José Sérgio Rocha: "O Globo" e os arapongas contra Brizola

Domingo, 29 de Março de 2009

O GLOBO E OS ARAPONGAS CONTRA BRIZOLA

Uma primeira página deste domingo periga ganhar prêmio. Estreando nova vinheta (tá na cara que o nome “Arquivos da Abertura” foi escolhido para abiscoitar premiações), O Globo cometeu neste 29 de março de 2009 a matéria mais repugnante dos últimos anos. O alvo é antigo, aliás o mais visado de toda a história de guerras particulares que fizeram das Organizações Globo o mais firme aliado da ditadura militar na imprensa brasileira. Na mosca, ele mesmo, Leonel de Moura Brizola, cinco anos depois de morto e enterrado.

De acordo com o dossiê (melhor chamá-lo assim, uma vez que 99% do “mérito” da apuração pertencem a arapongas), em plena abertura política, o Serviço Nacional de Informações (SNI), mantendo eterna vigilância sobre o primeiro governo democrático do Rio de Janeiro depois da Redentora (ou Ditabranda, de acordo com a Folha de S. Paulo), “descobriu” que empresas de ônibus e bancas de jogo do bicho pagaram 500 milhões de cruzeiros (quase R$ 1 milhão em dinheiro de hoje) ao então secretário de Fazenda César Maia, dinheiro que foi parar, segundo a recortagem, no caixa do partido e em projetos de educação do governo Brizola.

A matéria (ou dossiê) é nojenta por muitas razões. Mais que tudo, pela origem dos papéis, como o tal relatório de 1983 do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) acusando Brizola de dar “orientação verbal” à Polícia Civil e à PM para suspender a repressão ao bicho em troca de uma caixinha trimestral. Opa! Orientação verbal foi do cacete! O Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), também produziu seus relatórios. Pois é, a gente desconhecia que o CISA e o CENIMAR tivessem competência para obter informações sem recorrer à tortura. Se tivessem, por que o CISA precisou amarrar o militante Stuart Angel pela garganta no cano de descarga de um jipe, arrastando-o pelo pátio do quartel, até a morte? Por que tanta gente presa pelo Cenimar não contou o que os “omes” queriam saber e acabou tomando Doril?

Nunca acreditei que o governo Brizola fosse exceção no quesito probidade. Não existe probidade no lamaçal da política desde o governo Tomé de Souza. No entanto, fui um entre centenas de jornalistas que testemunharam, no ambiente da Redação da Rua Irineu Marinho 35, a campanha sem tréguas do Globo contra aquele governo. Três repórteres, um de cada vez, foram encarregados pela chefia de registrar somente o que havia de pior antes, durante e depois do governo de Leonel Brizola. Pipocaram escândalos envolvendo a Polícia Civil, a Alerj, a Câmara Municipal, as loucuras da filha do governador, Neuzinha Brizola, etc. Nada que não tivesse ocorrido em todos os governos estaduais, antes e depois.

Traduzindo em miúdos: nem os militares durante 20 anos de ditadura, nem O Globo enquanto o alvo maior foi vivo e voltou a exercer cargo público, encontraram nada na vida do Brizola diferente do que já encontraram ou poderiam encontrar na vida do Lula, do Fernando Henrique, do Sarney, etc.
O primeiro repórter escalado para “cobrir” (de porrada) o Brizola foi um companheiro que morava na Baixada Fluminense, logo substituído. Acharam que ele não dava conta da tarefa do jeito que a chefia da Redação queria. Saiu porque teria se acomodado, descobria só bobagens.

O segundo também perdeu o posto porque inventava demais. Notório picareta, foi promovido pelos bons serviços, apesar do excesso de zelo e de milongas, tornando-se o pior chefe de Reportagem do jornal, uma fama que se mantém até os dias atuais.
O terceiro, mais correto, equilibrou informação e pequenas maldades, conseguindo ficar bem com o comando da Redação e com a coordenação da campanha de Darcy Ribeiro. Depois virou assessor de imprensa de dois governadores. Teve sorte e saiu bem porque nem O Globo aguentava mais ser tão antibrizolista. É justo dizer que, dos três, era o único que não gostava do que fazia.

Desconheço a origem do ódio pessoal (teria havido algo no passado?) entre Brizola e Roberto Marinho, mas o motivo principal da perseguição com certeza foi a natureza do golpe militar de 1964, desfechado para destruir o trabalhismo, os seguidores de Getúlio Vargas, que teria sido derrubado dez anos antes se não fizesse a sacanagem de dar um tiro no peito. Esses eram os inimigos pra valer. Nos dias de hoje, até o mais imbecil participante do Big Brother Brazil deve saber que aquela história de que a “revolução” foi feita para impedir o avanço do comunismo não passou de lero-lero.

Mais do que Prestes, Arraes, Lamarca ou Marighella, Brizola foi o inimigo nº 1 do regime e, consequentemente, do jornal de Roberto Marinho. De todos, era o único que efetivamente poderia chegar à Presidência da República. Arraes foi governador de seu estado e nada mais. Os demais eram apenas militantes, revolucionários profissionais, uma gente que até o povo tinha medo de ver no poder.

É repulsiva a edição sob todos os aspectos. A começar pelos títulos. Na manchete de primeira página “SNI: Brizola e Cesar recebiam propina de empresas de ônibus”. O que o leitor imagina? Que ambos embolsaram, não é mesmo? Mas logo o texto, conforme informa o repórter Bernardo Mello Franco, diz que Brizola “teria rateado” o dinheiro entre o partido e projetos educacionais. Teria? Teria. Pois é. Somente nas duas linhas finais da chamada ficamos sabendo que “nenhuma das acusações foi provada nem originou investigação policial”.

Podem até dizer que O Globo quis, na verdade, pegar o Cesar Maia, mas na verdade o que houve foi mais um crime, agora contra a memória de um líder político, por mais polêmico que tenha sido. Um líder, pior de tudo, morto e enterrado há cinco anos.
Quando é o delegado Protógenes arapongando o banqueiro Daniel Dantas, a leitura que se faz na imprensa que nos resta é diferente. Eu que não sou fã do Protógenes e muito menos do Daniel Dantas, estranho os dois pesos e as duas medidas.

Na página 3, a reprodução dos documentos do SNI me lembra os arquivos que já vasculhei na vida, pesquisando brasileiros ilustres ou não que sofreram o diabo nos DOPS da vida. Em alguns me deparei com versões as mais estapafúrdias. Pegue-se qualquer habeas data, dos tempos do Estado Novo getulista ou da ditadura militar, e o que se lê mais é informação falsa. O falecido jornalista Raul Ryff, que foi secretário de Imprensa do presidente João Goulart, descobriu que em sua ficha policial os meganhas de Filinto Müller inventaram para ele até um codinome, “El Tigre”. Morria de rir com isso. De onde tiraram esse apelido?
Os documentos do SNI, CISA, CENIMAR, CIEx existem. Mas o que é sério e o que é inventado ali? O Brasil vai muito além da ficção.

Não duvido da existência da tal caixinha e – confesso – achei até legal que parte do dinheiro sujo fosse destinado a projetos educacionais, provavelmente aos Cieps, que foram abandonados pelos governos seguintes.

Mas o que O Globo fez em sua matéria de capa foi achincalhar a memória de alguém que devia merecer mais respeito do jornal que tanto o atacou no passado, um líder político cheio de defeitos e que hoje não pode mais se defender. Para assumir esse papel, “ouvindo o outro lado”, O Globo obviamente procurou César Maia, somente interessado em tirar o dele da reta.

Vamos demolir reputações de quem já desencarnou? Então que a regra seja válida para todos. Nunca li no Globo nada sobre fatos polêmicos da vida do Roberto Marinho. Foi tão santo quanto Leonel Brizola. Claro que O Globo não faria isso com seu grande comandante, mas, ué, o Roberto Marinho não foi também uma figura pública que teve papel importante em quase uma dezena de governos!? A biografia escrita por Pedro Bial não satisfez ninguém. Prefiro a que Fernando Morais escreveu sobre Assis Chateaubriand, contando inclusive as patifarias do fundador dos Diários Associados. Confesso que passei a gostar do Chatô depois de conhecer seus defeitos. Recentemente, li “Os Irmãos Karamabloch”, escrito por Arnaldo Bloch, sobrinho-neto do Adolpho. Outro livraço digno. Sem falar no maravilhoso romance semidocumental “Getúlio”, de Juremir Machado da Silva, obra fantástica que mostra toda a crueldade da família Vargas.

Sobre o Roberto Marinho, mais do que qualquer besteira contra ou a favor, a melhor coisa que já ouvi foi dita por um jornalista gaúcho chamado João Rath: “De todos os que me fazem sofrer, o doutor Roberto é o único que me paga”.

Taí um bom título para uma biografia do empresário e jornalista. Quem se habilita? Você não, ô Bial. Já fez seu dever de casa.

Fala sério, O Globo!

 P.S. – Antes que me esqueça: fui brizolista só na campanha de 1982 e nos meses seguintes. O brizolismo não é minha doença infantil favorita. 

Fonte: http://www.quemevivo.blogspot.com/