Brizola: “Nosso povo não realizará seu destino se não se organizar”

Brizola, no Encontro de Lisboa, fez um discurso histórico do partido que imaginava. Fruto de suas observações e idéias recolhidas ao longo de anos de exílio que ele chamou de “contribuições sinceras para nossa reunião”. Vale a pena repassar tudo o que disse.

O Editor




DISCURSO DE LEONEL BRIZOLA NO ENCONTRO DE LISBOA

 

Junho de 1979

 

 

COMPANHEIROS E COMPANHEIRAS,

 

Neste momento não poderia deixar de registrar com grande emoção, que pela primeira vez, depois de tantos anos, um conjunto tão numeroso de companheiros, vivendo já um outro ambiente de esperança, com outra perspectiva, consegue estar junto para debater e organizar. Especialmente para nós – companheiros e companheiras que vêm do Brasil – é realmente um acontecimento de grande significação esse nosso Encontro. Eu estou convencido que nós, sem nenhuma pretensão, modestamente, mas com imensa fé, estamos escrevendo aqui um episódio bem significativo da nossa História. Acho mesmo que estamos fazendo um pouco da História brasileira. No dia de hoje, creiam companheiros, que nós reunidos, vivendo esta responsabilidade, temos sobre os nossos ombros uma tarefa de tal ordem que nos deve fazer pensar e refletir muitíssimo. Não apenas em nossas palavras, em nossas iniciativas, em nossas discussões. Estou seguro que ninguém viajou de tão longe, que ninguém trabalhou tanto, senão para concentrar todo o seu esforço, toda sua capacidade, no sentido de encontrar soluções, no sentido de realizar essa colaboração fraterna que nos reúne. Precisamos fazer com que a nossa contribuição à causa do nosso povo – porque não é outra a razão que nos reúne aqui nesse momento – possa ser enriquecida com esse Encontro e com o nosso trabalho.

 

Durante todo esse tempo tenho naturalmente procurado reunir notas, observações, opiniões de muitos companheiros e muitas pessoas que até mesmo nada têm a ver com o nosso Partido. Também tenho recolhido os resultados de muitos diálogos, de muitas trocas de idéias – com uma quantidade imensa de pessoas – que no curso desse nosso exílio, tão  longo, fomos acumulando. Procuramos reunir tudo isso sob forma de sugestões para os companheiros, e para que o nosso Partido, em suas bases, pudesse usar esse material para discussão e procurar as soluções que o nosso povo tão desesperadamente tem buscado através de sua história.

 

Por conseguinte, essas considerações que pretendo aqui desenvolver não têm nenhum sentido de trabalho exclusivamente pessoal, como também não representam nenhum outro valor senão o de uma simples sugestão, de uma contribuição sincera para as nossas reuniões, para o desenvolvimento de nossos esforços nessa imensidão física e social que é o nosso País, visando ressurgimento do nosso Partido. Porque, realmente, creio que nós estamos inteiramente identificados quanto à convicção de que o nosso povo não conseguirá realizar os destinos que merece se não se organizar, se não conseguir estruturar – grandes Partidos que canalizem suas aspirações. Assim, consideramos que a tarefa mais importante para todos aqueles que desejem ajudar e integrar-se nas lutas do nosso povo é colaborar para a construção do nosso Partido. Não creio que o nosso povo consiga alguma coisa duradoura sem estruturar essa organização. E nós, trabalhistas, desejamos canalizar nossas energias, aspirando a que o nosso Partido venha a ser esse grande instrumento do povo brasileiro.


“O essencial é que o Partido se organize
e adquira as dimensões que o nosso povo necessita
para que então esse Partido seja o seu instrumento”


De pouco adiantará que nós trabalhistas amanhã concorramos a eleições, elejamos companheiros, prefeitos, governadores, Presidente da República. Isto nada significará, pelo contrário, será até um retrocesso, se essas responsabilidades na condução do País forem conquistadas sem que tudo isso seja respaldado por um grande Partido, por quadros preparado-se por soluções alternativas antecipadamente estudadas. Porque isso seria a condução  de um companheiro para um cargo com uma multidão desorganizada atrás. O próprio presidente Vargas teve que dar um tiro no coração porque, para respalda-lo não havia o povo organizado. Essa é a nossa grande tarefa. E se nós necessitarmos permanecer anos e anos na oposição organizando o nosso partido, não tem importância. O essencial é que o Partido se organize e adquira as dimensões que o nosso povo necessita para que então esse Partido seja o seu instrumento. Creio que a partir de agora, quando estamos vivendo ainda um período de indefinições, um período obscuro, sem nenhuma clareza com respeito à organização partidária, especialmente sobre o aspecto de sua legalidade, creio que existem no Brasil, já espaços políticos para se começar a tratar de reorganizar o nosso Partido. Esse é o depoimento de todos os companheiros e nós aqui fora chegamos a notar que realmente existem espaços políticos. Então temos que ir ocupando estes espaços. É verdade que nós não temos nenhum respaldo legal, mas existem espaços políticos reais, uma possibilidade real de organização. É verdade que muitos companheiros vacilam a esse respeito, seja porque isto ainda é uma incerteza, seja porque não sabem se o Partido pode ou não concorrer às eleições.

 

Eu creio que essa consideração é verdadeiramente secundária, porque a nossa preocupação essencial, fundamental, é organizar o partido, e oportunidades já temos para desenvolver essa organização a nível popular. De pouco serviria a nossa causa se tivéssemos daqui a seis meses eleições e pudéssemos organizar diretórios, comissões executivas perfeitamente legais por todos os Estados da Federação, e andássemos atrás de pessoas para ver se concordariam em integrar uma chapa de candidatos. Isto seria o desastre para o nosso partido.

 

Antes de convidar pessoas apenas para serem candidatos, antes de estar formando chapas, nós temos que organizar as nossas bases, temos que estar no meio do povo, no seio dos trabalhadores, com organismos os mais despretensiosos, modestos, simples, mas esparramados pelo Brasil inteiro. E a partir daí os órgãos de cima são muito fáceis de compor. Esta é a visão que tenho. Já se convencionou muito repetir, está muito em moda repetir, que os Partidos se organizam de baixo para cima. Eu creio que não é preciso nem usar esta expressão, porque é o nosso caminho natural da organização. Eu creio que no Brasil está aberta essa oportunidade, que depende naturalmente, de muito trabalho, de muito esforço.

 

Existirão canais mais ou menos fáceis, mais ou menos difíceis e a nossa capacidade estará em descobrir esses canais e, sobretudo, eu considero que é muito importante que haja um ambiente de certa espontaneidade. Temos que estimular o espírito de criatividade de nosso povo, fazendo com que surjam organismos de base, núcleos os mais diversificados pelo País, porque então estaremos construindo junto com ele uma obra permanente. Temos que enraizar o nosso Partido em organizações populares que estejam diretamente vinculadas ao dia a dia de nosso povo, nos lugares onde mora e nos lugares onde trabalha. Que a organização do Partido faça parte da família, da vivência do nosso povo, do seu ambiente.

 

É dentro dessa visão que preparei essas notas e não desejo de forma alguma que elas sejam depois apresentadas como as “sugestões do Brizola”. Não, eu não tenho essa pretensão nem posso ter, sempre fui até um homem de ação. Assim foi nos postos que desempenhei na Administração e assim foi também durante toda a minha vivência no seio do nosso Partido. Eu recolhi este material de muitas partes, acrescentei aqui as minhas próprias reflexões e gostaria que estas notas, sobre o conjunto de temas que reúne os grandes princípios e definições do nosso Partido pudessem contar com o apoio e a colaboração dos companheiros que viajaram de tão longe para esse Encontro. Procurei uma forma mais prática de recolher e canalizar essa colaboração. Nós aqui não iremos deliberar nada sobre isso, quem tem de deliberar sobre isso é o Congresso do nosso Partido.

 

Neste Encontro de Lisboa,onde contamos com tantos companheiros prestigiosos e gente das novas gerações, estamos nós aqui, da geração anterior, para nos integrar com os companheiros mais jovens e dar assim a continuidade histórica aos nossos ideais. Embora deva registrar que eles não são tão jovens assim – é uma camada de jovens que vai ascender rapidamente para os postos dirigentes do nosso Partido, porque logo atrás vem oura camada de jovens. Considero que seria extremamente indicado marcar para daqui a um ano, ano e meio quem sabe, a data do Congresso Nacional do nosso Partido. Até lá, teremos tempo de trabalhar, de nos desenvolver na imensidão do nosso território, ir ao encontro de nossa gente por toda a parte, num esforço de organização, mas já com um objetivo certo: naquela data iremos realizar o nosso Congresso Nacional! Com milhares de companheiros presentes, a se derramarem de todos os recantos de nossa Pátria, procedentes dos lugares mais longínquos; então poderemos decidir nesse Primeiro Congressos, quanto à fase nova do trabalhismo, sobre o nosso programa e sobre muitas outras questões. É uma questão que pretendo colocar como uma iniciativa minha, como proposta aos companheiros.

 

Pensei, portanto, que seria uma maneira eficiente de podermos canalizar aqui a colaboração dos companheiros, se com base na estrutura dessas nossas sugestões, formamos várias comissões e distribuirmos todo esse material entre os presentes. Paralelamente às reuniões do nosso Encontro, essas comissões trabalhariam nos hotéis ou aqui em algumas salas da sede do Partido Socialista, porque estão previstas sessões de manhã, e à tarde, entrando um pouco na noite. E depois do jantar, teriam os companheiros a noite para se reunir e examinar não apenas essas notas, mas incluir também as suas sugestões, enriquece-las com o seu pensamento. Organizaríamos depois, entre os companheiros aqui mesmo de Lisboa e os que aqui permaneçam por mais tempo, uma comissão revisora e de redação final. Quer dizer que o Encontro, segundo estou imaginando, não deliberaria sobre esse assunto, mesmo porque não passam de sugestões. Então essa Comissão revisaria esse material, elaboraria sua redação final e comporia um volume. E este volume seria remetido para o Brasil, juntamente com outras sugestões que  naturalmente vão surgir de outras fontes. Esse material seria debatido nos milhares de seminários, de simpósios, de reuniões de estudo, que os companheiros terão que realizar pelo Brasil a fora, nos municípios, nos distritos, nos bairros, por toda a parte do nosso País. Porque essas pequenas reuniões vão ser realmente de uma significação importantíssima no processo de organização do Partido. Essa é um pouco a idéia que formei a esse respeito. Esta é uma parte de nossos trabalhos porque, independentemente do que debatermos da conjuntura brasileira, de outros problemas ligados à organização, de nossos esforços em torno do ressurgimento do trabalhismo, o Encontro terá o seu comunicado, reunindo as suas conclusões.


A nossa visão de Nação, de nacionalidade, 
está enfocada magistralmente no documento maior
de todo o nosso patrimônio que é a Carta Testamento”


Assim nós pensamos que esses princípios e definições do trabalhismo podem ser divididos, essencialmente, em dois campos. O primeiro é uma espécie de plataforma comum, acreditamos com outras correntes políticas, inclusive mesmo as liberais com uma orientação mais social. Acreditamos que muitas outras correntes de pensamento, mais concretamente outros partidos, poderão comungar destes mesmos princípios, desses mesmos compromissos com respeito à Nação brasileira, à nossa nacionalidade, à liberdade, à democracia, às concepções sobre o Estado Democrático, sobre a nossa soberania, sobre o que realmente significa e quer dizer segurança nacional, a ordem democrática etc. Embora deva-se dizer que esses princípios costumam ser expostos muito da boca para fora. Nós os consagramos de fato. Quando nos referimos à Nação e nacionalidade, queremos dizer simplesmente o seguinte: que este é  nosso grande compromisso, ele está acima de tudo para nós. Na minha concepção, trata-se de algo que está acima de qualquer outra consideração. Visão que não é a mesma, enunciada acima convencionalmente, tradicionalmente, de um ângulo elitista. A nossa visão de Nação, de nacionalidade, está enfocada magistralmente no documento maior de todo o nosso patrimônio que é a Carta Testamento. Se analisarmos a Carta Testamento iremos verificar que ali o Presidente Getúlio Vargas deixou realmente um conceito fundamental sobre o que é a Nação brasileira e sobre o que significa e representa a nacionalidade. E não aquele conceito tradicional, elitista de Nação, de independência nacional, que são finalmente valores para uma minoria, para alguns poucos, para um contingente minoritário de privilegiados para os quais as grandes massas populares do nosso País, as grandes maiorias, só realmente existem quando têm que se sacrificar para defender esses valores, nunca para viverem os benefícios desses valores.

 

Quando o país tem que entrar numa guerra iremos verificar que é o nosso povo humilde, sofrido, sacrificado, que vai entrar com a carne para a bucha do canhão. Mas na hora da paz, quem tira as castanhas do fogo são os contingentes minoritários. Recordo, por exemplo, que quando era Governador do Rio Grande do Sul, lá houve um acampamento de camponeses, imenso ao lado de uma grande extensão de terra completamente inexplorada. Acamparam na via pública. No começo eram mil, no outro dia já eram mais mil, e acabaram em cerca de dez mil, ali acampados, para criar o problema e pleitearam a divisão daquela grande extensão de terra. Então , a certa altura, estive lá como Governador, depois de dar toda a assistência sanitária, enfim, de segurança, de alimentação a toda aquela gente, àquele imenso contingente de famílias. Fiz um convite às autoridades do III Exército, à Justiça, à Igreja, às Federações do Comércio, da Indústria, aos Sindicatos. Convidei jornalistas, levei lá uma grande representação e comecei a fazer com eles um diálogo público. Perguntei muitas coisas. Deve haver uma gravação sobre isso. E quando cheguei, perguntei se vinham da cidade ou não, quantos filhos tinham – uma coisa comovente! Eu convidei o General para o meu lado e disse: Olhem, aqui está o General, Comandante do nosso Exército. Eu gostaria de saber se existe aqui algum reservista. Quase todos levantaram o braço. “Somos todos reservistas, Governador”. Digam uma coisa, perguntei: “Alguém aqui esteve na FEB? Quem esteve na guerra levante o braço”. Ah! Centenas levaram o braço. É, disseram, que nos davam tudo, Governador e não nos deram nada”. E outro gritou: “Estamos na miséria, ao temos sequer um pedaço de terra para plantar mandioca”. E gritaram aqui, ali e outro e outro mais. Eu olhava para o General: “Eu estou acreditando no que vocês estão dizendo, vamos fazer o seguinte: o General está aqui e ele conhece bem esse assunto. O Sr. Aí, por exemplo, o senhor onde esteve na guerra?” – “Eu estive em tal e tallugar, servindo ao major fulano de tal nos meses tais e tais”.

 

Ouvimos por meia hora o depoimento daquela gente. Depois perguntei: “É verdade, general?”. “É verdade,sim”, respondeu ele. E é bem o que ilustra o que eu estava afirmando. Na hora em que a Pátria, em que a Nação necessita, pe o nosso povo humilde que vai dar a contribuição de sangue, de maior sacrifício. Mas depois, na hora dos benefícios, na hora da paz, na hora das benemerências, tudo isso desaparece. Então, para o nosso conceito de povo, de nacionalidade, nós temos que assumir uma outra definição. Os companheiros vão encontrar sugestões a esse respeito.


“Como pode haver igualdade perante a lei
quando o lar do pobre é violado todos s dias?”


Quanto à nossa posição a respeito da liberdade, da democracia, também reunimos umas quantas sugestões para os companheiros considerarem. Essa é uma questão que considero muito importante! Nós não somos apenas comprometidos com a democracia, com a liberdade. Não. A democracia é  nosso ambiente. Não é possível conceber o trabalhismo sem que seja num ambiente democrático. Nós somos a causa das grandes maiorias, logo o nosso ambiente é a democracia. É muito importante essa definição, porque é uma bandeira que inclusive nos tem sido roubada. Ou, quem sabe, nós é que temos sido descuidados em relação a ela. Mas a democracia para nós precisa ser compreendida e entendida em todas as suas conseqüências, em todas as suas dimensões. Não apenas aquela que declara que todos nós somos iguais perante a lei, mas quando chega na hora não somos iguais. Como pode haver igualdade perante a lei quando o lar do pobre é violado todos s dias? E há verdadeiras “varridas” da política nos bairros, as favelas, por toda parte, quando todos têm direito à inviolabilidade do lar, segundo as declarações mais solenes de todas as Constituições.

 

A democracia para nós não é um simples caminho, não é um instrumento, não é um meio para atingir a outros tipos de organização social. E a socialização da economia e das estruturas sociais, enfim, o socialismo que buscamos só pode ser feito dentro de uma visão e de um ambiente democrático. Porque se o socialismo realmente não se realiza dentro dessa visão, o autoritarismo entra pela porta dos fundos. A partir do momento em que deixa de existir a liberdade, em que deixa de existir a democracia, em que nos falta esse ambiente para nós, trabalhistas, é como se nos faltasse o ara que necessitamos para respirar. Porque a partir daí já estará definitivamente implantado o autoritarismo. O autoritarismo pode se apresentar com a melhor das intenções, mas ele não deixa de ser o mesmo (Aplausos).

 

Também o ambiente da democracia e liberdade que ambicionamos não é aquele da raposa livre no galinheiro. Dada a nossa concepção pluralista da sociedade, nós não imaginamos, absolutamente, que desde logo tenhamos que excluir ou matar a raposa. Mas ela, por ser raposa, é preciso ter uma cordinha que limite os seus movimentos, porque senão, dentro do galinheiro, deixaria de haver democracia. As suas limitações seriam subordinadas, por conseguinte, aos direitos gerais da sociedade.

 

Os companheiros vão encontrar também a nossa visão sobre o papel do nosso povo neste contexto. Nós, trabalhistas, partimos do princípio de que não apenas o nosso povo tem esse conjunto de direitos como, também, ele é mais capacitado e melhor do que qualquer grupo elitista. A esse respeito, nada é mais ilustrativo que esses quinze anos. Aí tivemos um grupo selecionado, elitista, com o apoio de toda essa estrutura internacional que sabemos, sem nenhuma oposição. Ninguém pôde se opor a nada, ninguém impediu que fizessem o que queriam, pois não tiveram limitação alguma. E por que não solucionaram os problemas? Eu costumo dizer que a imensidão física e social do Brasil absorveu, comeu o regime, digeriu o regime, mostrando que o nosso desenvolvimento somente poderá ser feito quando começar a ser construído pelas próprias mãos do nosso povo.

 

E também um conjunto de definições que precisamos estabelecer claramente, especialmente pela confusão que esses quinze anos de autoritarismo deve estar gerando, especialmente junto às gerações mais jovens. Definir claramente o que significa para nós a soberania nacional, o que é isto de que tanto se fala, a tal de segurança nacional, o que quer dizer a ordem, já que a nossa própria bandeira estabelece lá ordem e não pretendemos tira-la da nossa bandeira. O que quer dizer isto – ordem? O que é a ordem democrática?  Assim também a própria autoridade. Que quer dizer para nós autoridade? O que quer dizer para nós o Estado? Quais as nossas concepções sobre a organização do Estado? O Estado para nós é uma comunidade de servidores? É um conjunto de estruturas que tem que funcionar de acordo com a vontade, sob o controle do povo? Ou é um castelo fortificado e guarnecido de aristocratas e de autoridades distantes do povo, inacessíveis? Ou um ninho de águias lá no cimo de uma montanha E assim por diante…

 

Neste âmbito, por exemplo, vem as nossas definições com respeito às Forças Armadas, já que estamos emergindo desta distorção histórica que acabamos de referir e de viver. Temos que assumir uma definição clara a esse respeito. Qual a nossa visão? É um tem que tem os seus aspectos de certa delicadeza, mas que nós precisamos enfrentar e definir nossa posição claramente. Particularmente, a minha sugestão é de que os devemos ver as Forças Armadas como entidade permanente e que tem as suas funções estabelecidas pelo povo brasileiro em suas instituições. É o povo brasileiro que tem que definir, por conseguinte, através da eleição de seus representantes legítimos, quais são as funções das Forças Armadas (Aplausos). E não são difíceis de definir. Já há um consenso de que elas tenham atribuições perfeitamente claras. Por outro lado, entendo que nós, trabalhistas, ao estudar a fundo esse problema, devemos encarar e considerar toda a experiência desses anos do passado em que atuou o nosso Partido. E aí vem, por exemplo, a questão, que considero fundamental, que é a de cultivar uma corrente contra outra, que tem sido uma tradição na vida brasileira. Considero que seria extremamente construtivo para a vida e para a democracia brasileira se encarássemos esse problema sob uma visão muito mais ampla. A nossa autoridade moral e a autoridade moral do povo brasileiro está em considera-las em conjunto, em suas funções, em suas atribuições; fazer com que  o povo, a sociedade civil, possa influir e orientar de tal modo que se estabeleça uma real formação democrática nas nossas Forças Armadas, afastando-se e afastando-as de todas as formas da chamada linha do golpismo. Porque o golpismo, seja de direita, seja de esquerda, é algo que entramos nele e nunca mais se sabe quando saímos. (Aplausos). Verdadeiramente, aliás, o golpismo (nós sabemos de experiência) não é um processo que interesse ao povo realmente. Esse é um processo de grupos minoritários, é um processo elitista. Pelo povo brasileiro estaria até hoje em vigência a constituição de 1946, embora aperfeiçoada, ampliada, aprofundada. Todas as liberdades, todos os direitos do povo brasileiro estariam a essa altura ampliados em vez de restringidos. E no entanto nós, a nossa geração, assistiu a quantas tentativas de golpe? Em 54, em 55, em 61 e finalmente em 64. e não foram golpes que partiram do povo, absolutamente. Interessa às minorias e não às grandes maiorias do nosso povo.

 

Na segunda parte nós procuraríamos estabelecer as nossas definições dentro de uma visão do trabalhismo. Aí então nós nos distinguíamos, porque todas essas questões anteriores, acreditamos, existirão ouras correntes de pensamento que as consagrarão. Agora, a partir daqui, passaremos a caracterizar as nossas posições. Aqui os companheiros das comissões irão encontrar a nossa concepção sobre trabalhismo, daí partimos para todo um campo de doutrina, para toda uma engenharia, através da qual focamos a nossa realidade e formulamos as nossas propostas. Partimos desta concepção de que o trabalhismo se fundamenta no primado dos valores do trabalho!



“O trabalho  é a fonte originária de todos os bens 
e riquezas e é a relação básica sobre
a qual se constitui a vida social.”


Como doutrina, o trabalhismo tem seu fundamento no primado dos valores do trabalho. O trabalho  é a fonte originária de todos os bens e riquezas e é a relação básica sobre a qual se constitui a vida social. O trabalhismo ressalta o sentido social do trabalho como raiz, não somente de valores econômicos, como também de valores éticos, políticos e culturais e, desses princípios, resultam para nós definições assim:

 

1º que o trabalhismo considera e defende os valores humanos e a partir do trabalho, como uma das verdadeiras dimensões de justiça o conjunto das relações sociais. Para o trabalhismo em primeiro lugar está a pessoa humana, sua condição de ser social e ser que trabalha, sujeito de sua ação e consciente de sua liberdade, mas comprometido solidariamente com os demais na sociedade. O indivíduo e a família, esta como núcleo natural e básico de toda a vida social, inerente à própria natureza humana e onde o trabalho emerge igualmente como atividade solidária.

 

2º o trabalhismo consagrando o primado dos valores do trabalho e o conteúdo ético e social que é parte inseparável desse princípio e partindo das atuais condições da nossa realidade, é a ação política visando a transformação das estruturas econômicas e sociais, no sentido de uma crescente participação do povo trabalhador, não somente nos frutos da produção e do desenvolvimento, quanto nas áreas de decisão de todas as relações na sociedade. é assim, para nós, o trabalhismo uma doutrina dinâmica, democrática e democratizadora. E o seu objetivo é a participação crescente de um número cada vez maior de homens e mulheres em todos os campos e atividades, nas decisões políticas e nos bens da civilização.

 

Em relação a sua base social, o trabalhismo expressa essencialmente os direitos e as aspirações dos que  dependem do trabalho para viver. De todos os que, solidariamente, aceitam e defendem seus postulados e princípios e de todos os que, enfim, exercem um trabalho ou qualquer forma de prestação de serviços como atividade social útil e, de um modo especial, das populações marginalizadas, os milhões de brasileiros oprimidos e abandonados, sem oportunidade de trabalhar condignamente e desenvolver suas potencialidades. Abrange, assim, o trabalhismo, um amplo arco social cuja espinha dorsal são os trabalhadores e camponeses de todo o Brasil.Desde as populações mais pobres e marginalizadas, os subempregados, os assalariados em geral, os camponeses, os pequenos produtores do interior, funcionários, profissionais, enfim, mães e donas-de-casa, como parte do trabalho não remunerado, aposentados, classes médias e empresários nacionais da indústria, do comércio e do campo que aceitem o sentido social e o conteúdo ético e democratizador do programa trabalhista. É assim com nós definimos a base social do trabalhismo.

 

Naturalmente que aí se caracteriza perfeitamente o sentido pluriclassista, porque consideramos que o Partido tem que ter esse sentido de causa nacional. Entendemos que não há solução para nenhum setor das áreas onde a classe trabalhadora está organizada, onde o sindicalismo chegou ao mais alto nível, frente às multinacionais estabelecidas no País. Aquela área de trabalhadores necessita fundamentalmente da solidariedade geral do nosso povão que existe por todos os recantos da nossa pátria. Não conseguirão defender is os seus próprios interesses sem o apoio de todo o povo. E o povo brasileiro necessita dela porque aquele é o contingente avançado da classe trabalhadora, indispensável para construir o nosso desenvolvimento. E por que isto? A explicação passa pelo portão da fábrica. Nas fábricas suecas, almas ou holandesas, para o trabalhador do terceiro mundo chegar até o portão, ele necessita de passaporte com visto para trabalhar naqueles países. No Brasil, não! Basta vir do Nordeste e do Norte, de Minas, do Sul etc, para o portão das fábricas, até sem carteira de identidade. E aí já se vai todo o poder que os trabalhadores devem ter em suas mãos para negociar com aquelas empresas. Então, a sorte daqueles companheiros que estão ali naquele setor avançado da classe trabalhadora, está intimamente ligada com a situação do marginalismo brasileiro. Não há solução para eles sem solução para o marginalismo. E não há solução para o marginalismo, sem eles. (Aplausos)

 

“O nosso Partido é o das grandes maiorias populares”


Para o nosso caso, nossa doutrina social tem este sentido. Pode ser que para Portugal, não. Pode ser que para a Suécia seja muito diferente, como é. Basta dar ainda uma outra ilustração. Sustento desde jovem, quando fazia conferências na UNE e aí pelo país afora quando nascíamos para essa ordem de problemas, sustentava o ponto de vista de que nossa economia é modelada para servir aos interesses internacionais, tocar nestes interesses é ntocar nos interesses de fora. Isto não ocorre com os países industrializados. Reformam sua estrutura interna como querem. Tocam na terra, em outras estruturas da vida interna. É um problema deles! Nós, não! Tocamos nos nossos problemas, na nossa estrutura e estamos tocando nos interesses internacionais. Daí o sentido de causa nacional que a Carta Testamento nos deixa de maneira muito clara.

 

O nosso Partido é o das grandes maiorias populares, mas aí também está claramente uma opção. É possível que alguém diga, mas isto é uma Arca de Noé que não se define. E vem com uma terminologia muito acadêmica (sem nenhum desprimor aos nossos companheiros acadêmicos), teórica, elitista, cientificista, muito respeitável, mas sem aplicabilidade prática à realidade. Verdadeiramente, as causas do povo têm que ser atingidas assim, mas não é tão arca de noé, não. Porque aí está uma opção pela nossa pobreza, pelo nosso povo. E nós, trabalhistas, segundo esta proposta, temos que ir mais longe. Aí está, então, uma posição da maior importância, como definidora da nossa autenticidade.

 

Muitos poderão dizer, mas isto é o socialismo! Perfeito, nós não nos preocupamos muito com etiquetas. Temos que buscar uma definição enraizada no povo, na História, no contexto da realidade, nas tradições, que seja perfeitamente inteligível e compreendida pelo nosso povo. É possível que uma outra definição teórica possa ser mais perfeita, mas a definição que precisamos é aquela que tem que ser absorvida, entendida pelo povo. Acho que o trabalhismo já está incorporado à vida do nosso povo, e através dele nós podemos buscar as posições e as definições que necessitamos.

 

Gostaria de me referir ao seguinte: na hora em que nós definimos este arco que abrange a nossa base social, já seremos levados às duas prioridades que devem fazer parte essencial de nossas definições. São as duas prioridades máximas do trabalhismo brasileiro. Quero me referir ao nosso compromisso incondicional com as populações marginalizadas da vida brasileira, e antes disso com as nossas crianças e os nossos jovens que estão sendo condenados à degenerescência. (Aplausos). De nada nos adiantarão as definições, as mais bem elaboradas, se não partirmos concretamente dessa posição. Todo o progresso, todo o desenvolvimento terá cheiro de carne humana se nós na encararmos o problema das nossas crianças e dos marginalizados. É inaceitável que existam vinte milhões de crianças carentes no Brasil! Que existam milhões de crianças engrossando o marginalismo, vítimas inocentes, candidatas até mesmo à deficiência mental e loucura por subnutrição, por falta de assistência e pela miséria. Eu tenho tomado contato com dados horripilantes provenientes até da Câmara dos Deputados, recolhidos através de uma CPI onde se constatou que existem quase três milhões de crianças abandonadas, praticamente sem pai, sem mãe, sem procedência, sem nome, sem nada, perambulando pelas ruas e estradas. Não! Isto não tem razão de ser, é inaceitável para nós! E eu acho que aí já surge, por exemplo, não somente uma definição, mas um compromisso do nosso partido que é o de assistir, desde a barriga da  mãe, assistir, acolher, escolarizar, alimentar e educar todas as crianças do nosso País. (Aplausos).

 

Igualdade de oportunidades. Muitos dirão: Istoé sonho, utopia. Nós temos que assumir esse compromisso. E estou convencido que a sociedade brasileira, nesta altura, tem todas as condições para resolver essa questão, não apenas sob o ponto de vista de quadros humanos, mas sob o ponto de vista  de condições materiais. Porque todo o desenvolvimento que lá podemos ter, para nós, não vale nada se não tiver condições, no mínimo, de dar de comer e assistir a essas vítimas inocentes que são as crianças, o futuro da Nação. Tal é a grandeza desse problema que não é apenas um problema, pois compromete o futuro, os destinos da nacionalidade. Aí está, por exemplo, um grande problema nosso. Inarredável, não temos discussão a esse respeito. Quero dizer aos companheiros que não é uma afirmação assim que estou fazendo levianamente. Eu tenho uma experiência vivida neste setor. Posso dizer que é plenamente possível, é mais que possível resolver. Quisera que todos os problemas brasileiros tivessem condições como este para serem resolvidos. Que é necessário é haver humanismo, solidariedade humana, uma outra mentalidade. É preciso que se instituam em nosso país, urgentemente, governos com mentalidade sensível a uma realidade como esta.

 

Quanto às populações marginais, num país de oito milhões e meio de quilômetros quadrados (agora que ando aí pelo mundo, estou vendo), pode haver milhões de pessoas vivendo como cogumelos, nos morros ou nos alagados, disputado dois metros quadrados para viver? Isto para mim, até mais que insensibilidade social, dureza, egoísmo, é incapacidade nacional. Este quadro é inaceitável. Aí está o outro grande compromisso do trabalhismo. Ninguém lutará mais do que nós pelo desenvolvimento, mas o nosso desenvolvimento tem essa concepção – é para todos. Desenvolvimento, sim, mas para todos os brasileiros, dentro de uma concepção global. E dirão os senhores: “Sim, e até resolver isto”? é verdade. Não vai ser com cafiaspirina, nem com caridade. Nós temos que avançar. Creio que nós vivemos uma fase confusa, com grande conteúdo de emocionalidade em 1964, mas que despertou consciências, levantou os problemas que as novas gerações até não conhecem muito. Mas tudo sto eles estão recolhendo hoje, podem crer, naa mais é que o fruto daquela fase e de outras anteriores. Foi um despertar de problemas.


“Em países como o nosso não há desenvolvimento
sem mobilização, não há desenvolvimento sem colaboração
popular. Do contrário, é  elitismo”


Hoje, considero que o trabalhismo está em condições de formular propostas à  Nação. Inclusive recolhendo as experiências de todo mundo, uma proposta que a sociedade brasileira vai aceitar, dado o equilíbrio e a madureza do seu conteúdo, que estão diretamente ligados à oportunidade de trabalho, à uma justa distribuição de rendas, que estão evidentemente interligados com outra ordem de questões, acho que onde haja uma integração do povo, onde haja aquele ambiente em que todos juntos se decidam a irar o carro do atoleiro, eu não tenho dúvidas que encontraremos as soluções. Nenhuma força, nenhuma corrente pol´tica pode, em meu modesto modo de entender – e não é nenhuma pretensão do trabalhismo – possivelmente mobilizar com tanta força o conjunto da sociedade brasileira como nós. E em países como o nosso não há desenvolvimento sem mobilização, não há desenvolvimento sem colaboração popular. Do contrário, é  elitismo. São os grupos elitistas, os pretensos sábios, os auto-suficientes, tipo Geisel, como vimos nestes quinze anos que se dissolvem, que desaparecem como a Invencível Armada ou como os exércitos de Napoleão na imensidão da Rússia czarista. É o nosso povo organizado, em mil formas, ajudando, colaborando, que construirá o desenvolvimento com suas próprias mãos. Desde associações das mais despretensiosas e modestas que nada têm a ver com a organização de partidos. Não para fazer dessas entidades, dos sindicatos, dos organismos de base da igreja, das associações de bairros, de mil identidades de estudos, de reivindicações ou de desenvolvimento, correias de transmissão dos partidos políticos. Não! Aí seria uma concepção totalitária que não tem o conteúdo democrático de nossa natureza. Todos esses organismos devem ser fontes de inspiração de um verdadeiro partido do povo. É a fonte donde nós vamos beber orientação. Nós queremos ser um braço político de toda a sociedade auto-organizada, antevejo o nosso Partido presente como uma sombra, solidário e ao lado das instituições populares. Aí, sim, eu creio no desenvolvimento brasileiro e creio que tudo isso é possível. Acho que o nosso partido deve ser um grande instrumento de mobilização de nosso povo.

 

Fiz referência à base social, como imaginamos, do nosso Partido, e a esses dois grandes compromissos, a essas duas grandes prioridades, a essas máximas prioridades do trabalhismo, intimamente ligadas às suas próprias raízes. E assim todo este conjunto de temas está proposto aos companheiros das comissões para seus estudos e suas reflexões.

 

Outro tema: qual é nosso modelo de sociedade?

 

Isto é uma pergunta constante, de todas as pessoas. Qual é o modelo de sociedade que o trabalhismo propõe? Eu quero dar aqui a minha concepção aos companheiros. Naturalmente que uma sociedade igualitária está em nossos objetivos. É o limite para o qual tende a nossa causa. Mas o nosso modelo de sociedade é aquele que cotem aquelas condições mínimas que permitam ao trabalhismo atuar e executar o seu programa. Muitos costumam dizer que para nós uma sociedade socialista igualitária está  no horizonte… eu ao gosto desta expressão. Na Polônia, por exemplo, quando o partido, o único de lá dizia: “o comunismo está em nosso horizonte”, os camponeses comentavam: “Ah! Que bom que está no horizonte, pois nunca chegará”. Não! O nosso socialismo não pode estar no horizonte. O socialismo democrático para nós é um objetivo concreto. Vamos construí-lo a cada dia, em cada parte, ombro a ombro com nosso povo. Já em 1947, Vargas apontava ao povo brasileiro uma democracia socialista como rumo a seguir. Democracia, liberdade e socialização são valores que para nós se confundem em nossos objetivos.

 

O modelo de socialismo tem que propugnar assim: como uma sociedade democrática, porque é inerente do trabalhismo a democracia, uma sociedade pluralista, no sentido em que nós não excluímos ninguém. Pretendemos propugnar por estruturas substitutivas num ambiente democrático. Uma sociedade participacionista no sentido de uma crescente e cada vez mais dinâmica participação popular. Uma sociedade com as estruturas em transformação de tal modo que cada dia possa se tornar mais livre, mais igualitária, mais fraterna. Assim é que eu definiria o modelo de sociedade do trabalhismo. A seguir, nesse projeto de estrutura, enfocamos o problema da mulher. Entendo que o trabalhismo agora  tem que assumir uma posição clara a respeito. Tanto sob o ponto de vista de seus direitos civis e tudo o mais, quanto também  nós, da organização do partido temos que encarar muito diretamente esse problema. Seria interessante que os companheiros lá no Brasil começassem a discutir se deve a mulher se organizar num compartimento estanque dentro do partido, a organização feminina do partido, u se deve integrar os organismos do partido, iguais aos homens, integrando os organismos de direção. Gostaria de ler brevemente as nossas concepções sobre este tema, resumidas aqui:

 

“O trabalhismo encara com ênfase especial a questão dos direitos civis da mulher e da equivalência de oportunidades a que têm direito, de educação, de formação profissional e de trabalho. Na sociedade brasileira subsistem hábitos arraigados, dificultando a eliminação de injustiças quanto à participação feminina no conjunto do trabalho. Freqüentemente a mulher, no seu emprego, recebe um salário inferior por igual trabalho, pelo fat discriminatório de sua condição feminina. No lar, as tarefas da mulher constituem um pressuposto básico do trabalho remunerado dos outros membros da família. Até agora não tem sido reconhecido, por seu trabalho não remunerado, o conteúdo econômico das tarefas da mulher no lar, como mãe e dona-de-casa, embora tenha uma incidência  de grande importância no nível global da produção econômica do país. O trabalhismo assume uma posição firme e decidida quanto à discriminação da mulher em todas as suas manifestações. Lutará pela definição de seus direitos sociais, no emprego ou no lar, pela igualdade de remuneração, de oportunidades de educação e de formação profissional, acentuando a necessidade de que o país disponha, cada vez mais amplamente, de um serviço de infra-estrutura – creches, jardins de infância, estabelecimentos educacionais em regime de semi-internato, restaurantes, processamento industrial de bens e serviços de tal modo que venham a aliviar a mulher que, numa alta percentagem na sociedade brasileira está submetida a duas jornadas de trabalho: a doméstica e a extradoméstica”. (Aplausos)

 

Considero também que o trabalhismo precisa encarar o problema das populações negras no Brasil. É um tema que temos debatido e sei que n Brasil têm-se ampliado muitos círculos de debate sobre essa questão. Os todos fomos trabalhados a respeito, nossa mente foi trabalhada sempre visando minimizar o problema. Que coincidência é essa, que as áreas de maior pobreza da população são áreas de população negra? Por que? Algo há. O trabalhismo precisa ter definições a esse respeito. Há, no Brasil, uma discriminação. A população negra é uma imensidão, uma porcentagem imensa. E se falamos de população com contribuição de sangue negro, nós somos a maioria esmagadora do povo brasileiro. Este é um dos maiores quadros de injustiça da vida brasileira. É anterior a nós. O caso das populações discriminadas, negra essencialmente, é algo que o trabalhismo não pode deixar de encarar como uma das grandes questões. Nós aqui temos definições a esse respeito e o partido precisa debater esse problema, junto com nossos irmãos de cor negra por toda parte. Que coincidência é esta que os maiores contingentes das populações marginais são negras? Que coincidência é esta que os cárceres estão povoados de uma maioria de brasileiros negros? Que coincidência é esta que todo mudo até aceita pacificamente que se cometa os maiores desrespeitos em matéria de direitos individuais, da família e coletivos, dentro de um ambiente quase de naturalidade. Esta é uma das grandes causas do PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO. E ao vai ter nenhum conteúdo de luta de minorias, de raças, de uma corrente contra outra. Não. Vai ser dentro da nossa visão fraterna da sociedade brasileira. Mas nós queremos atuar esse campo com uma energia que está ligada aos grandes compromissos que o nosso partido tem.

 

Uma outra ordem de definições de grande importância é a questão da auto-organização da sociedade. quando nos referimos à auto-organização pensamos, por exemplo, no sindicalismo que é uma auto-organização da classe trabalhadora. Eu ontem estive conversando com nossos amigos e companheiros sidicalistas, dirigentes sindicais que nos honram com sua presença, como observadores, sem nenhum compromisso conosco, como são nossos companheiros metalúricos, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro e da Federação dos Metalúrgicos. E que vieram simblolizaqr também uma coisa muito linda, muito bonita neste Encontro de Trabalhistas que estão lá no país lutando e dos trabalhistas que eswtão aqui fora, lutando também, e amargando esse exílio: os metalúrgicos que estão lá, também lutando com seus companheiros em plena atividade dentro do país, encontram-se com os companheiros no exílio, com o dirigente Derly Carvalho de São Paulo, um dos heróis da resistência, que perdeu seus irmãos na luta contra a tirania e o veterano presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio, que é o nosso companheiro Benedito Cerqueira, deputado do PTB, cassado em 64 e no desterro há mais de 15 anos.

 

Nós, sem atuar assim especificamente, proporcionamos esse encontro. Aliás, os sindicalistas realizaram um encontro também de grande expressão, que até ns inspirou ara o nosso Encontro, para dizer bem a verdade. Reuniram a Oposição Sindical no exílio com a Oposição Sindical lá dentro. Fizeram uma excelente reunião na Bélgica, que foi uma lição para a vida brasileira, porque tem havido uma separação muito grande entre nós, que nos encontramos no exílio, nós “meio leprosos”, com os companheiros lá de dentro do Brasil. E isso nós precisamos quebrar. Compreendo, foi uma contingência dura, porque houve uma época em que ia um companheiro me visitar no Uruguai, não demorava uma semana, “zas”!… cortavam o seu pescoço – cassavam. Então era natural que houvesse um distanciamento. Agora, na hora em que o espaço político vai abrindo, nós precisamos ir restabelecendo a fraternidade, porque o Brasil necessita do trabalho de todos e a experiência que os brasileiros adquiriram no exílio é algo de um valor inestimável para o povo brasileiro. O povo brasileiro é um – povo que viveu sempre isolado, bloqueado dentro de suas fronteiras e nós necessitamos, justamente agora, aproveitar ao máximo estas experiências.

 

O trabalhismo e a auto-organização, portanto, é um tema de grande importância. Além do sindicalismo, são as organizações populares de todo tipo e ordem que o trabalhismo tem de estimular. E organizações pluralistas: aí tem que estar todos, gente de todas as cores, todos os pensamentos para que a comunidade possa trabalhar unitariamente nesses organismos.

 

Nós queremos parcerias com todas as organizações porque vocês, sindicalistas, para nós são um pouco a nossa natureza. O dia em que não tivermos esta natureza, deixaremos de ser o PTB. E nós não queremos nada de vocês. Vocês vão nos ter sempre ao lado de vocês sem nada pedir. Esperem ara ver. O tempo vai demonstrar. Porque o nosso partido sempre esteve ao lado de vocês, mesmo com nossos problemas, defeitos e erros. Quem não os teve? Historicamente o mais provável é que não poderíamos ser melhor do que fomos. Tanto é assim que ninguém, nenhum outro partido foi melhor do que o PTB. Pois enquanto crescíamos, os outros diminuíam.

 

Outra questão importante é a da propriedade social e da propriedade privada. Lutamos por um outro tipo de propriedade, mais social, mais justa, mais solidária. Mas não excluíamos a outra, de golpe, porque irá sendo substituída. Por exemplo, propugnamos pelo cooperativismo em todas as suas formas, na produção, no consumo, na distribuição. A medida que o cooperativismo for avançando, enraizando-se no interesse popular, quaisquer outras estruturas capitalistas, exploradoras, tendem a desaparecer. Aliás, no meu Estado, existem áreas onde o cooperativismo é já tão forte que eu duvido que haja lugar para uma multinacional colocar lá suas bombas. Somente poderão faze-lo através de uma agressão econômica, que nossas leis certamente não permitirão.mas não há mais lugar para outro tipo de propriedade, porque elas estão ocupadas por um tipo de organização, de relacionamento produtivo e econômico que está enraizado no interesse real da população. É uma nova estrutura, mais justa, mais solidária, mais humana, que tem vida própria, estável, consolidada.


Lutamos por um outro tipo de propriedade,
mais social, mais justa, mais solidária”


Eu gostaria de ler estes tópicos: “O trabalhismo considera que a propriedade,o capital e todos os bens e fontes de produção têm, acima de tudo, uma função social e seu uso, aproveitamento e exploração estão condicionados aos interesses da coletividade e ao conjunto da Nação. Por isso mesmo, é da essência do trabalhismo promover a diversificação e a democratização das relações produtivas, de modo que ouras formas de gestão e propriedade dos meios de produção, de natureza mais justa e social, com base na cooperação e na solidariedade, possam ser incorporadas crescentemente à vida econômica, independente do Estado, mas enraizadas nos interesses reais e diretos da nossa população. Nesta perspectiva é que se insere, por exemplo, o acesso crescente dos trabalhadores às decisões econômicas em geral, particularmente nas grandes empresas públicas e privadas, à sua gestão, à autogestão e ao cooperativismo. Este deverá desenvolver-se em todas as suas formas, nos campos da produção, consumo e distribuição, especialmente nos ramos que mais afetam as necessidades populares e os problemas fundamentais dos pequenos e médios produtores. Só a prática da democracia social decidirá a relativa conveniência e características de cada uma destas soluções. Assim, o Trabalhismo não exclui, mas condiciona aos interesses coletivos a propriedade privada dos meios de produção”.

 

Temos a questão da disciplina e controle do capital e dos investimentos estrangeiros. Nós não excluímos o capital estrangeiro. Nós o queremos disciplinado e controlado, a fm de que4 sua presença e participação na economia do país se subordine rigorosamente ao nosso desenvolvimento independente, aos interesses do povo brasileiro e às garantias dos valores do trabalho do nosso povo.

 

Finalmente, outra questão essencial que o Trabalhismo afirma é que o nosso relacionamento econômico-financeiro internacional, todo esse complexo, constitui grande força alimentadora (uma espécie de dinâmica de causa e efeito) do nosso subdesenvolvimeto do nosso atraso e da nossa pobreza. Nossas estruturas internas – um pouco o que já falamos – têm sido moldadas ao longo do tempo para alimentar nossas relações econômicas com o mundo exterior. Tocar nas estruturas internas, portanto, é intervir no relacionamento exterior. A transformação das estruturas internas de produção e do poder se relaciona intimamente com o grau e o tipo de autonomia que tivermos frente às economias e governos estrangeiros. Nosso caminho alternativo é o de firmemente através de um processo democrático autêntico, ir abolindo os privilégios internos e eliminando a dependência externa. E nós temos consciência deste problema. Isto é de uma importância imensa para nós. O Trabalhismo necessita ter consciência exata e oferecer alternativas e eu creio que nós estamos hoje vivendo uma época muito mais favorável, diferente de há vinte anos atrás. Internamente, pelo fracasso rotundo do regime autoritário de 15 anos e um novo contexto internacional. O mundo de hoje é mais complexo, mas também mais aberto que antes de 1964, com mais alternativas e possibilidades de diálogo. Tenho ouvido, por exemplo, afirmações que a mim até surpreendem. Desenvolve-se pelo mundo inteiro, nas universidades, sindicatos, na imprensa e na opinião pública uma convicção generalizada sobre os malefícios e a exploração selvagem dos povos do Terceiro Mundo pelas empresas multinacionais.

 

Há na Europa, especialmente, todo um outro ambiente, um contexto aberto ao debate. No âmbito da própria vida sindical, os sindicatos se reúnem para discutir as multinacionais. É verdade que com enfoques diferentes, mas discutem. Assunto que era proibido, há vinte anos atrás e assim por diante. Acho que se o trabalhismo colocar essa questão adequadamente, iremos encontrar um contexto internacional bastante acessível a nós em matéria de relacionamento de solidariedade e de apoio.

 

Porque um modelo como este que foi imposto ao Brasil, a mim me parece que os próprios setores mais conservadores dos EUA vão ter que pensar duas vezes. Porque modelo como este só se mantém com autoritarismo, com ditadura. E o autoritarismo se revelou, principalmente diante do problema do Irã, mau conselheiro. E, por conseguinte, o indicado é admitir outro nível de diálogo e de relações econômicas. E creio que nós, Trabalhistas, com os quadros que teremos em nosso país e possuímos aqui foram temos que aprofundar estas questões para formular a nossa posição, as nossas soluções alternativas nessa matéria, que está na essência, no cerne de todos os nossos problemas.

 

Quanto às nossas posições a favor da Reforma Agrária, a colocamos dentro do conjunto do que chamamos de política agrária. Entendo que o trabalhismo tem hoje condições de assumir uma posição amadurecida a esse respeito e que a sociedade brasileira vai acolher e aceitar. Possuímos experiências, quadros, condições para formular posições ajustadas às aspirações do nosso povo e elas poderão ser aceitas sem maiores incompreensões e resistências. Em condições muito diferentes das que encontramos o passado.

 

Quanto ao problema da urbanização, este é um irmão gêmeo do problema agrário. Eu tenho até uma curiosidade imensa, ao regressar, de entrar em contato com esse tipo de problema. O que representa, hoje, o gigantismo da urbanização para o povo trabalhador? Em um período de quinze anos orientaram os investimentos para o transporte individual e sacrificaram a população brasileira a níveis desumanos para conseguir a sobrevivência e o pão de cada dia. Enfim, há aqui um conjunto de notas que estão classificadas para serem distribuídas a essas Comissões, abrangendo toda essa ordem de preocupações que os companheiros estão debatendo.

 

Assim, companheiros, quero pedir desculpas por tomar-lhes tanto tempo. Foi uma exposição que procurei fazer, sem nenhuma pretensão, apenas para encaminhar os temas aos companheiros que vão trabalhar. Nós vamos ter ocasião de discutir muito esses problemas. Acho isso da maior importância, porque à medida que avançamos, iremos formular um conjunto de compromissos concretos que o trabalhismo assumirá para lutar, nas próximas décadas, no Governo ou na oposição, num simples município ou numa Câmara de Vereadores, no Congresso ou no Senado, num Governo de Estado ou no Governo da República.

 

Há pouco afirmamos que nós aqui estávamos começando a escrever uma longa história. Eu estou realmente convencido de que se nós tivermos capacidade, se cultivarmos muita fraternidade entre nós, se tivermos inteligência e, porque não dizer também um pouco de sorte, o trabalhismo polarizará o desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas.

 

Poderemos preparar um grande programa, junto com o nosso povo, de tal modo que com suas próprias mãos, possa conquistar a sua emancipação. Antevejo para o Trabalhismo grandes responsabilidades, mas a nossa tarefa inicial é a organização do nosso povo através do PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO.

 

Muito obrigado.

 

Leonel Brizola