Câmara celebra centenário de Salvador Allende

Líder do PDT destaca trajetória do ex-presidente chileno

O líder do PDT discursa na tribuna da Câmara  na sessão em  homenagem a AllendeSessão solene realizada pela Câmara dos Deputados na manhã desta terça-feira (21) homenageou o centenário de nascimento do ex-presidente do Chile, Salvador Allende. A solenidade foi proposta pelo líder do PDT, Vieira da Cunha (RS), em conjunto com o deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP). “Homenagear Salvador Allende é lembrar e saudar a luta de todos os militantes socialistas que tombaram perante as ditaduras militares que se instalaram em nosso continente, usurpando a vontade soberana do povo expressa em eleições livres e democráticas”, discursou Vieira. 

O líder do PDT destacou a trajetória pessoal e política do ex-presidente chileno nascido em 26 de junho de 1908, em Valparaíso. Vieira lembrou que Allende participou, em 1933, da fundação do Partido Socialista do Chile. Médico, aos 31 anos de idade foi ministro da Saúde e exerceu o cargo de senador a partir de 1945, ocupando a presidência do Senado do Chile entre 1966 e 1969. O parlamentar recordou que Allende foi eleito presidente da república em 1970, mas teve o mandato e a vida interrompidos pelo golpe militar de setembro de 1973. 

Para Vieira da Cunha, as circunstâncias da morte de Allende, quando do bombardeio do Palácio de La Moneda – sede do governo chileno –, o converteram num dos ícones das forças de esquerda de todo o mundo. “O suicídio, a mesma saída digna encontrada pelo brasileiro Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954, foi o caminho que as circunstâncias daquele 11 de setembro de 1973 apontaram para Salvador Allende sair da vida para entrar na história, escrevendo para sempre o seu nome na galeria dos grandes homens públicos da política latino-americana”, afirmou o líder do PDT.

Lição contra a covardia e a traição

Em seu discurso, Vieira citou trechos dos últimos pronunciamentos do ex-presidente chileno antes de sua morte. De acordo com o pedetista, as falas de Allende demonstram a sua firme determinação de resistir ao golpe militar e defender a democracia. “Deixarei La Moneda quando cumprir o mandato que o povo me deu, defenderei esta revolução chilena e defenderei o Governo porque é o mandato que o povo me entregou. Não tenho outra alternativa”, declarou Allende em discurso transmitido por uma rádio chilena. “ Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras. Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão; tenho certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição”, disse o ex-presidente em seu derradeiro pronunciamento. 
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, os deputados Vieira da Cunha e Paulo Renato e o embaixador do Chile, Álvaro Díaz
Na opinião de Vieira da Cunha, o suicídio de Allende, além de ter sido de fato uma lição contra a covardia e a traição, foi acima de tudo uma lição de civismo, coragem e patriotismo para todos os que querem fazer política com honra e dignidade. Para ele, o sacrifício de Allende certamente não foi em vão. “Ele é um facho de luz, um radioso e inapagável facho de luz a guiar o caminho de todos os militantes da causa socialista mundo afora. Um exemplo de alguém que ofereceu a sua própria vida em sacrifício para afirmar os ideais da democracia e do socialismo. Viva para sempre o grande Salvador Allende”, exaltou Vieira.
O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), elogiou a iniciativa do líder do PDT de propor a sessão solene. Segundo ele, a homenagem engrandece quem a faz dada a dimensão histórica de Salvador Allende. “Todos os homens e mulheres que um dia lutaram por ideais de justiça e democracia são lembrados neste momento. O exemplo de Allende enobrece a nossa América Latina e sua memória nos orgulha”, afirmou Chinaglia. Também falaram em nome de suas respectivas bDeputado Vieira da Cunha e o embaixador do Chile, Álvaro Díaz ancadas os deputados Mauro Benevides (PMDB-CE), Eduardo Valverde (PT-RO), Alcenir Guerra (DEM-PR), Paulo Renato Souza (PSDB- SP), Jô Moraes (PC do B- MG) e George Hilton (PP-MG). 

Prestigiaram a solenidade parlamentares, autoridades, convidados e representantes do corpo diplomático. Estavam presentes os embaixadores do Chile, Álvaro Humberto Diaz (na foto com o dep.Vieira da Cunha); do Uruguai, Carlos Amorim; do Reino Unido, Peter Collecott; do Panamá, Juan Bosco Bernal; da Sérvia, Dusan Gajic; da Tanzânia, Joram Mukama Biswaro; da República Islâmica da Mauritânia, N’Diaye Kane. 
 
Na abertura da sessão, foi exibido um trecho do documentário “Buscando a Allende”, do diretor Carlos Pronzato. 

Íntegra do discurso do deputado Vieira da Cunha

Salvador Allende

Allende estudou medicina na Universidade do Chile e, em 1927, foi eleito presidente do Centro de Alunos. Na mesma época, entrou para a maçonaria, seguindo uma tradição familiar. Em 1933, foi um dos fundadores do Partido Socialista Chileno, dele fazendo parte até 1946. Em 1937, foi eleito deputado e, dois anos depois, nomeado ministro da Saúde, função que exerceu até 1942. No ano seguinte, assumiu a direção do partido. Em 1945, foi eleito senador, cargo que ocupou durante 25 anos.

Salvador Allende perdeu por três vezes as eleições presidenciais, em 1952, 1958 e 1964, mas conseguiu eleger-se presidente do Chile em 1970, como candidato de uma coligação de esquerda, a Unidade Popular. Assim, entrou para a história da política mundial como o primeiro marxista a chegar ao poder através das urnas.

Allende assumiu a presidência no dia 3 de novembro de 1970 e durante seu governo nacionalizou as minas de cobre, a principal riqueza do país. Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e fez a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras improdutivas e entregando-as aos camponeses.

Desde que assumiu o poder, Allende tinha em mente o projeto de construir um “caminho chileno para o socialismo”. Assim provocou a oposição da direita e do governo norte-americano, que uniram suas forças para prejudicar sua política. Em 4 de setembro de 1972, Allende denunciou em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile.

A situação econômica tornou-se catastrófica Os investimentos privados do Chile caíram e o desemprego aumentou velozmente. A população se revoltou e passou a protestar em manifestações turbulentas com a paralisação dos transportes e do comércio e com inúmeros atentados, que provocaram apagões e danificaram pontes e oleodutos.

Apesar das graves dificuldades econômicas, a Unidade Popular obteve 43% dos votos nas eleições de 1973. Em junho desse mesmo ano, porém, ocorreu uma frustrada tentativa de golpe de Estado. Três meses depois, no dia 11 de setembro, o governo de Allende foi derrubado pelo exército, liderado pelo general Augusto Pinochet.

Decidido a não entregar o poder, ele se suicidou na sala da presidência, com um tiro na cabeça de fuzil automático AK-47, presente do amigo cubano Fidel Castro. Naquele dia, aos 65 anos, tornou-se uma das primeiras vítimas da ditadura militar chilena, que durou 17 anos e deixou pelo menos três mil mortos ou desaparecidos. 

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