Analfabetismo: Maranhão aplica método cubano

O governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), diz pretender reduzir pela metade o índice de 23% analfabetismo no estado, o maior do Brasil, com a implantação de um sistema cubano de alfabetização.

Segundo o governador, as primeiras turmas de alfabetizadores devem começar a trabalhar em agosto.

“Queremos baixar a menos da metade a taxa vergonhosa que o Maranhão tem hoje”, disse Lago, na nona entrevista da série do G1 com governadores.

O maranhense falou ainda de suas relações com a família Sarney, adversária política no estado, e do envolvimento de seu nome no escândalo da Operação Navalha, que investiga fraudes em licitações públicas.

Formado em medicina, Lago é um dos fundadores do PDT e foi militante da União Nacional dos Estudantes (UNE) 50 anos atrás, quando estudava no Rio de Janeiro. Já foi três vezes prefeito de São Luís e exerce o primeiro mandato como governador.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

G1 – O Maranhão é um estado com alguns dos piores índices socioeconômicos do Brasil. O estado tem um índice de 23% de analfabetismo e de 40% de analfabetismo funcional. Como é possível reduzir esses números em um governo?
Jackson Lago – Você coloca uma questão importante. Nós já demos passos importantes nesse sentido. Estamos implantando um programa de erradicação do analfabetismo, na linha do MEC, mas também temos programas resultantes ou de experiência local, ou de experiência de outras áreas, como o “Sim, eu posso”, do método cubano, que foi adotado pela Venezuela, e a Unesco declarou a Venezuela como tendo erradicado o analfabetismo. Nós agora vamos atuar nesse segundo semestre com métodos diferentes em algumas áreas. E na medida que esses métodos forem sendo avaliados, vamos intensificar aqueles que sejam mais eficientes para nós.


G1 – Como isso vai funcionar?
Lago – É um método que não tem muita complexidade. Tem uma televisão, um instrutor e uma sala de aula. Teve muito êxito na Venezuela. Há uma experiência dele em três municípios do Piauí. Nosso grupo vai agora a Brasília, para entrar em detalhes com a embaixada cubana e com a embaixada da Venezuela sobre a implantação do método.

G1 – A implementação do método cubano no Maranhão envolveria a participação de estrangeiros?
Lago – Nós vamos ter brasileiros. Agora, os estrangeiros naturalmente têm mais experiência com o método. Se for necessário que eles treinem alguma equipe, haverá

esse treinamento. Se não for necessário, será só com equipes nossas.

G1 – Em quanto tempo esse método pode surtir efeitos?
Lago – Em torno de 60 dias.


G1 – Mas em quanto tempo é possível baixar esses índices de analfabetismo?
Lago – É muito temerário estabelecer uma data para um assunto dessa natureza, sobretudo quando ainda não estamos em campo. Vamos começar a partir de agosto. Mas até o final do ano nós teremos uma idéia concreta sobre isso.

G1 – Mas o sr. deve ter uma meta em vista…
Lago – Sim, um patamar de governo…

G1 – Mas de quanto seria isso, governador?
Lago – Queremos baixar a menos da metade a taxa vergonhosa que o Maranhão tem hoje.

G1 – Além do analfabetismo, outro índice ruim é a mortalidade infantil, que no Maranhão está em 42 óbitos por mil nascidos vivos, quando a média do Brasil é de 26 por mil. Lago – Esses indicadores são os indicadores naturais de um estado que empobreceu. O Maranhão não tinha essa natureza. O Maranhão era um estado produtor, abastecia toda a sua população com alimentos, abastecia o Nordeste de arroz, abastecia até o norte de Minas. Só perdia na produção de arroz para o Rio Grande do Sul. Mas nas últimas décadas o Maranhão empobreceu. Adotaram políticas de concentração de terra, de concentração de renda, de concentração de poder, as cidades incharam, o campo se esvaziou. Então é natural que esses indicadores sociais estejam vergonhosos.

G1 – O PIB do Maranhão representa menos de 1% do PIB nacional e o estado tem uma renda per capita muito baixa. Como é possível aumentar a riqueza do estado com uma distribuição melhor da renda?
Lago – Nós estamos primeiro organizando a Secretaria de Agricultura, que tinha sido até eliminada dois governos atrás, restabelecendo um organismo que dava apoio técnico (a agricultores), porque a tradição maranhense é a tradição agrícola. Nós temos retomado medidas para que o Maranhão possa avançar na produção e atrair para o estado projetos para melhorar a qualidade de vida. Nós temos grandes projetos, que foram implantados há 30 anos, que se anunciavam como salvadores da população, mas que em nada melhoraram a qualidade de vida do povo.

G1 – Que projetos?
Lago – De passagem de exportação de minério de ferro, de produção de alumínio, um dos maiores do mundo, mas isso não tem chegado até a população. Nós temos que priorizar a instalação no estado de empresas que alcancem a população.

Desenvolvimento econômico

G1 – Mas como um estado como o Maranhão pode atrair empresas?
Lago – O Maranhão tem atração natural. Tem sol, tem terra fértil, tem muita água. É um estado com o qual a natureza foi generosa. Mas mergulhou durante 40 anos em uma situação que levou a esse processo de empobrecimento. É preciso que o governo estimule essas empresas a vir, mostre que não vai desejar ter participação nessas empresas, que estimule o empresariado, sem criar empresas de ocasião, como vem sendo uma prática antiga nas últimas décadas, que desestimulou o próprio empresariado maranhense.

G1 – O que o sr. quer dizer com empresas de ocasião?
Lago – Nos governos, surgiam empresários de ocasião, com benefícios, com favorecimentos da gestão (administrativa). Esse é um período que queremos superar para que as empresas vejam que podem aqui aportar e desenvolver seus negócios e ter no governo apenas um estimulador, e não um sócio.

Sarney

G1 – Quando os sr. fala das últimas quatro décadas ou do período de empobrecimento do Maranhão nos governos passados, o sr. está se referindo especificamente à hegemonia da família Sarney na política do estado. Como é sua relação com o poder político ainda exercido pelos Sarney no estado?
Lago – É massacre 24 horas por dia. Mas nós não esperávamos que fosse diferente. Não são só 40 anos de domínio de uma política estadual. Esses 40 anos coincidiram com 21 anos de ditadura militar, cujo chefe político local foi presidente do partido da ditadura militar. E, quando a ditadura desapareceu e os estados voltaram a respirar, o Maranhão passou a ter o chefe da política local como presidente da República.

[O senador José Sarney disse em nota ao G1 que sempre foi um democrata, tendo convocado a Assembléia Nacional Constituinte e removido da legislação leis autoritárias, além de ter legalizado os partidos clandestinos quando foi presidente. Segundo a assessoria da governadora Roseana Sarney, todos os índices socioeconômicos do estado melhoraram durante sua administração. Clique aqui para ler reportagem.]

G1 – Depois de sua posse, o sr. teve algum contato com o ex-presidente José Sarney ou com a senadora Roseana Sarney?
Lago – Com o ex-presidente, não. Eu fui um dia ao gabinete da senadora pedir que ela assinasse uma determinada proposição administrativa, uma questão de emenda de bancada. Ela me recebeu com delicadeza e terminou assinando aquilo que eu propunha.

G1 – Sua vitória sobre a senadora Roseana Sarney foi muito apertada e só se definiu na última semana da eleição, o que mostra que o eleitorado estava dividido. Nessas condições, é difícil governar sem o auxílio da família Sarney?
Lago – Realmente é difícil, mas não impossível. Nós estamos agora procurando ter práticas de participação da população, trazer a sociedade para dentro da administração. Quando fui prefeito, implantamos o orçamento participativo. A gente se habituou a dividir com a população os problemas e dividir com ela as decisões. Em nível de estado é mais complexa essa implantação. Mas esses primeiros meses estão dando uma visão clara de como conduzir essa prática participativa como também a olhar a coisa do ponto de vista macro.

G1 – O sr. pode explicar?
Lago – Por exemplo, nós temos aqui problemas de elevada complexidade. Nós temos uma infra-estrutura formidável, a estrada de ferro Carajás, nós temos algumas rodovias, nós temos o porto do Itaqui, um dos principais do país, que depois que for feito o alargamento do Canal do Panamá , daqui a quatro anos, e grandes graneleiros puderem passar, o Itaqui ficará mais próximo da Ásia.

Presidente Lula

G1 – O sr. foi candidato ao governo sem o apoio do presidente Lula, que preferiu apoiar sua adversária, a senadora Roseana Sarney. Como tem sido seu relacionamento com o governo federal?
Lago – Tem sido bom. Aquilo foi um episódio que passou. Eu estive em audiência com o presidente. Ele me tratou bem. Meu relacionamento com os ministérios tem sido bom.

G1 – Ficou alguma mágoa, governador?
Lago – Não, a gente compreendeu a pressão que o presidente recebeu. A gente sabe o poder de fogo desse grupo, mas sobretudo a população compreendeu que aquilo era uma coisa que eles estavam pressionando o presidente a ir lá no palanque. A população estava acostumada a me ver junto com o presidente ao longo de muitas lutas do passado. É verdade, o presidente tem muita popularidade no estado, e aquilo ajudou a diminuir a diferença, que teria sido bem maior (sobre a senadora Roseana Sarney).

Operação Navalha

G1 – O sr. venceu a eleição com um discurso de rompimento com práticas administrativas do passado, mas antes de completar um ano de governo seu nome foi relacionado ao caso da Operação Navalha, de ligação com a Construtora Gautama e o empresário Zuleido Veras.
Lago – Essa empresa veio para cá em 2000, trazida pela então governadora Roseana Sarney. Ela trouxe a Gautama e a OAS para fazer a duplicação do sistema de água de São Luís. Em 2004, a governadora Roseana fez um contrato grande com essa empresa, que está no Tribunal de Contas da União. Em 2004 ela foi contratada para construir 112 pontes. Estão em construção 24 pontes. Em meu governo, foram pagos cerca de R$ 6 milhões correspondentes às pontes em construção e a uma cobrança que havia sido feita em 11 de dezembro e que foi paga em 9 de março. Depois do escândalo, claro que nós mandamos cancelar os dois contratos da empresa, o que a governadora da época, Roseana Sarney, fez com a empresa e o que governador José Reinaldo, que me antecedeu, havia feito em 2004.

[A assessoria da senadora Roseana Sarney negou que a Gautama tenha realizado obras em 2000 no estado, quando ela era governadora. Segundo a assessoria, a licitação foi contestada pelo TCU, e o contrato teria ficado suspenso.]

G1 – Mas agora como fica sua situação?
Lago – Vamos entrar numa fase de ver como esclarecer tudo isso, ver se a empresa também vai entrar na Justiça para mostrar o que ela já fez (de obras).

G1 – Antes do escândalo, o sr. teve algum contato com o sr. Zuleido Veras?
Lago – Não, eu não conheço o sr. Zuleido Veras.

Sobrinhos

G1 – Cerca de 20 dias atrás o sr. reconheceu em depoimento ao Superior Tribunal de Justiça as vozes de dois de seus sobrinhos em gravações da Polícia Federal negociando favores com a Gautama. O sr. conversou com eles após esse depoimento?
Lago – Olha, a informação que eu tenho é que eles desejavam ter um escritório de advocacia deles para trabalhar para a empresa (Gautama). Essa é a versão que eu tenho. Mas a Justiça…

G1 – Foram os seus sobrinhos que disseram isso?
Lago – Sim. A Justiça vai esclarecer. Para você ter uma idéia, essa coisa que vem de 40 anos, esses grandes escândalos aqui no Maranhão, acontecem exatamente no setor de obras, na Secretaria de Infra-Estrutura. Isso são práticas muito antigas. Depois que estourou o escândalo, eu refleti e tive que extinguir o órgão. Eu o anexei à Secretaria de Cidades. É uma forma de varrer métodos e práticas de pessoas que estavam há 20, 30 anos no mesmo local, ajudando com favorecimentos, enfim, com todo esse escândalo.

G1 – O sr. disse que seus sobrinhos teriam manifestado a intenção de abrir um escritório de advocacia…
Lago – Não, um é advogado e tem um escritório e trabalha para muitos municípios. A informação que eu tenho…

G1 – Informação passada por eles?
Lago – É… é que esse escritório teria sido procurado para também ser escritório da empresa e através dele ter relação com os municípios. Mas no fim do processo isso vai ficar claro.

G1 – O sr. acredita que seus sobrinhos poderiam ter envolvimento em alguma ação ilícita?
Lago – Olha, eu sempre os tive como pessoas corretas, sempre tive o maior carinho por eles, e para mim será uma grande surpresa se aquelas gravações não forem coisas fora de um contexto, para mim será motivo de frustração e de tristeza. Mas creio que eles possam ser, ao final da apuração, as pessoas corretas que eu sempre julguei que fossem.

G1 – Apesar de o sr. dizer que a Gautama chegou ao Maranhão em 2000, durante a administração da ex-governadora Roseana Sarney, ela não está sendo apontada por envolvimento com o escândalo, ao contrário do sr., que é acusado pelo Ministério Público de formação de quadrilha e corrupção ativa.
Lago – Os raios caem muito próximo mas nunca em cima dos Sarney. Não é fácil enfrentar um império que está aí há 40 anos.

G1 – Quando estourou o escândalo, o sr. chegou a aventar a possibilidade de seus adversários políticos estarem por trás das denúncias. O sr. ainda pensa assim?
Lago – É só olhar o entusiasmo com que eles procuram me colocar nessa coisa.

Futuro político

G1 – Depois de um passado na vida pública como o que o sr. tem, tendo sido três vezes prefeito da capital, o sr. reavalia sua vida política após ver seu nome envolvido com um escândalo como esse?
Lago – Tive momentos de muita angústia. Mas depois de refletir, acho que mais do que nunca devo fazer o que a população espera de mim, que é entre outras coisas acabar com a roubalheira, como acabei quando fui prefeito três vezes da capital. Eu vou sair daqui do governo da mesma maneira que entrei, como quando fui prefeito: eu não tenho nenhum patrimônio material. Eu sou um militante social de 72 anos, com o mesmo entusiasmo do que quando tinha 20 anos e militava na UNE, no Rio de Janeiro, na faculdade de medicina. Eu recolho esse trauma na busca de mais energia.

G1 – Alguém chegou a ser punido por roubalheira com a qual o sr. tenha acabado?
Lago – Nenhum secretário meu enriqueceu nem ninguém. Então, foi um novo momento. A capital é chamada de ‘ilha rebelde’. É um povo exigente, politizado. Em cinco eleições para a prefeitura, eu ganhei três, e candidatos que eu apoiei ganharam duas. Vencemos porque colocamos diferenças grandes.

G1 – Pelo jeito que o sr. fala, pode-se supor que o sr. pretende disputar a reeleição ao final de seu mandato?
Lago – Minha idade talvez não aconselhe isso. Já estou com 72.