Nadyr Rosseti: corpo e alma rebeldes

Jonatan Fogaça17/07/2017

Nadyr Rosseti foi um político gaúcho nascido, em 17 de Julho de 1937, na cidade de Caxias do Sul. Filho de pequenos agricultores, teve 17 irmãos e viveu na localidade de Raposo (RS).

Rosseti se interessou pela política ainda na sua juventude e foi na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que ele ajudou a fundar o Centro Tobias Barreto. Assim, iniciou sua militância estudantil no núcleo de estudos filosóficos. Após formar-se advogado em 1962, retornou a Caxias do Sul, onde passou a exercer a profissão juntamente com o vereador Pedro Simon.

Na década de 60, período de efervescência popular, que ele se aproximou do Trabalhismo. Reconheceu em Leonel Brizola, ainda em 1961, uma liderança patriótica à ser seguida na Campanha da Legalidade.

Com João Goulart presidente, na época, que Nadyr se elegeu pela primeira vez para um cargo político. Foram 723 votos que lhe garantiram a vaga na Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, em 1964, pelo PTB.

Seus discursos muito bem posicionados na defesa das reformas de base o aproximou de expressivas figuras políticas da cidade, entre elas: o advogado da Aliança Socialista Percy Vargas de Abreu e Lima, o médico Henrique Ordovaz, que também era o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos Bruno Segalla.

Era um time de Ouro que ainda contava com o trabalhista sindicalista, Abílio Webber, e o comunista Ernesto Bernardi (ARS), ambos suplentes da Legislatura.

A militância de Nadyr pelo PTB tomava fim com o golpe militar de 1964. Ainda na fatídica sessão ordinária de 20 de Abril de 1964 foram cassados os companheiros de Rosseti da Aliança Republicana Socialista. Mansueto Serafini conta que ele estava em um bar com Percy quando a cassação aconteceu.

O pioneiro de 11 de Abril de 1964, mesmo dia da posse de Castelo Branco, estampava o nome de mais de 20 presos políticos. Entre eles, os caxienses Bruno Segalla, Ernesto Bernardi, Luiz Pizetti e o trabalhista Darwin Corsetti.

O governo militar dava como extinto toda as atividades do PTB, colocando-o, assim, na ilegalidade. A alternativa encontrada por muitos trabalhistas e comunistas foi o MDB – Movimento Democrático Brasileiro. Foi assim, com a proximidade à Pedro Simon, que Nadyr Rosseti usou esse instrumento de oposição à ditadura para ser eleito presidente da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, em 1965.

Foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul de 1967 à 1976. Seus discursos em defesa da agricultura familiar, reforma agrária e dos trabalhadores demandavam o necessário enfrentamento dos empresários da celulose de São Francisco de Paula (RS), como pode ser comprovado nos arquivos disponíveis no site da Câmara dos Deputados.

Nadyr apoiava grupos de oposição ao governo militar clandestinamente. Ajudava com panfletos e mantimentos. Foi num churrasco, no interior do Estado, que em seu discurso disse que o governo dos militares “cairia de podre”. Isso em 1976, no governo de Ernesto Geisel.

O governo Geisel foi uma gestão de intervenção direta no parlamento. Em 29 de Março de 1976 dia alusivo ao golpe de 1964, Nadyr Rosseti tem seu mandato cassado pela ditadura junto com o deputado gaúcho Muller, fruto da ferrenha oposição ao regime. Ele contava que Pedro Simon negociou a sua cassação, conforme visto no livro “Autênticos do MDB”, o que estremeceu a relação dos dois. Nadyr, ainda em 70, já tinha proposto a dissolução do MDB, que pra ele não representava mais à oposição ao regime.

Sem mandato, Nadyr se empenha na campanha da anistia ampla e irrestrita, além de frequentar sindicatos e movimentos sociais. A campanha sai vitoriosa, em 1979, e, com a volta dos exilados, ele se aproxima novamente de Leonel Brizola na intenção de refundar o PTB.

Brizola perde os direitos da sigla em uma manobra de Golbery, o PTB vai para as mãos de Ivete Vargas e, com isso, a alternativa que surge é a fundação do PDT. Nadyr Rosseti, ao lado de Agenor Basso, Walter Buselatto, Bruno Segalla e Régis Prestes ajudam a criar o partido na cidade de Caxias do Sul.

Com seus direitos políticos estabelecidos pela Lei da Anistia, concorre em 1982 à deputado federal e é eleito, dessa vez, pelo PDT de Brizola. Empossado em fevereiro de 1983, inicia então seu mandato de caráter patriota e socialista.

Na famosa sessão de 25 de abril de 1984, vota à favor da emenda de Dante para restabelecer as eleições diretas para presidente da República no Brasil, porem não houve êxito. Só haveria, então, eleições, porém indiretas, em 1985, com a vitória da chapa de Tranquedo Neves, apoiada pelo PDT.

Rosseti não consegue a reeleição à Câmara de Deputados, em 1986. Em 1988, concorre à prefeitura de Caxias do Sul no sacrifício, dado que no decorrer de sua vida ele enfrentou problemas de saúde, pois era um fumante compulsivo, segundo relatam companheiros mais antigos. Ainda assim, ficou em terceiro lugar. O prefeito eleito pelo PFL, Mansueto Serafini, depois viria à se filiar no PDT.

Essa foi a última eleição disputada por Rosseti. Em 1989, ele percorre o estado com Leonel Brizola na primeira eleição presidencial pós-ditadura. Seu retrato na campanha é visto, na cidade de Caxias do Sul, no Bar 13, ao lado de Segalla e Brizola. Infelizmente, saímos derrotados.

Afastado da política, ele volta a exercer sua profissão de advogado e cuidar de suas propriedades. Era casado com Cecília Conde Rosseti, com quem teve uma filha. Ele faleceu no dia 16 de outubro de 1997, com apenas 60 anos.

Para o PDT, o ex-deputado caxiense representa a altivez do trabalhismo. As lideranças do partido sempre destacaram sua importância.

O secretário-geral do partido e presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, Manoel Dias, ressaltou que “Nadyr era uma personalidade cativante e acima de tudo um nacionalista”.

Kallil Sebhe Neto lembra que era deputado estadual quando recebeu a notícia do falecimento de Nadyr Rosseti, na sessão de 22 de Outubro de 1997. Na oportunidade, Sebhe fez um discurso homenageando a trajetória do exímio trabalhista. “Foi uma das Glórias do PDT”, disse. Além disso, o parlamentar fez a doação de um quadro de Rosseti, que, hoje, se encontra na sede do partido em Caxias do Sul.

Outra liderança trabalhista histórica na cidade da Serra Gaúcha, o ex-prefeito Alceu Barbosa Velho, que pretende retomar a cadeira do PDT caxiense na Câmara Federal, vê em Nadyr Rosseti uma inspiração política e ideológica.

No dia 17 de Julho de 2017, lembramos, portanto, que Nadyr Rosseti poderia estar entre nós, pois completaria 80 anos. Nesse momento, com o parlamento desacreditado e entregue aos interesses antipopulares e antinacionais, que falta faz um homem que não curvou a espinha, nem nos anos de chumbo.

Homem que tinha coragem de ser trabalhista, mesmo quando isso poderia significar a própria morte, dada a repressão da ditadura. Nadyr tomou muitos golpes, e isso lhe fez um deputado diferenciado.

Na história do PDT e do trabalhismo, quando falarmos dos grandes parlamentares da sigla, lá também estará Nadyr Rosseti. Certamente, ao lado de Fernando Ferrari, Ruy Ramos, Neiva Moreira e Alceu de Deus Collares.

 

 

*Jonatan Fogaça é metalúrgico, presidente da Comissão Provisória do Movimento Sindical do PDT em Caxias do Sul (RS) e diretor do Sindicato dos Metalúrgicos local. Enquanto universitário, o pedetista foi coordenador do Centro.