Deus é brasileiro

Para os crédulos, o recém descoberto campo Tupi, com jazidas de até oito bilhões de barris de petróleo, se deveu à interferência divina. Para eles, a prova irrefutável do favorecimento de Deus aos brasileiros prende-se à comprovação da existência desse campo gigante ter ocorrido dias antes do Brasil entregar, através da nona rodada de leilões da Agência Nacional do Petróleo (ANP), alguns blocos contíguos, com provavelmente outros bilhões de barris. Se a providência divina não tivesse se antecipado à predatória rotina da ANP, seus contratos de até 30 anos com empresas estrangeiras possibilitariam a exportação do valioso e estratégico produto e nos restaria lamentar a perda das preciosas reservas e a evasão de muitos bilhões de dólares, em detrimento da economia nacional.
 
A festejada descoberta, com ajuda divina ou não, mostra o admirável desempenho da equipe técnica e da alta administração da Petrobrás, com reconhecido mérito para o próprio governo, sempre apoiando as ações da empresa. O Brasil recebe os benefícios da duração do monopólio estatal durante mais de 40 anos, o qual, visando acima de tudo o interesse nacional, viabilizou a realização de dispendiosas pesquisas e a perfuração até 7.000 metros do subsolo marítimo, após superar 2.000 metros de uma camada de sal. Haveria competência, recursos e decisões de risco por parte de empresas privadas, especialmente estrangeiras, com visão de lucro imediato, para tão ousado desenvolvimento tecnológico e prospecção?
 
Sobre esse ponto, chega a ser cômico um testa-de-ferro do mercado afirmar ser errada a conjectura existente no momento, de só a Petrobrás ficar com os blocos da área do pré-sal, por significar uma “monopolização”. Críticos declararam, também, que o país perde credibilidade com a retirada dos 41 blocos da nona rodada, mas a realidade é que superamos, a tempo, aquela falsa credibilidade encontrada em paises ingênuos e passamos a agir como nação soberana.
 
No raiar desse novo horizonte de amadurecimento do sentimento pátrio, foi muito acertada, também, a decisão governamental de taxar mais a nova produção petroleira dessa promissora região, pois a atividade petrolífera no Brasil vem oferecendo, de uma forma geral, pouco retorno, quando comparada com a taxação de outros países. Se já não for abuso pedir mais uma graça ao Senhor, gostaríamos que Ele iluminasse os membros do governo, impedindo que todas essas novidades, tão benéficas ao Brasil, sejam maculadas pelo fato da oitava e da nona rodadas estarem marcadas para acontecer, antes da reformulação prometida da lei 9.478.
 
A Agência sempre repetiu que as rodadas de leilões eram necessárias para garantir a auto-suficiência futura de petróleo, apesar da Petrobrás declarar que a garantia por, no mínimo, 17 anos. Com as novas descobertas, o abastecimento do Brasil estará garantido por, no mínimo, 27 anos e, assim, a pressa em descobrir petróleo, nesse momento, resultaria numa danosa exportação.
 
Ademais, resta uma alerta às autoridades para que considerem o fato de, na oitava rodada, existirem blocos na área do pré-sal e, se os blocos desse tipo foram retirados da nona rodada, por que não o foram da oitava? Outro ponto digno de registro e merecedor de reparos é o fato de declararem que a oitava rodada é para a descoberta de gás e, por isso, não deve ser postergada. É temerosa essa afirmação que um conjunto de blocos tem maior probabilidade de ter gás do que petróleo.
 

Faz-se urgente repensar o modelo de exploração do setor petróleo considerando, acima de tudo, o interesse nacional, como bem afirmou nosso governo e, nesse momento tão promissor para a nacionalidade, aproveitamos para dar parabéns ao povo brasileiro, que além de ter sido agraciado com maiores reservas de petróleo tem, como conterrâneo, nada menos que o Bom Deus.

* Sergio Ferolla, brigadeiro, membro da Academia Nacional de Engenharia
* Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia