Liberdade de Imprensa ou Liberdade de empresa

Vem aí a Conferência Nacional de Comunicação, um importante evento que vai discutir uma série de questões relacionadas com a política midiática, desde os critérios de concessão de canais de TV, passando por uma série de outros pontos relevantes e necessários no sentido de possibilitar de fato a democratização dos meios de comunicação. O patronato do setor está indócil e tem até acionado a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) para questionar a Conferência, marcada para os primeiros dias de dezembro próximo.
 
É fundamental que novas regras no setor sejam postas em prática, porque o sistema atual é absolutamente obsoleto e remonta há mais de 45 anos, quando o Brasil e o mundo eram outros.
 
No Congresso, o Senador Pedro Simon é o responsável por um recente projeto que impede parlamentares de serem proprietários de veículos de comunicação. Resta saber até que ponto os espertos senhores representantes do povo que controlam os canais eletrônicos, seja televisão ou rádio, poderão utilizar artifícios de colocarem laranjas para exatamente escamotearem os reais proprietários, ou seja, eles mesmos.
 
O que se pretende com a democratização dos meios de comunicação é, entre outras coisas, possibilitar que todos os setores sociais tenham vez e voz em pé de igualdade e que o direito humano à informação seja preservado, não ficando sob controle de poucos, os tais barões midiáticos que tornaram os seus veículos verdadeiros aparelhos ideológicos defensores de altos interesses econômicos e esquemas conservadores. E é exatamente isso que resulta na manipulação da informação e a prática do esquema do pensamento único.
 
O espaço aqui seria pequeno para apontar as distorções diárias que ocorrem não apenas nos meios eletrônicos como nos impressos. Qualquer questionamento é geralmente respondido pelos barões midiáticos de forma radical e com adjetivos inconseqüentes.
 
Como exemplo de manipulação na mídia impressa pode-se mencionar a TV Globo e o jornal O Globo, que encandeou uma radical cruzada em favor da remoção de favelas, onde mora um em cada três habitantes do Rio, desencavando figuras e políticos de décadas passadas que estavam enterrados no baú da história, como os então governadores da ex-Guanabara, Carlos Lacerda e Negrão de Lima, que removeram favelas e adotaram a sua maneira o tal “choque da ordem” que o atual prefeito do Rio Eduardo Paes está praticando em áreas pobres da cidade, mas poupando os ricos que cometem irregularidades.
 
Em uma das matérias sobre o tema, O Globo recordou a remoção de favelas na Lagoa, área cobiçada pela especulação imobiliária e chamou a atenção para o fato de que se nos 60 não fossem removidas, a área seria hoje ocupada por 96 mil favelados, o que, segundo o jornal, aumentaria a violência. O exercício de futurologia foi feito a partir dos índices do crescimento da favela da Rocinha. Como sempre, prevalece a associação, gênero senso comum, da violência com favelas, o que de alguma forma tenta convencer incautos que com a remoção a violência cai.
 
Além desses estereótipos, a matéria desencavou o ex-diretor da Companhia Estadual de Habitação (CEHAB), Aristóteles Drumond, um notório direitista que anos mais tarde circulou pelo Chile em apoio ao sangrento golpe que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende.
 
Para se ter uma idéia da biografia do ex-diretor da CEHAB que participou ativamente da política de remoção de favelas no governo Negrão de Lima, lá por 1966-68, vale a leitura de um importante livro de autoria do historiador René Dreifuss intitulado A Internacional Capitalista – Estratégias e táticas do empresariado transnacional 1918-1986, da editora Espaço e Tempo Ltda. Na página 229 Dreifuss assim se refere a Aristóteles Drumond:
 
“O grupo paramilitar brasileiro de direita Movimento Anticomunista (MAC) forneceu armas e dinheiro a grupos semelhantes no Chile. Faustino Porto, militante do MAC, e Aristóteles Drumond, chefe do Grupo de Ação Patriótica (GAP), que foram linhas auxiliares do Ipes (Instituto de Pesquisas Econômico e Social) brasileiro, foram apontados como elementos de ligação entre Brasil e Chile em 1972-73. Armas e dinheiro foram levados aos chilenos, tanto para a organização extremista Pátria y Libertad – liderada pelo protofascista Pablo Rodrigues e pelo industrial Roberto Thiems – como para os comitês de bairro de direita”…
 
Como se não bastasse, ao “informar” seus leitores, O Globo ainda considerou o governo Negrão de Lima como de centro esquerda. Ignorou que a esquerda tinha sido riscada do mapa pelos generais de plantão Castelo Branco e Costa e Silva que governaram de fato o Brasil na época, sempre apoiados pelo jornal da família Marinho.
 
 
 
EM TEMPO: O presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, deu uma jogada de mestre ao ofertar ao presidente estadunidense Barack Obama o livro Veias abertas na América Latina, um clássico de autoria do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
 
Algum outro presidente, quem sabe Evo Morales ou até mesmo “o cara”, ou seja, Lula, poderia ter tido a mesma idéia e oferecido Confissões de um assassino econômico, de autoria do estadunidense John Perkins. Os dois livros valem mais do que discursos. Lendo os dois importantes trabalhos, Obama poderia entender melhor a América Latina, um continente que não aceita mais ser considerado quintal ou pátio traseiro da potência do Norte.