridade e tempo para investigar, mas aos poucos, através da delação, peixes e até tubarões tem caído na rede.

“Possuem (crustáceos) garras, deve-se tomar cuidado, pois podem causar ferimentos”. As garras dos corruptos são cargos importantes com foro especial, cuja investigação depende de instancia judicial superior, causando enormes danos ao erário, muitas vezes irrecuperáveis (ferimentos).

Embora tardiamente, pois há mais de 30 anos, em seu livro Aos Trancos e Barrancos, o mestre Darcy Ribeiro já vaticinava a necessidade de fazer o país dar certo e de passar o Brasil a limpo: “Não me consolo de constatar todo dia que o Brasil não deu certo. Ainda não deu certo. Não por culpa da terra, que é boa, nem do povo, que é ótimo. Mas das nossas classes dirigentes, tão tenazmente tacanhas que só sabem gastar gente a fim de lucrar e enricar.

É hora de passar o Brasil a limpo, para que o povão tenha vez. No dia em que todo brasileiro comer todo dia, quando toda criança tiver um primeiro grau completo, quando cada homem e mulher encontrar um emprego estável em que possa progredir, se edificará aqui a civilização mais bela deste mundo.

Sobre a tacanhas classes dirigentes, assim definidas por Darcy, nosso Herói da Pátria Leonel Brizola profetizou: “As elites dirigentes preferem se aliar aos interesses de fora do país do que a seu próprio povo. São os principais responsáveis pela humilhação do País e a miséria do nosso povo”.

Nesta novena de Santo Antônio, cabe resgatar o sermão do Padre Vieira, proferida em homenagem à festa do Santo, em 1654, em São Luiz – Ma: “O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que tem ofício de sal, qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção? A seu ver, havia duas causas principais: a contradição de quem deveria salgar e a incredulidade do povo diante de tantos atos que não correspondiam às palavras”.

Por falar em Santo, outra forma de corrupção é uma citação de São Francisco: “É dando que se recebe”, o famoso toma lá, dá cá.

No Brasil, também esta consagrada a Lei de Gerson: Levar vantagem em tudo. “Se não levo, alguém levará em meu lugar”.

Coerente com o Sermão do Padre Vieira, há 150 anos, nosso gênio Rui Barbosa já testemunhava a corrupção no Brasil, um corte vertical do mapa da corrupção atual:

 “O brasileiro que atravessar a fase atual terá que testemunhar à descendência, com as cãs envergonhadas, uma longa página de amargura e vilipêndio, onde os olhos de nossos filhos buscarão um ponto de refrigério em que espaireçam; um país opulento, inexaurível como a natureza mesma, e, todavia, física e moralmente estagnado, na sua imensa amplidão, como um vasto pânico; um governo lição viva de todas as corrupções; a câmara dos deputados aviltada, graças às suas próprias obras, até às vaias das galerias; a magistratura, atirada fora a toga da justiça, a ostentar deslavadamente o escândalo das mais delirantes e indecentes paixões; o executivo dissipando, transigindo, contrariando encargos públicos, sem autorização orçamentária; os ministros da fazenda acumulando montanhas de dívida; a voragem de deficit a escancarar de dia em dia um sorvedouro capaz de tragar dentro em pouco a nossa receita total; o comércio e a indústria, sob a pressão de impostos irracionais, condenados ao mais lastimoso raquitismo; a irresponsabilidade absoluta do poder em todos os graus de hierarquia; as convicções levadas a riso, o cepticismo cínico aplaudido; a desconfiança, a inveja, a gana às reputações sãs, todos os instintos malévolos da servidão curtida subserviente; afilhadagem e dilapidação, desprezo impertérrito da lei e farisaica idolatria das conveniências pessoais, docilidade ao arbítrio oficial e insubordinação ao dever, um aparato de jactanciosa dignidade e uma pusilânime abdicação do direito, falsificação sistemática das instituições e covardia universal perante a verdade”.

 

(*) Alexandre Brust é fundador do PDT e dirigente do PDT-BA.