A Era Vargas continua

Em 24 de agosto de 1954, o estadista Getulio Dornelles Vargas estraçalhou com um tiro de revólver o seu próprio coração, em ato político extremo para responder aos seus detratores e aos inimigos internos e externos que não se conformavam com a abertura de caminhos que levassem à emancipação econômica do Brasil.
 
Getulio escreveu e nos deixou uma Carta Testamento que ainda ressoa em todos os quadrantes da Pátria: “Aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo jamais será escravo de ninguém.
 
Ele sancionou a Lei 2004, de 03 de outubro de 1953, que criou a Petrobras, e anunciou em Curitiba no Centenário do Paraná, 19 de dezembro de 1953, que enviaria ao Congresso Nacional a mensagem de fundação da Eletrobras, cuja lei só viria a ser sancionada em 1962 pelo seu herdeiro político, o presidente João Goulart.
Vejam a denúncia constante da Carta Testamento: “Quis criar a potencialização de nossas riquezas através da Petrobras e mal esta começa a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobras foi obstaculada até o desespero”. Os interesses econômicos das corporações internacionais, principalmente dos Estados Unidos, não aceitavam que a Petrobras e a Eletrobras viessem a explorar o petróleo e a energia elétrica, dois filões que queriam manter exclusivos para as multinacionais.
 
Antes, Vargas já tinha criado em 1942 a Companhia Vale do Rio Doce, após nacionalizar a Itabira Iron, e a Cia. Siderúrgica Nacional de Volta Redonda, para transformar em aço nossas reservas minerais de ferro. Em 1952, Getulio Vargas fundou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), ao qual anos depois foi acrescentado o S (BNDES). Por incrível que pareça, no seu discurso de despedida do Senado Federal, em dezembro de 1994, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso proclamou o “fim da Era Vargas”. E no discurso de posse, ao citar os principais acontecimentos da história do Brasil, ignorou a Revolução de 1930, e não mencionou o nome de Getulio Vargas, o que é imperdoável para um sociólogo e professor universitário.
Dominado pela doutrina do neoliberalismo, traçada pelo “Consenso de Washington”, que reuniu economistas conservadores na capital norte-americana em novembro de 1989, Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência da República em 1º de janeiro de 1995, e não perdeu tempo. Patrocinou em 1995 emenda constitucional que eliminou o monopólio estatal do petróleo e aprovou em um Congresso subserviente a Lei 9.478/1997, que criou a Agência Nacional do Petróleo, estabeleceu leilões para concessão de blocos a firmas estrangeiras, assegurando a estas a propriedade do petróleo que fosse descoberto. Um terço da Refinaria Alberto Pasqualini no Rio Grande do Sul foi transferido à Repsol da Espanha, em troca da aquisição pela Petrobras de companhia na Argentina.
FHC privatizou em maio de 1997, a Cia. Vale do Rio Doce por ínfimos US$ 3,3 bilhões quando geólogos da CPRM a avaliavam em 1,7 trilhão de dólares, e privatizou a Eletropaulo de São Paulo e a Light do Rio de Janeiro, e tentou vender com o apoio dos governadores Jaime Lerner no Paraná e Eduardo Azeredo de Minas Gerais a Copel e a Cemig. Diligenciou para passar ao capital privado a Companhia Hidroelétrica de São Francisco, a Eletronorte e Furnas; ele não contava com a violenta reação do então governador Itamar Franco, que ameaçou mobilizar a Força Pública de Minas Gerais, e do Deputado Federal Aécio Neves, presidente da Câmara dos Deputados, que combateu com veemência a esdrúxula intenção presidencial.
 
Negociou na Bolsa de Nova York a preço barato 31,72% de ações nominativas da Petrobras com direito a voto e quase consumou golpe mortal contra a estatal. O presidente Philipe Reichstul contratou sem licitação agência para criar novo logotipo e mudar o nome de Petrobras para Petrobrax, com a alegação que soava melhor no exterior e tirava a conotação exageradamente nacional de Petrobras. A reação contrária foi imediata e unânime e ele desistiu da idéia.
O BNDES na grande crise do capitalismo norte-americano de 2008/2009, igual ou pior do que e de 1929, teve papel preponderante, juntamente  com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, para que o Brasil passasse ao largo da crise, com empréstimos às empresas estatais e privadas, suprindo a lacuna dos bancos particulares nacionais e estrangeiros, que se retraíram na concessão de empréstimos.
 
Enfim, a genialidade de Getulio Vargas está viva impulsionando o Brasil para futuro de glória e de realizações, que nos elevará nos próximos 10 anos à quinta potência mundial. Vou concluir este artigo lembrando palavras proféticas de Getulio Vargas, quando antecipou o surgimento de Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso proferido em Porto Alegre, dia 20 de setembro de 1952. Disse o estadista: “Estou certo de que dos embates eleitorais nos sindicatos resultará o fortalecimento do espírito democrático da classe trabalhadora. Muitos líderes novos surgirão, compenetrados da sua missão de harmonia social e de recuperação econômica da Nação”. E completou: “Hoje, estais no governo, amanhã, sereis o governo”.
Léo de Almeida Neves é presidente do Conselho de Administração da COPEL e membro da Academia Paranaense de Letras.