Diáspora e Israel

“Paradoxalmente, são os palestinos, embora sejam tratados como inimigos e cidadãos de segunda classe, que serão os primeiros aliados dos israelenses na construção de um Oriente Médio democrático, uma vez silenciada a voz dos fuzis e canhões.” (Henrique Rattner, professor da USP, em seminário organizado pela Sociedade Brasileira dos Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém).

 

Antes da assimilação pelo barão de Rothschild do projeto sionista concebido pelo jornalista austríaco Theodor Herzl, o quadro na Palestina era de paz entre árabes e judeus. Estes não somavam 30 mil almas no início do Século XX, contra 480 mil árabes.

 

A idéia defensiva do Lar Nacional Judaico foi manipulada pelo Barão de Rotschild, que bancou a infiltração na Palestina de judeus pobres e cheios de sonhos. Antes destes, já estava lá o carismático polonês David Ben-Gurion, que chegou em 1906 com idéias socialistas e, mais tarde, fundou o Haganá, primeira das milícias terroristas que se dedicaram a ações contra o domínio inglês e de expulsão dos agricultores árabes.

 

Numa equilibrado comentário sobre o nascimento de Israel, Pedro Dória relatou: “Nas contas de um destes historiadores, Benny Morris, 700.000 palestinos cujas famílias viviam há séculos no mesmo local foram lançados ao exílio. Morris mapeou 389 aldeias árabes na região. Segundo sua pesquisa, pode afirmar que em 49 delas a Haganá ou outro grupo judaico expulsou a população; em 62, os árabes fugiram por conta dos boatos de que massacres estavam acontecendo nas vizinhanças; em seis, a fuga foi seguindo ordens diretas da liderança política palestina” (Pedrodo ria).

 

O centro de poder em Israel e o governo dos Estados Unidos têm sistematicamente vendido ao mundo, inclusive aos judeus, a idéia de que as ações militares têm caráter defensivo. No entanto, quando foi criado numa resolução da ONU, Israel tinha apenas um quarto dos atuais 22.072 km². Nesta área, instalou-se o maior e mais sofisticado aparato bélico, que inclui um arsenal atômico na região de Saknin, conforme denúncia detalhada do cientista nuclear israelense Mordechai Vanunu.

 

 

 Visão da história

 

 Em 1999, falando no Simpósio Latino Americano organizado pela “Sociedade Brasileira de Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém”, o professor Henrique Rattner, da USP, fez uma análise sobre os dilemas dos 15 milhões de judeus espalhados pelo mundo e sua relação com o Estado de Israel. Por sua importância e transcendência, sua palestra foi publicada em outubro de 2002 na revista “Espaço Acadêmico” (Espaço Acadêmico).

 

 Entre outras reflexões sobre a ambiguidade nas relações entre Israel e os remanescentes da “diáspora”, Rattner afirmou com toda ênfase: “Se não formos capazes de assimilar essa lição da História, abrindo mão da visão estreita do “povo eleito” que conduz a atitudes de preconceito e exclusão com relação aos “outros”, particularmente os palestinos e os árabes em geral, não haverá saída a não ser o confronto armado que já se estende por mais de três gerações.

 

 o semear o ódio pela violência contínua e aumentando o número de vítimas de ambos os lados, perdemos o “olam haze” e “olam haba”, ou seja, desarticularmos a comunidade, a coesão e a solidariedade da sociedade israeli e afastamos a amizade e o apoio da comunidade democrática internacional”.

 

 Os judeus como povo sofrido não têm nenhuma culpa nesse genocídio cruel e insano que os títeres da indústria bélica perpetram contra um milhão e meio de seres humanos confinados no megacampo de concentração de Gaza, valendo-se do maior arsenal de guerra por metro quadrado do mundo.

 

 Pelo histórico desse povo milenarmente incompreendido, praticar tal monstruosidade seria a última coisa que lhe ocorreria. Não faz muito, o ditador nazista Adolph Hitler cimentou sua ascensão (e granjeou popularidade entre os alemães) com o morticínio de milhões de judeus, aos quais imputava levianamente a culpa pelos males do mundo.

 

 Naqueles dias épicos do Gueto de Varsóvia e tantos traumas ferinos, enquanto livrava a cara dos banqueiros, o abominável nazista fazia política com os fornos crematórios destinados à “solução final” contra um povo que passara por odisséias igualmente dolorosas em séculos pretéritos.

 

Pode ser que os judeus de hoje não lembrem o que sofreram seus antepassados, alguns ainda vivos para contar o horror que os marcou para sempre.

 

 Mas se a eles ocorrem as lembranças do velho testamento, do “bode-expiatório” e tantas provações, de certo nenhum judeu fiel aos ancestrais concordaria, sob nenhuma hipótese, que uma população seja IMPIEDOSAMENTE PRIVADA DE ÁGUA E LUZ EM TODOS OS LARES, hospitais e outras edificações, enquanto uma aviação cega despeja bombas mortíferas sobre bairros inteiros, numa patética repetição, segundo novas tecnologias, da execução sumária de milhares de judeus nos crematórios.

 

 Conheço muitos judeus e tenho certeza de que eles estão envergonhados das torpezas das tropas que, no encalço de alguns fanáticos inconformados, punem um povo inteiro, algo que não tem explicação, até porque, como é público e notório, o temível Mossad é considerado um dos mais eficientes serviços secretos do planeta e tem a Faixa de Gaza na palma da mão, sabendo quem é quem, onde cada “inimigo” se esconde.

 

 Ameaça a todos

 

 Pode ser que esses judeus, meus conhecidos, tenham resvalado da vergonha para o medo e a perplexidade. Pois se para o governo de Israel não há crime em matar centenas de civis, entre eles dezenas de crianças, para qualquer um, sem a responsabilidade de Estado, a exceção do inocente deixa de existir, tal como aconteceu na destruição das torres gêmeas em setembro de 2001.

 

Numa hora dessas, só os judeus da plumagem dos Rothschild estão seguros em suas fortalezas inexpugnáveis, em seus carrões blindados. Como no tempo de Jesus Cristo, os “sábios do templo” e os coletores de impostos da Judéia colaboraram com a ocupação romana, também na febre nazista quem pagou o pato foi a massa dos guetos: os endinheirados sempre dispunham algum suborno e fechavam acordos por baixo do pano para atravessarem as fronteiras em direção à Suíça, Países Baixos, Inglaterra, Estados Unidos e outros guardachuvas.

 

 Esse massacre com o qual o governo de Israel desafia a ONU e o que resta de sentimento humano na face da Terra é mais uma afronta que vai para a robusta coleção de perversidades, iniciada mesmo antes da oficialização do sionismo, quando o Haganá, o Irgun e o Stern, milícias terroristas financiadas pelo Barão de Rothschild, espalharam a violência que serviu de espinha dorsal para a estrutura política e militar do novo Estado racial imposto a ferro e as fogo, no bojo de uma resolução que previa hipocritamente o reconhecimento de um Estado palestino árabe.

 

 Os judeus que não vivem do controle das indústrias bélicas, que não espoliam o mundo através do sistema financeiro inventado na segunda metade do Século XVIII por Mayer Amschel Rothschild, o pai dos agiotas, são pessoas como nós, generosas, inquietas, amantes dos seus semelhantes, com os quais convivem fraternalmente, como na nossa emblemática Rua da Alfândega.

 

 Dedicam-se como ninguém às artes e às ciências, ao bem e à solidariedade. Se eventualmente se organizam em sociedades fechadas, o fazem em função do culto de suas tradições e premidos pelos anátemas que lhes perseguem por 5.769 anos, os quais, internacionalizados nos recônditos de suas mentes, cegam-lhes os olhos diante das brutalidades praticadas por alguns dos seus, em nome de um projeto segregacionista de viés econômico e imperialista.

 

 Brutalidades que impõem até mesmo a rediscussão do Estado de Israel, um complexo militar que transpira beligerância por todos os poros, numa roda viva tão macabra que o asfixiamento e a matança da população de Gaza viram trunfos eleitorais por uma química diabólica que produz a mais incontrolável das síndromes de guerra.

 

 Os judeus que ainda reverenciam seus mortos na Alemanha nazista precisam abrir os olhos, antes que seja tarde demais. Esses aloprados que estão semeando mais 50 anos de ódios raciais têm à mão um poderoso arsenal atômico, como denunciou à imprensa britânica já em 1986 o cientista nuclear israelense Mordechai Vanunu, que, por isso, foi sequestrado em Roma pelo Mossad, o serviço secreto do seu país, onde pegou 18 anos de cadeia e até hoje sofre todo tipo de perseguição por sua posição pacifista.